Imagine dois sujeitos numa fila de supermercado, quinta-feira à noite. Ambos têm o mesmo carrinho: arroz, cerveja, um pacote de biscoito que ninguém planejou comprar. Ambos pagam com o mesmo cartão, digitam a mesma senha, saem com a mesma sensação difusa de ter gastado mais do que deviam. Até aqui, são idênticos. A diferença está no que cada um pensa enquanto digita.
O primeiro é o homo economicus otimista. Ele acredita, no fundo do coração, que a sua pequena gula de quinta-feira é uma virtude cívica. Leu Adam Smith numa disciplina eletiva da faculdade e nunca se recuperou. Para ele, o mercado é uma máquina de transformar egoísmo em bem-estar, e ele é uma engrenagem bem-intencionada dessa máquina. Compra a cerveja, o fornecedor lucra, o entregador trabalha, o imposto circula, a economia gira. Ninguém planejou nada, mas tudo se ajeitou — a famosa mão invisível, que ele imagina mais ou menos como uma espécie de gerente geral do universo, discreto, competente, ligeiramente britânico. Sai do mercado satisfeito consigo mesmo. Não sabe exatamente o que quer, mas confia que querer é suficiente.
O segundo é o homo economicus pessimista. Tem o mesmo carrinho, o mesmo cartão, o mesmo biscoito não planejado. Mas enquanto digita a senha, pensa: por que eu quero isso? Ele também sabe que o mercado funciona, que os preços sinalizam, que a oferta responde à demanda. Não é negacionista da economia. Só lê esse funcionamento como Schopenhauer leria: não como harmonia, e sim como a Vontade se manifestando em mais uma de suas formas. O supermercado é a Vontade em estado de prateleira. Cada produto é um objeto de desejo que promete preencher algo e não preenche. Ele compra a cerveja sabendo que a sede vai voltar, compra o biscoito sabendo que o biscoito é uma metáfora. Sai do mercado com a mesma sensação difusa de vazio, mas sem nenhuma ilusão sobre ela. Não é mais infeliz que o primeiro — talvez seja até mais lúcido. Mas sabe que a mão invisível é só um nome bonito para a mão que segura o cartão de crédito.
Vale registrar, antes de seguir, que os dois não estão certos. Os dois estão convencidos de que estão certos, o que é uma coisa bastante diferente e, para os nossos fins, mais interessante. O comportamento deles é rigorosamente idêntico: mesmas escolhas, mesmos preços, mesmos carrinhos abandonados no site às duas da manhã. O fenômeno é neutro. Não há nada no mercado que permita decidir entre as duas leituras. A divergência não é empírica, é metafísica. E é justamente por isso que a convicção preenche o vazio que a observação deixa. Um dorme tranquilo; o outro dorme também, mas sabendo por quê.
A pedra de toque, aqui, é o juízo sobre o resultado, não a mecânica do egoísmo — nisso Smith e Schopenhauer concordam, o egoísmo coordena, a coisa funciona. Smith olha para o mercado e vê uma mão. Schopenhauer olha para o mesmo mercado e vê um abismo que por acaso tem regularidade. A mão invisível não é uma refutação da Vontade; é uma leitura otimista dela. E a Vontade não é uma refutação da mão invisível; é uma leitura pessimista do mesmo mecanismo. Schopenhauer nunca leu Smith, diga-se de passagem. Não houve refutação, houve contraposição: a metafísica schopenhaueriana simplesmente não acomoda a mão invisível sem retirar dela o caráter benevolente e providencial. Se tivesse lido, diria algo como: o que você chama de harmonia é a máscara da Vontade. Não é uma objeção empírica. É uma reinterpretação. E reinterpretações, como se sabe, não costumam fechar.
O ponto mais curioso, no entanto, é o que acontece com a agência. Em Smith, o indivíduo age de verdade: escolhe, calcula, persegue o próprio ganho. É um agente no sentido pleno. Mas o resultado da sua ação não lhe pertence. Ele quer o lucro e produz bem-estar social sem saber. Há um vão entre a intenção e o efeito, e é esse vão que a mão invisível preenche. Ora, a mão não é um agente — é o nome do fato de que o vão se preenche. Mas Smith lhe dá verbos de agência: ela conduz, guia, dirige. A Providência conduz. A agência fica partida em dois níveis: o indivíduo, que intenciona, e a mão, que coordena. Uma visível, a outra não.
Em Schopenhauer, o indivíduo acha que age. Mas é a Vontade que age através dele. Ele é a Vontade objetivada, o ponto onde o querer cego se torna consciente de si como desejo. A Vontade age — mas a Vontade não é um sujeito. Não conhece, não delibera, não escolhe. É agência sem consciência. E pior: não intenciona resultado nenhum. Apenas quer. Não há coordenação, há conflito. A ordem, se existe, é subproduto da autodilaceração da Vontade.
O paralelo, então, é este: ambos os sistemas repartem a agência e deslocam a parte decisiva para um princípio que não é um agente. Nos dois casos, a agência visível — a do indivíduo — é declarada insuficiente. Em Smith, ela é real mas parcial. Em Schopenhauer, ela é ilusória. Em ambos, o que produz a ordem (ou o que quer que seja aquilo) é uma agência sem sujeito. A diferença está no tipo de não-agente. A mão invisível é um quase-sujeito: tem a qualidade da intenção sem ter intenção, conduz e beneficia como se alguém estivesse no comando, mas ninguém está. É uma simulação de subjetividade. A Vontade é um quase-força: tem a qualidade do impulso sem ter impulso determinado, quer e insiste sem saber nem se importar. É uma simulação de causalidade sem finalidade. Uma parece um sujeito sem sujeito. A outra parece uma força sem força. As duas produzem efeitos universais sem origem explicada — e é aí que o seu paralelo, se me permite, se sustenta melhor do que na comparação doutrinal direta.
E o homo economicus, onde entra nisso? Ele é a figura mais agêntica de toda a teoria social. A economia é a ciência da escolha; o homo economicus é aquele que escolhe. É o agente por excelência. E no entanto tanto Smith quanto Schopenhauer dissolvem a sua agência: Smith fazendo o resultado não ser dele, Schopenhauer fazendo a escolha não ser dele. O homo economicus otimista diz: eu sou o agente, minhas escolhas são reais, e a mão é a garantia de que elas não se perdem. O homo economicus pessimista diz: eu não sou o agente, sou onde a Vontade se torna consciente de si como desejo, e o mercado é onde a Vontade faz suas contas.
No fim, as duas leituras são indistinguíveis na prática. O otimista e o pessimista fazem exatamente as mesmas escolhas, respondem aos mesmos incentivos, pagam a mesma conta. A diferença não está no comportamento, está no comentário interno que acompanha o comportamento. Um diz: que maravilha, o sistema funciona. O outro diz: que maravilha, o sistema funciona, e é justamente isso que me preocupa. Talvez seja por isso que a economia conseguiu expulsar Schopenhauer de si mesma com tanta facilidade: não porque ele estivesse errado, mas porque, do ponto de vista do funcionamento do mercado, tanto faz. A Vontade não se importa com o que você pensa dela. A mão invisível também não.
Resta a escolha narrativa, e essa escolha tem consequências — não para o mercado, mas para quem o habita. O otimista tem uma vida mais leve e uma compreensão mais pobre. O pessimista tem uma compreensão mais rica e uma vida ligeiramente mais pesada. Smith dorme melhor. Schopenhauer escreve melhor. Os dois, no fundo, compraram o mesmo biscoito. E o homo economicus pessimista, ao contrário do que se poderia esperar, não deixa de consumir: ele só deixa de acreditar que o consumo vai resolver alguma coisa. Continua na fila, continua digitando a senha, continua comprando a cerveja de quinta-feira. A diferença é que ele sabe que está na fila. Saber que se está na fila, em geral, não faz a fila andar mais rápido — mas faz o tempo passar de outro jeito.
*Roberto Kiel é engenheiro agrônomo e funcionário do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
