A resiliência do voto bolsonarista em 2026 já é, sem dúvida, um dos grandes fenômenos da política contemporânea. Crivado de escândalos marcados por vídeos, gravações, vazamentos e flagrantes, a candidatura de Flávio Bolsonaro segue firme. Nesse cenário, não se deve estranhar que a clivagem social profunda que se instalou na sociedade brasileira abarque todos os segmentos de um país tão diverso quanto o nosso.E chegue, até mesmo, aos povos indígenas.
Já escrevemos sobre o fenômeno dos indígenas de extrema-direita em duas oportunidades no âmbito das atividades do Observatório das Eleições 2022, realizado pelo Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. À época, chamamos à atenção para algumas premissas importantes.
Etnias e realidades distintas
Primeiro, é necessário entender que a população indígena brasileira é heterogênea, composta por centenas de etnias que vivem realidades distintas umas das outras e interagem com um amplo conjunto de atores políticos e sociais locais. Em outras palavras, os povos indígenas não podem ser compreendidos como um grupo social coeso, apresentando antagonismos que se refletem em preferências políticas e partidárias múltiplas.
Além disso, é preciso esquecer o clichê de que “todo indígena é de esquerda”, como querem fazer crer muitos de seus adversários políticos. Se tomarmos a realidade das candidaturas indígenas em eleições locais como base para inferir mais amplamente sobre os demais níveis federativos, essa afirmação simplesmente não encontra amparo na realidade.
A agenda de pesquisa sobre o tema não parece ter avançado de modo significativo desde então, mas um levantamento que estamos conduzindo na Universidade Federal de Viçosa traz mais elementos que ajudam a delinear os aspectos básicos desse fenômeno.
Nossa pesquisa identificou a candidatura de 19 indígenas a cargos de deputado estadual, que se apresentam como bolsonaristas. Quase todos os pesquisados se candidataram por partidos do espectro da direita ou centro-direita: PL, AVANTE, PATRIOTAS, PODEMOS, PROS, PRTB, REPUBLICANOS, UB, PSDB, PSC, PSL e PTB.
Ainda uma pequena minoria
As candidaturas indígenas de direita estão distribuídas, em termos regionais, da seguinte forma: seis na Região Norte, cinco no Sul, quatro no Nordeste, três no Sudeste e uma no centro-oeste. Ressalte-se que pudemos observar que se tratam de candidaturas com alto grau de descontinuidade, ou seja, de indivíduos que pouco se apresentam para cargos políticos de forma sequencial. Vale lembrar também que o grupo segue sendo uma pequena minoria. Somando todos os espectros políticos, o TSE registrou este ano um total de 191 candidatos autodeclarados indígenas em todo o país. Ou seja, a grande maioria dos indígenas almejando cargos públicos no Brasil é de esquerda.
Para compreendermos, em profundidade, quais são os seus principais temas de campanha coletamos, entre 2018 e 2026, 354 postagens das redes sociais de cinco destes candidatos. Os resultados são reveladores.
A maioria das postagens - cerca de 100 - referem-se à aspectos da vida pessoal dos candidatos e divulgação de agendas políticas e institucionais. Ou seja, os dados sugerem que as redes sociais são utilizadas de modo a construir uma presença rotineira junto aos eleitores, um uso que não difere de modo significativo de candidaturas não-indígenas.
Posts com mensagens bolsonaristas e antipetistas
Na sequência, há 87 postagens explicitamente vinculadas ao bolsonarismo, convocações para atos de defesa do ex-presidente e mobilização de eleitores e militantes para atividades partidárias que encampam pautas conservadoras.
Com quase igual peso - 80 postgagens - estão mensagens e compartilhamentos focados na divulgação do antipetismo e no ataque ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de críticas aos seus aliados políticos.
Política armamentista, segurança pública e alusões aos militares, pautas caras ao bolsonarismo, também fazem parte dos interesses dos candidatos e candidatas indígenas de extrema-direita, com 36 postagens. Sintomaticamente, encontramos 30 publicações com ataques às instituições democráticas brasileiras e pedidos de anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Por fim, com bem menos destaque nas redes sociais dos candidatos estudados, ficaram as pautas mais afetas ao cotidiano das comunidades indígenas do país. Apenas 13 relacionadas ao meio ambiente e atividades econômicas dentro e fora de terras indígenas, e oito com críticas à atuação de Organizações Não-Governamentais junto aos povos indígenas.
Em síntese, os dados que apresentamos aqui, em que pesem não permitirem inferências causais definitivas para o universo de candidaturas indígenas de extrema-direita no país, sugerem alguns achados interessantes.
‘Correias de transmissão’ de mensagens conservadoras
Em primeiro lugar, não parece haver uma diferença substantiva, em termos de pautas políticas, entre políticos de extrema-direita não-indígenas e indígenas. Assim, é plausível pensar as candidaturas de indígenas de extrema-direita como correias de transmissão das pautas bolsonaristas para o coração de comunidades indígenas localizadas, frequentemente, em algum dos lugares mais remotos do país.
Em segundo lugar, dá o que pensar o fato de que os temas propriamente relacionados ao cotidiano das comunidades indígenas não sejam o centro das preocupações dos candidatos e candidatas. Seus pleitos teriam mais sucesso caso apelassem mais para as realidades locais do que se insistissem em participar de debates nacionalizados que podem não ressoar com o eleitorado que vive nas terras indígenas?
Concluímos reforçando a necessidade de que acadêmicos de todas as áreas se interessem pelo fenômeno dos indígenas de extrema-direita, especialmente em suas relações com partidos políticos conservadores, missões evangélicas e as organizações militares.
O maior entendimento dessas conexões pode abrir a porta para que descubramos transformações sociais profundas pelas quais estão passando os povos indígenas brasileiros contemporaneamente. As eleições de 2026 serão, sem dúvida, um momento crucial para observarmos em que medida o fenômeno dos indígenas de extrema-direita se aprofundará ou refluirá.
Este artigo foi escrito em parceria com João Gabriel Cardoso Ruas, graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)

Leonardo Barros Soares não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
