Zuenir Ventura, Vigário Geral e a cidade que ainda precisa se encontrar

Por Richard Santos24/09/2026 às 12:2624 visualizações
Rio de Janeiro precisa encontrar caminhos para pacificar a cidade
Rio de Janeiro precisa encontrar caminhos para pacificar a cidade
Brasil de Fato

Conheci Zuenir Ventura em 1993, em Vigário Geral. A comunidade ainda vivia o luto pela chacina que assassinara 21 moradores. Naquele domingo, estávamos ali com o Grupo Cultural AfroReggae para realizar uma atividade que durou o dia inteiro. Havia crianças, música e o esforço de construir, junto com os moradores, um espaço de convivência em meio à dor. Era o AfroReggae em seus primórdios, e eu fazia parte daquela organização.

Eu também integrava o Centro de Articulação das Populações Marginalizadas, o CEAP, onde atuava na articulação da juventude negra. Estavam conosco o saudoso Jorge Damião, outro diretor do CEAP, José Júnior, Teco Rastafari, Mônica, Arcélio Farias, Marcelo Yuka e tantos outros companheiros daquela caminhada. José Júnior e Teco Rastafari estavam entre os criadores do AfroReggae e seguem ligados à sua direção. Marcelo Yuka, também saudoso, seria conhecido como um dos criadores e fundadores da banda O Rappa. Naquele tempo, eu era o Big Richard, um jovem do hip-hop que encontrava na cultura uma forma de organização e luta. Zuenir também estava lá. Foi assim, dividindo um dia de trabalho em Vigário Geral, que nossas histórias se cruzaram.

Ao final da atividade, o comando local da Polícia Militar decidiu interromper o evento. Até então, tudo transcorria de forma tranquila. A polícia entrou na comunidade e nos tratou como suspeitos, como se a presença de jovens negros organizando cultura e convivendo com os moradores bastasse para nos associar ao crime. Houve tiros, repressão e medo. Saímos dali com a ajuda de moradores que, mesmo expostos à violência, nos protegeram.

Guardo uma lembrança muito nítida daquele contraste. Durante o dia, tínhamos visto o que uma comunidade era capaz de fazer por suas crianças e por sua própria vida coletiva. Ao anoitecer, vimos a facilidade com que uma ação cultural podia ser tratada como ameaça. Para nós, jovens negros, aquela abordagem tinha um significado conhecido: a suspeita chegava antes de qualquer pergunta.

Escrevi sobre o episódio no AfroReggae Notícias, jornal publicado pelo grupo. A imprensa carioca também registrou o ocorrido. Mais tarde, Zuenir o retratou em Cidade partida, livro que considero um clássico. Nas páginas da obra, ele registrou também minha atuação na juventude negra e no hip-hop naquele período. Ver aquela experiência narrada por alguém que estivera conosco tinha um peso especial. Zuenir conhecia a cena, as pessoas e o trabalho que tentávamos construir.

O título de seu livro continuou a me acompanhar. A cidade partida estava diante de nós naquele domingo: uma cidade na qual a entrada de um grupo cultural numa favela podia despertar desconfiança policial, enquanto os moradores precisavam proteger quem tinha ido até lá para estar com eles. A chacina já havia mostrado, da maneira mais cruel, o valor desigual atribuído às vidas no Rio de Janeiro. O que vivemos depois expunha outra parte dessa mesma lógica, presente até em um dia dedicado à música e às crianças.

A morte de Zuenir, em 22 de setembro, me devolve àquele encontro. Penso no repórter que foi a Vigário Geral e acompanhou de perto seus moradores. Penso também no homem com quem, desde então, desenvolvi uma relação de carinho. Sempre que nos encontrávamos, havia o reconhecimento de quem compartilhara um momento difícil e guardava dele uma memória comum.

Neste setembro, pouco antes de receber a notícia de sua partida, estive novamente no Rio de Janeiro. Era o mês do meu aniversário. Moro hoje em Salvador, cidade que também conhece a violência e as marcas profundas da desigualdade. Volto ao Rio sempre que posso, mas desta vez o retorno ao Rio Comprido, meu bairro de origem, me atingiu de maneira particular. Caminhei por lugares que fazem parte da minha história e tive a sensação de que aquela cidade que chamávamos de partida agora está fraturada, sangrando a céu aberto.

Não escrevo isso como quem se espanta com uma realidade que acaba de descobrir. Conheço o Rio, suas potências e suas feridas. Talvez tenha sido justamente por conhecê-lo que o choque tenha sido tão forte. O tempo passou, muita coisa mudou na minha vida e na vida daqueles companheiros de 1993, mas certas cenas continuam familiares demais. A distância entre a cidade que se apresenta ao mundo e aquela vivida por seus moradores segue sendo medida no direito de circular, de criar os filhos, de fazer cultura e de voltar para casa.

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Hoje assino Richard Santos. Sou professor da Universidade Federal do Sul da Bahia, fiz pós-doutorado, participo do comitê de acompanhamento das decisões do 9º Congresso Pan-Africano ligado à União Africana e, neste momento, exerço a função de chefe de gabinete da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia, a Sepromi. Mas o Big Richard nunca deixou de me acompanhar. Ele está presente na maneira como escuto os jovens, como compreendo a força política do hip-hop e como reconheço, em cada território, pessoas criando caminhos onde tantos só enxergam problemas.

É também por carregar essa história que continuo sentindo a cidade partida. Hoje, talvez possamos chamar de país partido a tecnologia social e política que produz essas fraturas, distribui proteção de forma desigual e ensina parte da população a conviver com a dor da outra parte. Às vésperas de mais uma eleição, essa experiência não pode ser reduzida a uma disputa de palavras. Ela diz respeito às condições concretas de vida e às decisões que tomamos sobre o futuro do Brasil.

Escrevo para agradecer a Zuenir por essa convivência e por ter ajudado a registrar uma história que pertence, antes de tudo, aos moradores de Vigário Geral. Escrevo também porque lembrar aquele domingo é lembrar o trabalho de uma geração que respondeu à violência com organização, cultura e presença. Muitos dos companheiros que estiveram ali já partiram. Sua contribuição permanece nas histórias que contamos e nas iniciativas que ajudaram a criar.

Passados mais de trinta anos, ainda precisamos perguntar quanto a cidade mudou para a juventude negra de suas periferias. Essa pergunta atravessa minha lembrança de Zuenir Ventura e me acompanhou na recente volta ao Rio Comprido. Enquanto houver famílias obrigadas a temer a violência policial e jovens cuja participação cultural seja recebida com suspeita, Vigário Geral continuará nos pedindo atenção.

Despeço-me de Zuenir com tristeza e afeto. Foi em Vigário Geral que o conheci. É de lá que hoje me vem a lembrança mais forte dele: presente, atento, compartilhando conosco um dia que não terminou quando saímos da comunidade. Ao recordar aquele domingo, lembro também o compromisso que assumimos ali. O Big Richard de 1993 e o Richard Santos de hoje seguem fazendo a mesma pergunta: que cidade, e que país, estamos dispostos a construir juntos?

*Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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