Estados gastam mais com polícias e prisões do que com moradia, saneamento e trabalho, aponta estudo

Von Mariana Rosetti29/09/2026 às 19:2927 Aufrufe
Polícia Militar realiza operação contra o crime organizado em Paraisópolis
Polícia Militar realiza operação contra o crime organizado em Paraisópolis
Brasil de Fato

Na disputa pelo orçamento público nos estados brasileiros, as polícias e o sistema prisional vencem com folga diversas áreas ligadas ao desenvolvimento e ao bem-estar social. Em muitos estados, o gasto com essas estruturas supera a soma das despesas com habitação, saneamento, trabalho, cultura, assistência social e transporte.

Esse desequilíbrio é o principal alerta da nova edição da pesquisa “O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros“, elaborada pelo Justa — organização de pesquisa e incidência que analisa a gestão e o financiamento do sistema de Justiça no país. O levantamento analisou os orçamentos das polícias, do sistema prisional e de políticas para egressos em 2025 em 26 unidades federativas. Somente o Acre não respondeu.

Em Minas Gerais, por exemplo, o estado gastou R$ 13,6 bilhões com polícias e sistema prisional, mais do que os R$ 13,4 bilhões destinados à soma de outras 17 áreas do orçamento público. Entre elas estão transporte (R$ 2,2 bilhões), ciência e tecnologia (R$ 618 milhões), saneamento (R$ 389 milhões), cultura (R$ 373 milhões), assistência social (R$ 173 milhões) e habitação (R$ 81 milhões).

A concentração de recursos também aparece em outros estados. No Amapá, o gasto com polícias e sistema prisional foi maior do que a soma dos valores destinados a outras 15 áreas do orçamento. Em Alagoas, Espírito Santo, Paraíba e São Paulo, os recursos para polícias e prisões superaram a soma dos gastos de outras 14 áreas.

No Ceará, a comparação envolveu menos áreas do orçamento. A soma dos gastos com transporte (R$ 2,7 bilhões), assistência social (R$ 823 milhões), gestão ambiental (R$ 1,3 bilhão) e trabalho (R$ 143 milhões) chegou a aproximadamente R$ 5 bilhões, ainda abaixo dos R$ 5,1 bilhões destinados às polícias e ao sistema prisional.

Mesmo assim, os dados mostram um desequilíbrio orçamentário dentro da própria segurança pública. Os recursos se concentram nas polícias militares e no encarceramento, enquanto outras etapas do sistema de Justiça criminal recebem parcelas menores do orçamento.

A coordenadora de pesquisa do Justa, Taciana Santos, relaciona essa distribuição de recursos ao cenário político. Segundo ela, a escolha orçamentária está “associada ao crescimento da bancada da bala e do populismo penal na política, como observamos pelo número de candidatos que se elegem instrumentalizando a insegurança como principal bandeira eleitoral”.

Mais recursos para prender, menos para investigar

Em todo o país, os gastos com as polícias chegaram a R$ 103,5 bilhões em 2025. Desse total, R$ 60,7 bilhões, cerca de 58%, foram destinados às polícias militares. Responsáveis pelo policiamento ostensivo, as PMs atuam na prevenção de crimes e em ocorrências de flagrante, como furtos, roubos e situações relacionadas ao comércio de drogas.

Já as polícias civis, encarregadas das investigações de crimes em geral, receberam R$ 22,2 bilhões (21%) no período. Às polícias técnico-científicas, a cargo da perícia e da produção de provas, foram destinados R$ 2,8 bilhões (3%).

Felippe Angeli, coordenador de advocacy do Justa, avalia que essa escolha orçamentária dificulta que a polícia acompanhe a sofisticação do crime organizado, já que serviços de inteligência, ou produção de evidências mais robustas, dependem das polícias civis e técnico-científicas — que, juntas, receberam cerca de 59% menos recursos que as PMs em 2025.

O resultado é um sistema que produz provas frágeis, ao mesmo tempo que prende muito uma classe específica de pessoas. O Justa cruzou dados orçamentários com o Levantamento de Informações Penais (SISDEPEN) e revelou que, dos R$ 22,3 bilhões gastos pelos estados com o sistema prisional em 2025, R$ 13,7 bilhões correspondem ao encarceramento de negros. É o equivalente a R$ 6 de cada R$ 10 injetados no setor.

“Os dados evidenciam uma realidade sistêmica: o Brasil prende muito e prende mal. A grande maioria das pessoas presas é pobre e preta, e essas pessoas acabam sendo entregues às facções no sistema prisional”, avalia Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.

E a mesma máquina pública milionária que encarcera essas pessoas não está presente na saída. Em 2025, para cada R$ 5.423 enviados às polícias e R$ 1.169 ao sistema carcerário, investiu-se R$ 1 em políticas para egressos. O suporte a essas pessoas representa, em média, 0,001% dos gastos estaduais.

A promessa de Bukele

Em sabatina ao g1 e à GloboNews, Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), candidatos à Presidência da República, indicaram o “modelo de El Salvador” como referência de gestão de segurança pública. Já Flávio Bolsonaro (PL) elogiou o modelo em mais de uma ocasião, tendo, inclusive, se reunido com lideranças do governo do país.

Para reduzir o crime organizado e o índice de criminalidade no país, o presidente Nayib Bukele, entre outras medidas, estabeleceu a possibilidade de prisões sem mandado e a construção de novos presídios. Contudo, como a Ponte antecipou, ativistas denunciam violações sistemáticas de direitos humanos dentro do sistema de Bukele.

Angeli argumenta que soluções inspiradas no país centro-americano desconsideram diferenças de escala e das próprias dinâmicas criminais. “São ideias prontas para um modelo que não corresponde em nada à realidade brasileira. Toda a realidade das nossas facções criminosas não tem nada a ver com a realidade das gangues que caracterizaram e caracterizam a situação de violência em El Salvador”.

Na avaliação dele, esses discursos encontram espaço porque oferecem respostas rápidas a uma população desgastada pela violência.

Angeli cita, nesse contexto, as propostas de construção de grandes presídios e ampliação da capacidade do sistema prisional apresentadas por Renan Santos e Flávio Bolsonaro. O coordenador do Justa questiona especialmente a viabilidade orçamentária da criação de milhares de novas vagas, como propõem os candidatos.

Para o coordenador do Justa, a experiência brasileira das últimas décadas também deveria entrar nessa discussão. Ele sustenta que o crescimento da população prisional não impediu a expansão das facções criminosas pelo território nacional.

“Nos últimos 20 anos, o Brasil aumentou a sua população prisional em 500 mil pessoas e o resultado foi esse: nós temos o espalhamento das facções criminosas. Nós tínhamos um punhado de facções, todas na região Sudeste, e hoje tem quase 90 facções espalhadas pelo Brasil inteiro”, afirma.

Quelle
Brasil de Fato
Original öffnen ↗
War diese Nachricht nützlich?

Debatten 0

Seien Sie der Erste, der zur Debatte beiträgt.

Teilen Sie Ihre Informationen und fördern Sie Ihr Argument

Zögern Sie nicht, nützliche Informationen zu veröffentlichen.

Um an der Diskussion teilzunehmen, melden Sie sich an oder erstellen Sie ein kostenloses Konto.