

Que condições oferecemos para que possam viver com dignidade, participar das decisões e exercer seus direitos?
Neste mês, pela primeira vez, a Torre do Relógio da USP será iluminada de prateado. A ação faz referência ao Outubro Prateado e à valorização da pessoa idosa, em alternância com a iluminação dedicada ao Outubro Rosa. O gesto dá visibilidade ao envelhecimento e nos convida a reconhecer a longevidade como uma conquista que traz novos desafios e responsabilidades para a Universidade e para a sociedade.
Vivemos mais. Essa é uma das grandes conquistas do nosso tempo. Mas o número de anos vividos não responde, por si só, a uma questão essencial: como queremos envelhecer e que sociedade estamos preparando para vidas cada vez mais longas?
Falar em envelhecimento saudável envolve saúde, autonomia e capacidades, mas também vínculos, pertencimento, ambientes favoráveis e oportunidades de participação. Essa compreensão orienta a Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030, proposta pela Organização Mundial da Saúde. A participação das pessoas idosas é essencial para que as iniciativas respondam às suas necessidades e contribuam para melhorar suas vidas, as de suas famílias e as de suas comunidades.
Isso exige rever a forma como vemos o envelhecimento. As pessoas idosas têm o direito de participar da construção de políticas, serviços e respostas aos desafios que lhes dizem respeito.
Reconhecer seus conhecimentos e experiências implica criar oportunidades para que possam aprender, ensinar, tomar decisões e atuar nos lugares onde vivem, de acordo com seus interesses e possibilidades.
É nessa relação que envelhecimento e sustentabilidade se encontram. Não é possível pensar em envelhecimento saudável em um planeta adoecido. Mudanças climáticas, eventos extremos, poluição, insegurança alimentar, desigualdades sociais, falta de acesso à água, barreiras à mobilidade e condições precárias de moradia podem comprometer a saúde e a dignidade ao longo da vida. As respostas a esses problemas precisam considerar tanto as necessidades das pessoas idosas quanto sua participação na construção das soluções.
A perspectiva do Envelhecimento Sustentável para a Saúde Planetária nasce dessa compreensão. Envelhecer bem depende das condições em que vivemos e das relações que estabelecemos entre nós e com o planeta. As escolhas individuais têm seu papel, mas são influenciadas pelas oportunidades e pelos limites dos ambientes naturais, sociais e econômicos. Promover o envelhecimento saudável e sustentável exige, portanto, ações que alcancem essas condições. Além de oferecer serviços e orientar hábitos, precisamos construir comunidades que apoiem a autonomia e a independência, o acesso ao cuidado e a participação durante toda a vida.
Nesse sentido, a ativação comunitária, entendida como a mobilização das pessoas para atuar nas questões de sua comunidade, pode ser uma estratégia importante. Compartilhar conhecimentos, mobilizar seus pares e participar das decisões locais são maneiras de influenciar o cotidiano e construir respostas coletivas aos desafios do envelhecimento e da sustentabilidade.
Essas experiências podem fortalecer os vínculos, o sentimento de pertencimento e o propósito de vida. Envelhecer bem envolve também ter espaço para falar e ser ouvido, continuar aprendendo e participar da vida comunitária. Esse direito deve ser assegurado para todas as pessoas idosas, sem que a valorização de uma pessoa dependa de sua capacidade de contribuir.
Essa discussão é especialmente necessária em uma sociedade que frequentemente associa a velhice à perda e à dependência. Há vulnerabilidades que precisam ser reconhecidas e atendidas, mas elas não podem definir toda a nossa compreensão das pessoas idosas. As experiências de envelhecimento são diversas, assim como as necessidades, os desejos e as possibilidades de cada pessoa.
Reconhecer pessoas idosas como produtoras de conhecimento, lideranças comunitárias e agentes de transformação significa dar espaço a capacidades que muitas vezes deixam de ser reconhecidas por falta de oportunidades. Ao mesmo tempo, precisamos garantir cuidado, proteção e apoio a quem deles necessita. Essas responsabilidades fazem parte de uma sociedade que respeita o envelhecimento em sua diversidade. O Dia Internacional da Pessoa Idosa nos convida a pensar sobre o que estamos fazendo com os anos que ganhamos como sociedade. Estamos construindo comunidades onde seja possível pertencer, participar e encontrar apoio durante toda a vida? As pessoas idosas estão sendo ouvidas nas decisões sobre o presente e o futuro?
Neste Outubro Prateado, a luz que ilumina a Torre do Relógio da USP pode trazer essas perguntas para o centro da nossa atenção. O prateado simboliza a longevidade e nos lembra das experiências, dos conhecimentos e das possibilidades que acompanham vidas mais longas.
Preparar a sociedade para o envelhecimento populacional exige criar condições para viver mais e melhor, com direitos, cuidado e oportunidades. As pessoas idosas fazem parte desse futuro e de sua construção. Seus conhecimentos e sua participação podem contribuir para o Desenvolvimento Sustentável e para a Saúde Planetária, aproximando a experiência acumulada ao longo da vida das decisões que afetam a busca por um futuro mais sustentável para todas as pessoas.
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