Mães na política: conciliar campanha e cuidado com os filhos ainda é barreira para candidatas das  periferias

به قلم Carol Lima / Felipe Barbosa / Raphaela Guimarães01/10/2026 às 19:5926 بازدید

Nas eleições de 2026, parte das candidatas das periferias da Grande São Paulo enfrenta um desafio extra: são mães solo e de crianças com deficiência, que precisam conciliar campanha, mandato e cuidado com os filhos, sem rede de apoio. A jornada inclui dividir o tempo entre reuniões partidárias, atos de rua, atividades escolares, consultas médicas e organização da casa.

O resultado? Sobrecarga das candidatas e pouco tempo para se dedicar a campanha, o que, no limite, ajuda a afastar as mulheres periféricas dos espaços de poder. Não à toa, enquanto 51% da população de São Paulo é feminina, elas ocupavam apenas 28% das cadeiras da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) em 2025, segundo o órgão.

“Não é fácil se candidatar, mas ao mesmo tempo é extremamente importante. A mãe vai conseguir pensar em educação, saúde, segurança pública, acessibilidade e transporte público, porque ela sofre todos os dias com esses problemas e lida com eles dentro da sua casa”, afirma a codeputada estadual Ana Laura Axé, 32, do Coletivo SP Pretas, pelo PSOL.

Ana Laura, co-deputada no Terreiro de Umbanda Cocriadores de Olorún, em Jandira, na Grande São Paulo @Léu Britto/Agência Mural
Ana Laura, co-deputada no Terreiro de Umbanda Cocriadores de Olorún, em Jandira, na Grande São Paulo @Léu Britto/Agência Mural

Ana Laura, co-deputada no Terreiro de Umbanda Cocriadores de Olorún, em Jandira, na Grande São Paulo @Léu Britto/Agência Mural

Mulheres com filhos na política enfrentam desigualdade no financiamento de campanhas e falta de apoio partidário. Mas também são essenciais para tornar o Legislativo um espaço mais plural, alinhado às demandas reais das mães, em especial as das periferias, mais dependentes das políticas públicas.

“Quando o partido convida uma mulher a concorrer, mas deixa inteiramente a cargo dela viabilizar o cuidado dos filhos, ele mantém uma barreira à sua participação”, critica Beatriz Mendes Chaves, 28, doutoranda em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política pela USP.

Cuidado, o motor da política

“Eu não tenho somente empatia pelas pessoas, eu vivo o que estou defendendo”, afirma a candidata a deputada federal pelo Novo, Amanda Oliveira, 40, mãe de quatro filhos – Pedro, 17, Isabela 15, Miguel 13 e Daniel 9. Após passar por uma relação abusiva e perder a guarda dos filhos para o pai, decidiu entrar na política para tentar impedir que outras mulheres vivam a mesma situação.

Moradora do Jabaquara, na zona sul de São Paulo, Amanda se identifica como uma mulher de direita e liberal e defende maior presença de mães na política.

“Resolvi transformar minha indignação em ação. Recebo muitas denúncias de mães que são afastadas dos filhos por vingança”, diz.

‘O número de mulheres que sofrem violência, mas que não denuncia, é enorme. Estava dentro dessa estatística. Levei 16 anos para contar o que acontecia em casa, porque achava que estava protegendo meus filhos’

Amanda, candidata da deputada federal

Entre suas propostas está a proteção de mulheres e crianças como prioridade. Para a candidata, ampliar as oportunidades de trabalho e estudo é o caminho para fortalecer a autonomia financeira das mães e diminuir a dependência que pode mantê-las em ciclos de abuso.

Amanda Oliveira, junto com os filhos é candidata a deputada federal, ela entrou na política para lutar pelos filhos e para defender o direito de outras mulheres e crianças @Arquivo pessoal/Divulgação
Amanda Oliveira, junto com os filhos é candidata a deputada federal, ela entrou na política para lutar pelos filhos e para defender o direito de outras mulheres e crianças @Arquivo pessoal/Divulgação

Amanda Oliveira, junto com os filhos é candidata a deputada federal, ela entrou na política para lutar pelos filhos e para defender o direito de outras mulheres e crianças @Arquivo pessoal/Divulgação

“O dinheiro é a maior forma de um homem manipular uma mulher. Mães acabam perdendo a guarda dos filhos pela demora que têm para se restabelecer financeiramente. É custo de advogado, moradia, alimentação e a falta de pagamento de pensão. Eu tenho um ano de pensão atrasada que meu ex-marido nunca pagou.”

A cientista política Beatriz Mendes Chaves reforça que as mulheres tendem a ser mais cobradas, em especial porque a dedicação à política pode ser interpretada como negligência com os filhos.

“Cozinhar, limpar, acompanhar uma criança à escola, cuidar de alguém e organizar a rotina de uma família são trabalhos indispensáveis. Quando essas responsabilidades recaem desproporcionalmente sobre as mulheres, diminuem suas condições de participar de reuniões, construir relações políticas e sustentar uma candidatura”, diz.

Ao mesmo tempo, partidos políticos chegam a usar as candidaturas das mães como uma forma de se reafirmar plural publicamente – mesmo que não ofereçam condições concretas para que elas exerçam a maternidade durante a campanha.

Por isso, a especialista defende que só o fato de haver concorrentes femininas não demonstra que os partidos ofereçam condições para as mães disputarem eleições. Horários previsíveis, acolhimento de crianças, planejamento de deslocamentos e apoio durante a campanha são algumas das medidas que poderiam reduzir essas barreiras.

“Isso significa responsabilizar os homens por sua participação cotidiana e organizar as instituições políticas para acolher quem cuida. Enquanto o cuidado for tratado como uma obrigação privada das mulheres, a igualdade de participação política continuará limitada pelas condições que cada uma tem de compartilhar esse trabalho”, completa.

Mães na política

Uma das duas únicas mulheres na Câmara Municipal de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, e candidata a deputada estadual pelo PCdoB, Najara Costa, 45, equilibra os pratos para tentar conciliar a maternidade com a campanha política.

Mãe solo de Fábio Costa, 15, ela pontua que a maternidade intensificou sua vontade de lutar politicamente por uma sociedade mais justa, mas também trouxe desafios ainda maiores para seu papel de mãe.

Najara Costa define a maternidade como um espaço de solidão que transformou as as lutas @Arquivo pessoal/Divulgação
Najara Costa define a maternidade como um espaço de solidão que transformou as as lutas @Arquivo pessoal/Divulgação

Najara Costa define a maternidade como um espaço de solidão que transformou as as lutas @Arquivo pessoal/Divulgação

“A mulher está à frente das cobranças da vida pública, desde a necessidade de marcar uma consulta em uma unidade de saúde para o filho, até a tentativa de garantir uma vaga na creche para ele. É necessário que haja mais mulheres na política para que a sociedade seja mais democrática”, diz a candidata.

Najara defende que o cuidado diário dos filhos não deve ser tratado como uma luta individual, mas sim como uma política pública. Por isso, usa seu cargo na vereança para propor e fiscalizar políticas para as mulheres, em especial as mães.

Se eleita, pretende levar para a Assembleia Legislativa de São Paulo uma plataforma centrada na defesa dos povos tradicionais de matriz africana, na educação e nas mulheres, tudo atrelado ao combate ao racismo.

Em Cotia, na Grande São Paulo, a enfermeira Cida Aires, 55, também concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa, pelo PSOL. Ela viveu na pele a realidade de ter filhos pequenos para criar, sem trabalho, rede de apoio ou políticas sociais e quer impedir que outras mulheres passem pelo mesmo.

Mãe de três filhos, hoje adultos, precisou parar de estudar no 2º ano do ensino médio para se dedicar a eles. Depois de separada do pai das crianças, não conseguiu pensão alimentícia e teve que recorrer à ajuda financeira da mãe.

“Uma mãe que cria seu filho sozinho, que precisa trabalhar e garantir o sustento, não tem como cuidar de tudo”, diz Cida. “Eu tinha muito medo de errar na educação deles. As coisas só melhoraram depois que eu voltei a estudar, porque você adquire mais conhecimento e também uma situação financeira melhor”.

Como mãe solo, o maior medo de Cida era não conseguir sustentar e criar seus três filhos @Arquivo pessoal/Divulgação
Como mãe solo, o maior medo de Cida era não conseguir sustentar e criar seus três filhos @Arquivo pessoal/Divulgação

Como mãe solo, o maior medo de Cida era não conseguir sustentar e criar seus três filhos @Arquivo pessoal/Divulgação

Como enfermeira, foca suas pautas na saúde da mulher, sobretudo na humanização do atendimento e na demora para exames que podem detectar câncer de mama pelo SUS. Além disso, quer criar uma lei que obrigue o governo do Estado a trazer AME (Ambulatórios Médicos de Especialidades) para todas as cidades da Grande São Paulo.

Beatriz Mendes Chaves, 28, cientista política, reforça que mulheres com filhos enfrentam desigualdade no financiamento de campanhas, falta de apoio partidário e dificuldade de chegar aos espaços de liderança.

Para além da campanha

As experiências das candidatas mães revelam uma barreira central para sua participação política: a divisão do trabalho de cuidado. Porém, a dificuldade de conciliar maternidade e política não termina quando uma mulher conquista um cargo público. Para quem já está no Legislativo, o desafio passa também pela permanência e pela eterna conciliação entre o mandato e as responsabilidades de cuidado.

Mônica Seixas, 40, é moradora da Vila Guilherme na Zona Norte, candidata à reeleição para deputada estadual pelo PSOL e mãe solo atípica de uma criança de 13 anos com autismo, grau de suporte 2. Representante do Coletivo SP Pretas, ela concilia a vida política e a maternidade atípica em uma rotina atribulada, com pouco tempo.

Candidata para Deputada Estadual, Mônica Seixas é representante do Coletivo SP Pretas na Alesp @Arquivo pessoal/Divulgação
Candidata para Deputada Estadual, Mônica Seixas é representante do Coletivo SP Pretas na Alesp @Arquivo pessoal/Divulgação

Candidata para Deputada Estadual, Mônica Seixas é representante do Coletivo SP Pretas na Alesp @Arquivo pessoal/Divulgação

“Às vezes a gente acaba deixando alguma coisa cair. Eu tenho muitas dificuldades para manter meu filho na escola por ele ser uma criança atípica, por isso meu filho hoje fica aos cuidados da minha mãe no período que estou no trabalho”, conta. O movimento SP Pretas é um mandato coletivo de seis mulheres pretas que tentam a reeleição para a Assembleia Legislativa de São Paulo.

Em Itapevi, na Grande São Paulo, Ana Laura Axé, também do Coletivo SP Pretas,concorre pelo PSOL no cargo de codeputada estadual. Mãe solo de duas crianças, Carlos Eduardo,8, e Iami Dandara, 4, ela atua politicamente há 11 anos em defesa dos direitos das mães, dos educadores e do povo de terreiro.

“É difícil conciliar. Tive dois relacionamentos tóxicos com os pais dos meus filhos e isso me prejudicou na política. Preferi buscar rede de apoio com a minha família e encampar essa luta [pelas mulheres]”, conta. “[A política] é um espaço que não foi feito para gente. É muito difícil colocar mulheres pretas e mães nos espaços de poder. Conquistar isso foi uma coisa totalmente transformadora para mim, mudou a minha vida e a dos meus filhos”.

Candidata a Codeputada Estadual Rose Soares busca a reeleição em 2026 junto com o Coletivo SP Pretas @Arquivo pessoal/Divulgação
Candidata a Codeputada Estadual Rose Soares busca a reeleição em 2026 junto com o Coletivo SP Pretas @Arquivo pessoal/Divulgação

Candidata a Codeputada Estadual Rose Soares busca a reeleição em 2026 junto com o Coletivo SP Pretas @Arquivo pessoal/Divulgação

Rose Soares, 50, moradora de Barueri, na Grande São Paulo, também é mãe solo de dois filhos, Victoria, 26, e Arthur, 19, e candidata a codeputada estadual pelo SP Pretas (PSOL), junto com Mônica Seixas e Ana Laura Axé. Decidiu entrar na política em 2018, após se sentir profundamente indignada pelo assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL).

“São muitas as dificuldades a maternidade solo e temos um sistema político que não foi feito para as mulheres, tanto que não somos nem metade do parlamento. Eu por exemplo tenho uma jornada dupla, tripla, faço faculdade, trabalho na política, cuido da casa e dos filhos, então muitas vezes a gente não vai dar conta de tudo”, diz Rose. “Não basta sermos eleitas, existe uma luta para permanecermos nesse espaço”.

Essa reportagem foi feita em parceria com o canal Amado Mundo e integra o projeto “Territórios do Voto”, que reúne veículos independentes de diferentes regiões do país para produzir uma cobertura eleitoral ancorada nas realidades locais.

Agência Mural

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