O livro como instrumento de Cultura, como fetiche – e como negócio

Por Marcello Rollemberg28/09/2026 às 19:3160 visualizações
Foto: jcomp/Magnific
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Foto: SANGMANEE / Jornal da USP

O livro como instrumento de Cultura, como fetiche – e como negócio

A recente Bienal de São Paulo e declarações sobre o ecossistema editorial trazem a possibilidade de uma reflexão sobre o papel social do livro

 Publicado: 28/09/2026 às 16:31

Texto: Marcello Rollemberg

Arte: Livia Bortoletto*

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Desde que Johannes Gutenberg criou a prensa de tipos móveis em meados do século 15, o livro tornou-se um instrumento de cultura, fetiche e negócio – não necessariamente nessa ordem. E, também desde então, muitas vezes essas facetas acabam por se fundir como em um caleidoscópio, criando imagens distintas, exponenciadas e até distorcidas das originais, por mais que possam ser ou parecer belas. 

Nesses quadros que se formam, cada um desses três pilares que acabei de mencionar ganha contornos específicos, substantivos. Como no caso de ter livros, colecionar livros, lê-los à medida do possível – mas tê-los sempre por perto, como um bálsamo encadernado. Algo que ganhou nome: bibliofilia, esse amor – fetiche? – pelos livros. Uma espécie de “loucura mansa”, como bem definiu José Mindlin, e que levou o pensador humanista Erasmo de Roterdã a afirmar, lá se vão mais de quinhentos anos: “quando tenho dinheiro, compro livros. Se me sobrar algum trocado, então compro comida e roupa”. 

Antes disso, contudo, sempre haverá a questão cultural. O livro é, desde sempre, um vetor de Cultura – aí, com maiúscula mesmo. Essa mesma Cultura cujo centro de seu universo está em toda parte, como bem afirma há décadas a famosa frase que emoldura a Praça do Relógio no campus Butantã da Universidade de São Paulo. Talvez esse conceito possa soar um tanto etéreo – mas não podemos esquecer que o real também pode flutuar no éter.

O problema reside quando o real – que não é necessariamente aquele idealizado – cai dos céus com o peso e estrondo de uma bigorna. E vira negócio. Não é o caso aqui de parecer naïf e levantar bandeiras contra o negócio do livro. Claro que não. Afinal, o livro se travestiu de negócio – lucrativo ou não, essa é outra questão – já nos tempos de Gutenberg, quando o criativo e insolvente inventor perdeu o controle de sua oficina e de suas prensas em 1455 após um processo judicial movido por seu principal financiador, Johann Fust. E editores, livreiros e autores não trabalham por diletantismo – e se preocupam, diferentemente do velho Erasmo, em comprar comida, roupas e pagar contas. O problema talvez resida quando esse denominado “ecossistema do livro” – guarde essa expressão, voltaremos a ela daqui a pouco – parece querer solapar ou, pelo menos, ultrapassar aquelas outras características, digamos, menos mundanas do universo livresco. 

E é nesse espectro de negócio que talvez possamos encaixar as grandes feiras de livros – e não “festas”, e logo também explicarei o porquê da distinção. E a mais completa tradução dessas bigfeiras, seu epítome seja a Bienal do Livro – do Rio, São Paulo, qualquer lugar onde as latitudes deixarem e houver um enorme espaço para abrigar estandes, livros, público. E bons negócios, traduzidos em muitos livros vendidos. 

Fatia de pizza+refrigerante+ingresso= um livro?

Antes de mais nada, é bom deixar claro: nada, absolutamente nada,  contra as Bienais. Qualquer evento que vise a divulgação do livro e atraia centenas de milhares de possíveis leitores é merecedora de aplausos. Ainda mais quando falamos de feiras que estão aí há décadas, como é o caso das bienais paulistana e carioca. Cumprem muito bem o seu papel, sem dúvida. Mas é aqui que cabe uma pergunta, talvez até incômoda para alguns: afinal, que papel é esse? Ou melhor: que papéis são esses?

É quase um clichê se afirmar que “brasileiro não lê” – assim como também é um clichê se dizer que “o livro no Brasil é caro”. Ok, vamos relativizar e contextualizar. A recém-encerrada 28a Bienal do Livro de São Paulo apresentou, ao final de seus 10 dias – cinco deles com ingressos esgotados muito rapidamente –, números robustos. Considerada “a maior Bienal de todos os tempos” pela Câmara Brasileira do Livro, a CBL, a feira paulistana teve 760 mil visitantes, 269 expositores e 3,65 milhões de livros ofertados. São números bonitos, que seguem: cerca de R$ 20 milhões de vales-livros, mais de 52 mil estudantes beneficiados, mais de 154 mil servidores da rede municipal beneficiados. E o que mais?

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Aí talvez resida a necessidade de relativizar, como afirmado agora há pouco. Porque a Bienal é uma barafunda de gente que, muitas vezes, não consegue se entender diante do gigantismo do evento. Algumas editoras grandes colocadas lado a lado geraram – como muitos visitantes fizeram questão de contar nas redes sociais – filas, espera e muita impaciência. Uma impaciência que nem o sem-número de “espaços instagramáveis” (esse modismo que parece não ter prazo de vencimento) foi capaz de aplacar. Mesmo com toda a boa vontade dos exércitos de tiktokers, blogueiros, booktubers e quejandos. Uma pequena multidão que parecia querer, na Bienal, cumprir jornadas múltiplas para agradar seus seguidores nas atarantadas redes sociais e colecionar likes: falar dos livros, sim, mas posar ao lado dos livros, mostrar os livros, quase virar um livro – quase mesmo, já que tinha um personagem vagando pelos corredores da Bienal literalmente vestido de livro. O livro como fetiche, lembram? Neste caso, praticamente um paroxismo. 

Mas, aqui, chegamos a outros números da Bienal de São Paulo, mais frios, e que dizem muito sobre o caráter da feira – e aqui não cabe necessariamente nenhuma crítica ou purismo. São apenas as tais “malditas estatísticas” que tanto apoquentavam o ministro Disraeli, da rainha Vitória. A CBL se orgulha – com justa razão, talvez – em afirmar que “em pesquisa realizada com os expositores, a Bienal registrou aumento de 57% na média diária de faturamento em relação a 2024, reforçando a importância do evento na esfera econômica, ampliando a venda de livros, a visibilidade das marcas, o relacionamento com os leitores e a geração de negócios para o setor.” Muitas editoras comemoraram faturamentos acima dos 80%, 120% com relação a bienais anteriores. Determinada editora – vamos deixar o nome para as tabelas da CBL – registrou um crescimento de 67% em faturamento e de 55% em volume de exemplares vendidos. Ok, o faturamento foi maior que o volume de livros vendidos. Isso pode querer dizer muita coisa. E até diz.

Porque o faturamento aumentar significa que foram vendidos mais livros, certo? Sim. Mas também pode dizer – e também diz – que o preço médio do livro no Brasil continua alto. Uma média entre R$ 100, R$ 120, podendo variar para cima – o que está bem longe de ser um preço que ajude a popularizar o livro, a fazê-lo chegar a leitores das mais variadas camadas sociais. E que, em última instância deveria ser o papel das bienais. Mas quem está sendo ingênuo agora? Afinal, estamos falando de livros com preços que quase chegam a 10% do salário mínimo. E não há vale-livro, cashback de entrada – como a feira deste ano ofereceu, mas de uma forma tortuosa –, descontos protocolares de 10%, 15% ou livro de auto-ajuda a 10 reais que resolvam o problema. A aritmética não fecha, só isso. 

Ainda mais se pensarmos que a Bienal acaba sendo um evento caro, por mais que centenas de milhares de pessoas corram para o Distrito Anhembi a cada dois anos. Para comer, por exemplo. Numa conta fácil, e “auditável”: o ingresso a R$ 40 (com um cashback de R$15), uma fatia de pizza, sem grandes pretensões, por inacreditáveis R$ 48 e uma lata de refrigerante,custando implausíveis R$ 17. Isso tudo, antes de cruzar os umbrais da Bienal, do lado de fora ainda, procurando a entrada. E o leitor ansioso já gastou 105 reais. E não comprou nenhum livro. Se quiser usar só o esquálido cachback, vai voltar para casa com um auto-ajudante exemplar. E ponto. É uma relação questionável de custo-benefício, para ficarmos no universo dos negócios. 

Porque, vamos combinar assim: a Bienal do Livro é um grande negócio. Ela existe para divulgar o livro, não necessariamente para popularizá-lo em um país que precisa cada vez mais de novos (e muitos) leitores. A Bienal comemora o negócio do livro, não o livro como entidade fundamental para alavancar a Cultura (olha a maiúscula aí de novo) nacional. O livro acaba sendo saudado, com certeza, mas talvez sem a pompa e circunstância que merecesse. O foco é outro. Claro que receber mais de 700 mil pessoas em dez dias é um marco importante. Colocar toneladas de livros à disposição – e não falemos de preços dessa vez –, também. Mas o pano de fundo acaba sendo o negócio do livro. É como talvez tenha deixado bem claro Sevani Matos, presidente da CBL: “Esta edição histórica mostra a força da Bienal como um grande encontro cultural e também como um importante motor para toda a cadeia do livro.” E esse motor está muito bem azeitado.

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Bienal do Livro de São Paulo deste ano: público de 760 mil pessoas em um encontro cultural para sustentar a cadeia do livro Foto: Instagram

O ecossistema não gosta de festas

Tão bem lubrificado que, por vezes, acaba sendo refratário a manifestações que têm, aí sim, o livro como grande protagonista. O que pode parecer um contrassenso, mas acontece. Como aconteceu no mesmo Distrito Anhembi que sediou a última Bienal do Livro. Dias antes, aconteceu a Convenção Nacional de Livrarias, um evento importante, sem dúvida – ainda mais quando se trata da sobrevivência das livrarias de rua, em um embate mercadológico com as chamadas grandes redes – que, frise-se, já tiveram dias mais suntuosos. O problema é quando, em meio à discussão, o livro acaba sendo atacado. Se não o livro especificamente, mas eventos que ajudam a populariza-lo, fazendo-o chegar a um número mais amplo de leitores de todas as camadas sociais. O que é a mesma coisa, no final das contas.

Durante uma das mesas, o dono de uma grande livraria e dirigente da Associação Nacional de Livrarias – que já teve seu nome por demais citado em reportagens, então vamos economizar holofotes – atacou diretamente a Festa do Livro da USP, que oferece há décadas descontos de no mínimo 50% sobre o preço de capa dos livros oferecidos durante seus cinco dias festivos. Da plateia onde estava, o presidente da ANL se levantou e disparou: a Festa do Livro da USP seria, segundo ele, um “desserviço à cultura brasileira e ao ecossistema do livro”. Não disse que voltaríamos a falar do “ecossistema do livro”? Aí está. E de uma forma um tanto complicada. 

Porque, se fosse dita em um outro contexto, a tal frase talvez fosse ouvida como um pouco mais do que uma platitude, talvez uma frase de efeito que se desmancharia no ar. Mas no contexto em que foi dita e por quem a proferiu, a tal frase se reveste de um grau complicador perigoso. Afirmar que um evento que deseja – e consegue – popularizar o livro, torná-lo acessível a um número maior de leitores é “um desserviço à cultura brasileira” é pouco menos que um absurdo. E esta fala, sim, é um desserviço à cultura. E, afinal, de que cultura brasileira estamos falando? Aquela atrelada ao tal ecossistema do livro, que o dirigente da ANL quer defender confundindo os polos? É um direito dele, como presidente de um órgão de classe, defender seus pares e o tal ecossistema. Mas há que ter certos cuidados, coisa que nunca se tem em um rompante, quando se joga para a torcida.

 A própria ANL, ao tentar contemporizar, acabou por referendar a já tristemente célebre frase, afirmando em nota que “defende o acesso aos livros e reconhece a importância de iniciativas de incentivo à leitura. Mas entende que esse acesso não pode ocorrer à custa da sustentabilidade de quem trabalha diariamente para fazer o livro chegar ao leitor. Iniciativas que desvalorizem comercialmente o livro e desconsiderem a realidade das livrarias prestam um desserviço ao ecossistema livreiro brasileiro”. Os panos quentes já tinham arrefecido.

A justificativa da frase na reunião da ANL e da própria nota da entidade era defender as livrarias. Muito justo. Mas ao afirmar que eventos como a Festa do Livro da USP e seus descontos “desvalorizam comercialmente o livro”, está focando apenas no negócio (de novo), esquecendo do produto. E do ator social principal nessa cadeia intrincada: o consumidor, aqui doravante conhecido como “leitor”. É para ele que a Festa do Livro existe. E deveria ser para ele que as livrarias e editoras existem. Mas sei, devo estar sendo naïf, apesar de dizer lá no começo desse texto que não seria. E talvez nem valha a pena dizer aqui que a Festa da USP dura só cinco dias e que as livrarias têm outros 360 para lucrar – sim, a palavra é esta mesma – e garantir a “sustentabilidade” do trabalho. Mas, olha só: já disse.

Livreiros e editores quererem manter seu ganha-pão é justo. O que não é justificável é atacar um evento como a Festa do Livro da USP por este motivo. Não faz sentido. Já não faria se estivéssemos na Dinamarca ou na Finlândia. No Brasil, tão carente de leitores e de livros a preços razoáveis, aí é que não faz mesmo. E cabe aqui reforçar duas coisas, igualmente importantes, e que não se leve para o lado do corporativismo, por favor. Não é e nunca será o caso. 

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Festa do Livro da USP: popularizar a cultura e incentivar a leitura também são papeis da Universidade Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Uma, é o próprio caráter do evento uspiano, a começar pelo seu nome: é uma “festa”, um momento para se celebrar, se comemorar o livro, e não uma feira como as bienais, onde o astro acaba sendo o negócio editorial. Outro ponto a ser reforçado é a própria Universidade de São Paulo e sua finalidade precípua. Está lá no decreto de fundação da USP, de 25 de janeiro de 1934, a afirmação que um dos fins da Universidade é “realizar a obra social de vulgarização das ciências, das letras e das artes”. E entenda-se aqui, por mais chato que possa ser citar decretos, que a “vulgarização” aí significa “popularização”, e não o significado rasteiro que acabou ganhando no dia a dia. Então, ao criar a Festa do Livro há quase três décadas, a Editora da USP – na época presidida pelo professor Plinio Martins Filho – estava, na verdade, cumprindo uma das atribuições da própria Universidade. E diga-se, vem cumprindo muito bem. No ano passado, em sua 27a edição, foram 224 editoras participantes, 150 mil títulos disponíveis, 362 mil exemplares comercializados, com um público estimado de 50 mil pessoas ao longo dos cinco dias. E sem cobrar ingresso.

“Trata-se de uma estratégia de tornar a cultura letrada acessível a um público cada vez mais estendido, de maneira a que a comunidade USP – funcionários, docentes e estudantes – bem como a sociedade mais ampla possam ter a oportunidade de ampliar seu contato com a cultura do livro”, afirma a professora Carlota Boto, atual presidente da Edusp. Ela entende a preocupação mercadológica, mas sua preocupação é de outro nível. “Na verdade, nós da Universidade de São Paulo, de maneira geral, e, mais especificamente da Edusp, temos sim de levar em conta a questão do mercado do livro, mas não exclusivamente. Nosso compromisso é, sobretudo, com a parcela de nossa comunidade que, por ter menor poder aquisitivo, não consegue com facilidade formar sua biblioteca pessoal. Então, a Festa do Livro surge como uma verdadeira oportunidade”, acredita a educadora. “Entretanto, quem toma o gosto pelo livro e pela organização de sua própria biblioteca tende a comprar inclusive mais livros em outras situações. Por isso entendemos que a Festa do Livro presta um serviço muito importante à cultura letrada da cidade de São Paulo e à popularização do acesso ao suporte material do impresso”, garante ela, apresentando qual é a finalidade de uma festa livresca como a da USP: abrir as portas da percepção para leitores e futuros leitores, Que se tornarão, sim, consumidores e compradores – de livros. Mas continuarão a ser, principalmente, leitores.

Por isso, essa discussão não termina aqui. Nem é para terminar. Mas a intenção não é criar um debate – o que seria por demais cansativo –, e sim abrir espaço para uma reflexão, um convite. E talvez, para encerrar, caibam aqui duas frases, duas ponderações que merecem ficar no horizonte. Não como verdades absolutas, mas como possíveis verdades em um universo tão multifacetado como é o do livro. Uma é do editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, anotada em seu livro O primeiro leitor: “Não menos importante é a consciência do papel social  das editoras em países como o Brasil. Até mesmo  casas puramente comerciais  deveriam se preocupar, no seu dia a dia, com essa questão”. A outra, está no título da versão em inglês do editorial de um dos catálogo da Editora Mohr Siebeck, de Tübingen, na Alemanha, fundada em 1801: “We don’t make books to make money, but we need to make money to make books.” (“Não fazemos livros para ganhar dinheiro, mas ganhamos dinheiro para fazer livros”)

*Estagiária sob orientação de Simone Gomes


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Fonte
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