Paulo Betti: ‘Estamos em risco. Nosso país está em risco’

Por Fabiana Reinholz28/09/2026 às 19:5051 visualizações
Paulo Betti esteve em Porto Alegre, nos dias 26 e 27 de setembro, onde apresentou Autobiografia Autorizada no Teatro Bancários RS
Paulo Betti esteve em Porto Alegre, nos dias 26 e 27 de setembro, onde apresentou Autobiografia Autorizada no Teatro Bancários RS
Brasil de Fato

“Eu não podia trair a classe social à qual eu pertencia.” A frase de Paulo Betti sintetiza uma reflexão que atravessa sua trajetória artística e pessoal. Descendente de italianos, caçula de uma família de 15 irmãos, com dez anos de diferença para o irmão que o antecede, o ator, autor e diretor transforma a própria história em matéria de arte e também de reflexão política. Filho de uma mulher que foi camponesa, empregada doméstica e benzedeira, Betti revisita a infância em Sorocaba (SP), a importância da escola pública e os caminhos que o levaram ao teatro, à televisão e ao debate público.

Betti esteve em Porto Alegre, nos dias 26 e 27 de setembro, onde apresentou sua “Autobiografia Autorizada”, dentro da programação de inauguração do Teatro Bancários RS, além de ministrar uma oficina de interpretação para artistas e aspirantes das artes cênicas.

Na peça, Betti volta o olhar para a própria história e para a ancestralidade familiar, em um processo de reencontro com as memórias da infância e da adolescência. Ao contar a trajetória da família, também recupera experiências que atravessam questões de classe, educação, cultura e participação política. A decisão de escrever o próprio monólogo representa ainda a escolha de narrar essa história a partir de sua própria perspectiva.

Em entrevista ao Brasil de Fato RS, o ator fala sobre sua trajetória no teatro e na televisão, a relação entre cultura e política e o papel dos artistas diante do momento do país. Também aborda a influência das novelas na sociedade, a importância da educação pública, sua formação religiosa e os riscos da manipulação da fé.

Brasil de Fato RS: Tu vieste de uma família numerosa, de origem rural, e construíste uma trajetória que te levou à Escola de Arte Dramática da USP e, depois, ao trabalho como ator, autor, diretor e professor. Agora, ao levar ao palco histórias da própria vida, que memórias da infância e da família se tornaram mais importantes para compreender quem tu és e o artista que te tornaste?

Paulo Betti: A coisa mais importante que eu sinto que aconteceu para mim foi o ensino público gratuito, com uma creche onde eu fui colocado pela minha mãe aos cinco anos de idade.

A partir dessa creche, que era dentro de uma escola do Estado, e era uma creche em tempo integral, eu fui continuando em escolas públicas de tempo integral, com muita sorte. Passei por um primário, depois passei por uma preparação para o ginásio, depois passei por um ginásio industrial. E depois do ginásio industrial ainda tive dois anos em uma outra escola municipal noturna.

E dessa escola municipal noturna eu fui para a escola de teatro, que foi a Escola de Arte Dramática da USP, que não é um curso superior, é até hoje um curso técnico dentro da universidade. E sendo noturno, era muito positivo, porque o fato de ser noturno era absolutamente essencial para mim, porque eu podia trabalhar durante o dia e estudar durante a noite.

Eu acho esse aspecto muito democrático da Escola de Arte Dramática da USP. Então eu tive a sorte de ter uma sequência educacional, com o Estado bancando a educação pública, que eu acho que foi muito positiva para mim.

Então, baseado nisso, eu acho que a coisa mais importante que tem é a gente desenvolver a possibilidade do acesso à escola pública para todo mundo.

 ‘A coisa mais importante que eu sinto que aconteceu para mim foi o ensino público gratuito’ |
 ‘A coisa mais importante que eu sinto que aconteceu para mim foi o ensino público gratuito’ | — Jorge Leão
 ‘A coisa mais importante que eu sinto que aconteceu para mim foi o ensino público gratuito’ | Crédito: Jorge Leão

E o que te levou a ser ator?

Acho que a minha família. Minha avó era muito engraçada, era uma exímia contadora de histórias. E minha mãe também puxou esse lado de contar histórias.

Eu lembro que as histórias que a minha avó contava, depois eu fui ver, estavam naquele livro do Italo Calvino, “Fábulas Italianas”. Então, você vê que eram histórias tradicionais italianas, histórias de terror, tudo.

Esse ambiente em que eu fui criado, que era muito onírico, era quase um quilombo. No meio de uma baixada, eu vivia com muitos amigos negros de infância. Muitas famílias negras faziam a maioria no meu bairro. Pude vivenciar um pouco do batuque, dos ritmos.

Tinha três escolas de samba saindo do meu bairro. Então, isso acho que foi muito marcante para eu me definir como artista, querendo ser ator ou, de uma certa maneira, me inseria ali dentro daquela poesia, daquela vida da Vila Leão, em Sorocaba. Hoje é praticamente centro da cidade, mas, na época, era como se fosse fora da cidade.

Tu falaste do quilombo, da ancestralidade também. E essa tua peça agora também é um resgate da tua ancestralidade…

Exatamente, porque eu tinha a ideia de fazer um monólogo, e eu estava fazendo um que não era escrito por mim. E eu tive que passar por esse processo de valorizar também o que eu tinha escrito.

Porque eu passei durante 25 anos escrevendo colunas no jornal do interior. Toda semana eu entregava minha coluna na quinta e saía no domingo. Então eu estava meio que treinando essa coisa da escrita. E também eu sempre escrevi, eu sempre tive, desde menino, observando esse ambiente onde eu vivia, e as histórias dos meus pais e tudo mais, eu anotava.

Então, quando eu decidi fazer o meu monólogo, e não o que estava sendo montado, foi para fazer algo ligado à minha ancestralidade. Quer dizer, eu não podia trair a classe social à qual eu pertencia. Essa questão foi apresentada para mim no meu monólogo.

Meu pai era servente de pedreiro e minha mãe era empregada doméstica. Então, eu vim daí. Não posso esquecer disso

Porque o monólogo que eu fazia anteriormente, e não tinha sido escrito por mim, o personagem se referia, nos momentos de humor; ‘a minha mãe tinha uma empregada doméstica’, e tinha uma piada, uma coisa dentro de um monólogo que era sério. Aquilo começou a me incomodar e decidi escrever o meu mesmo, começando logo dizendo que a minha mãe era uma empregada doméstica.

Eu tive que rejeitar o monólogo que estava fazendo para ser fiel à minha classe social de origem. Isso foi um processo que não foi imediato que eu percebi. Tanto que ia fazer esse monólogo, que eu gostava muito, que era de um amigo meu que já faleceu, um grande escritor, mas que pertencia a uma outra classe social, que tinha empregada doméstica.

Então, as piadas da empregada doméstica da mãe do meu escritor anterior, me afastaram do texto e me deram quase que a tarefa, a missão de eu escrever eu mesmo sobre a minha família.

‘Eu tive que passar por esse processo de valorizar também o que eu tinha escrito’ |
‘Eu tive que passar por esse processo de valorizar também o que eu tinha escrito’ | — Fabiana Reinholz
‘Eu tive que passar por esse processo de valorizar também o que eu tinha escrito’ | Crédito: Fabiana Reinholz

Até porque tem toda outra leitura, essa importância da classe social, do teu lugar de fala…

Exato. Embora, com o tempo, eu tenha mudado a minha condição social, evidentemente, por causa da televisão, do cinema.

O local de origem você nunca deixa para trás, você sempre elabora e dimensiona o que você está vivendo na perspectiva da sua origem.

No meu caso, foi essa. Meu pai era servente de pedreiro e minha mãe era empregada doméstica. Então, eu vim daí. Não posso esquecer disso.

Ao longo dos seus mais de 50 anos de carreira, interpretou personagens muito diferentes, como Carlos Lamarca, no cinema, e Téo Pereira, o blogueiro de Império, na televisão. O que personagens tão distintos te ensinaram sobre o Brasil e sobre o próprio ofício de ator? Há algum deles que tenha provocado uma transformação especialmente importante na tua maneira de enxergar o mundo?

São dois personagens que me marcaram. Um deles é um ídolo da esquerda, um revolucionário e tudo mais. E o outro, um personagem maldoso, estereotipado, fofoqueiro, e absolutamente nada heroico.

Mas eu acho que, assim, eu tenho a mesma sensação com relação aos dois. Eles puxam cada um para um lado. Mas os dois trazem uma identificação da plateia. E nos dois houve uma entrega minha. Como ator, a gente está sempre ali tentando chegar mais próximo possível dos personagens que a gente faz. E, às vezes, isso acontece e, quando isso acontece, eles se tornam, vamos dizer assim, populares. Quer dizer, as pessoas se identificam também. Um deles para a comédia e outro no drama.

Tu comentou que para interpretar o Lamarca emagreceu 17 quilos. Que outros desafios tu tiveste?

O mais forte mesmo foi a questão de poder perder peso. É uma coisa difícil. Às vezes você pode correr risco de fazer alguma coisa errada e ficar frágil fisicamente. Essa foi uma questão do Lamarca, porque ele precisava estar nos dias finais da vida dele. E realmente, ele morreu já muito depauperado. Nós tínhamos as fotografias e tudo da vida que ele estava levando naquela época.

E, fora isso, eu procurei conhecer a vida dele, livros que certamente ele leu e que me aproximavam da personalidade dele através da literatura. Eu li “Guerra e Paz”, que era um livro que ele gostava. Pelo menos eu tinha fotos dele lendo “Guerra e Paz”.

Então, tem essa aproximação também através da escrita. Eu tive acesso à letra dele, então eu procurei começar a copiar a letra dele, peguei algumas formas de desenhar as letras inspiradas nele. Isso ajudou muito a eu achar que eu estava me aproximando dele.

Essa teoria é que a gente acaba sendo todos os personagens que a gente faz. Porque, de uma maneira ou de outra, é como as pessoas te veem. E elas te vendo, elas projetam em você aquilo que elas veem. De um jeito ou de outro, você começa a querer corresponder aquilo. Então você passa a ser aquilo.

Eu me sinto muito feliz quando passo na rua e alguém, um gari, por exemplo, que está recolhendo as caçambas de lixo, grita “Curuzes!” e dá risada

E o personagem Téo Pereira, o que ele te ensinou?

O Téo Pereira veio bem no início desses blogs de notícias, vamos dizer assim, escandalosas e falsas às vezes, exageradas, maldosas. Uma certa maldade que veio como uma crítica a esse tipo de desejo de aparecer de qualquer maneira.

Mas eu estava muito envolvido no humor do Téo Pereira, no caso. Eu me satisfazia com o fato de estar fazendo as pessoas rirem. Porque eu acho que a novela é uma coisa muito forte. Ainda hoje, por mais que você fale: “Ah, mas ainda não é mais como era”. Não é mais como era, mas ainda tem uma batida forte na população. Tem lá 25 pontos de audiência, são cerca 40 milhões de pessoas que estão vendo algo. E o brasileiro tem essa ligação com a história contada em capítulos, essa tradição de você viver histórias como se fosse se projetando nessas histórias e vivenciando esses dramas, essas coisas.

E o personagem tinha uma função cômica, e a comédia, para mim, é assim, puxa vida, é tão bom quando você consegue fazer alguém dar risada, porque a vida é tão cheia de problemas e tudo mais, e você ri, é tão…

Eu me sinto muito feliz quando passo na rua e alguém, um gari, por exemplo, que está recolhendo as caçambas de lixo, grita “Curuzes!” e dá risada. Isso é bacana, porque é divertido. A vida não é só trabalho e sofrimento.

‘Essa teoria é que a gente acaba sendo todos os personagens que a gente faz. Porque, de uma maneira ou de outra, é como as pessoas te veem’ |
‘Essa teoria é que a gente acaba sendo todos os personagens que a gente faz. Porque, de uma maneira ou de outra, é como as pessoas te veem’ | — Jorge Leão
‘Essa teoria é que a gente acaba sendo todos os personagens que a gente faz. Porque, de uma maneira ou de outra, é como as pessoas te veem’ | Crédito: Jorge Leão

Dentro dessa questão das novelas, ela é um produto cultural muito forte do Brasil, tanto que é exportada. Cuba adora as novelas brasileiras, China adora as novelas brasileiras. E a Rede Globo, claro que chegou num padrão de qualidade inquestionável, uma referência no mundo todo. No livro “O Mundo ao Avesso”, o Eduardo Galeano, refletindo sobre a questão da comunicação, ele pergunta o que vem primeiro, se é o ovo ou a galinha. Nesse sentido, as novelas refletem a realidade ou elas influenciam e moldam a realidade?

Eu acho que isso está junto, ao mesmo tempo que elas refletem, elas influenciam. Porque, por exemplo, o Brasil foi muito influenciado pelas novelas cubanas. A novela brasileira de televisão começa com uma autora cubana, Gloria Magadan, que veio e que escrevia as novelas. Depois, aí o Boni e uma galera, Daniel Filho e tal, afastaram essa autora, que era quem escrevia os grandes sucessos anteriormente.

Não é à toa que nós temos essa tradição que adaptamos muito bem. Mas eu acho que é assim, as novelas geralmente têm uma função progressista. As novelas acabam fazendo, com humor, uma crítica e, ao mesmo tempo, uma abertura, algo que era um pouco sisudo e tudo, vai ganhando outros contornos. Eu tenho a impressão que os autores de novelas geralmente provocam reações progressistas.

Eu acho que podia ter novelas que tivessem comentários. Eu fico pensando uma novela com comentarista de novela. Um pouco na hora que ela vai acabar, entra alguém e começa a falar sobre o que foi visto do ponto de vista antropológico, sociológico, ideológico, para que os espectadores fiquem espertos também.

Porque a novela tenta o envolvimento. E eu acho que elas podiam ganhar também se houvesse, como se no final alguém comentasse o capítulo para as pessoas falarem: “Olha, gostei disso, não gostei daquilo, nossa, que…” Para a análise também, para essa questão ideológica também, seria interessante que alguém de esquerda falasse sobre o que estava vendo, alguém de direita também comentasse o que estava vendo.

Você gostava de fazer novelas?

Eu gostei muito de fazer as novelas que eu fiz. É um ofício muito excitante e envolvente, porque você está fazendo algo que está sendo visto imediatamente. As pessoas estão acompanhando aquilo. E tem a reação na rua. É muito gostoso fazer parte desse imaginário das pessoas.

Você está aparecendo na televisão, na sala de espera, no quarto que a pessoa está se recuperando, ou em um hotel, você está em todos os lugares. Eu gostei, e gosto muito de fazer. E agora, se eu conseguir me planejar, se eu for receber algum convite com uma certa distância para eu poder combinar com o teatro, o meu interesse é continuar trabalhando em novela.

Agora me fala do teatro…

O teatro é onde a gente treina, onde a gente se prepara, onde a gente é testado, é ao vivo. Acho que é interessante manter a ideia desse encontro presencial, porque a televisão você vai para a casa das pessoas, mas a pessoa sair de casa e vir para cá, decidir que vem para cá, pagar para vir para cá, assistir, eu acho fenomenal.

Eu não consigo me acostumar com a ideia de que as pessoas façam isso, ainda para ver a minha história sobre a minha infância, minha adolescência, eu tive que passar por esse teste mesmo, como se minha família tivesse entrado e falasse: “Não, você vai fazer uma peça sobre a gente. Você não vai falar sobre a peça do seu amigo da outra classe social, você vai fazer uma peça sobre nós, nossa ancestralidade, descendentes italianos que vieram para substituir os escravos nas plantações e que fizeram uma imigração para trabalhar nas fábricas, numa cidade grande, e onde estávamos na periferia dessa situação. E você conseguiu abrir um espaço por causa da escola pública. Aí está o desenho.”

Como foi emocionalmente para ti reviver a tua história?

Eu sempre fui um anotador compulsivo. A escrita manual, a mano-escritura, que depois foi designada assim, ela exerceu um caráter para mim, eu acho, posso estar enganado, psicanalítico.

O fato de eu estar escrevendo a mão sobre o que eu estava presenciando quando eu era garoto, porque sendo os meus pais analfabetos, principalmente minha mãe, ela valorizava muito a escrita. Então parecia que eu era um ser especial porque estava escrevendo ou porque estava lendo. Isso me deu a ideia de que ler e escrever era legal.

A escrita manual, a mano-escritura, que depois foi designada assim, ela exerceu um caráter para mim, eu acho, posso estar enganado, psicanalítico

E, sem pretensão literária, sempre teve a questão de anotar as coisas e refletir sobre as coisas. Então, histórias que minha avó contava, que às vezes estavam me impressionando, eu escrevia. Meu pai, a doença dele. Meu pai tinha esquizofrenia, e isso era um fator dentro da nossa família. Então talvez eu escrever sobre isso tenha me ajudado a resolver um pouco, a pelo menos elaborar um pouco isso.

Então eu faço essas oficinas e costumo falar sobre isso, sobre a importância de tomar notas, subir pela escada, decorar o texto e não esbarrar no cenário. Basicamente é isso. Não tem muito mais o que complicar. Se conseguir executar isso, já está muito bom.

Tu participou, em 1989, da produção do jingle “Lula Lá”. Eu queria que você me falasse do papel do artista e da cultura naquele momento, na mobilização política, e de agora. Como é que você vê esse papel da cultura?

Eu estava na escola de teatro dentro do período da ditadura. Nós éramos obrigados a fazer ensaios para a censura um dia antes da nossa peça estrear.

Quando apareceu o PT, o Lula, com as reuniões com Antônio Cândido, Florestan Fernandes, Apolônio de Carvalho, era realmente uma coisa absolutamente nova, quer dizer, me representava muito. Na época, tinha os partidos Arena e MDB.

O que eu sentia que me representava era essa coisa nova, que era o Lula com o Partido dos Trabalhadores, com essa origem entre os operários e os intelectuais da escola. Porque isso era minha família, minhas irmãs todas, meus irmãos todos trabalharam nas fábricas. Então eram operários, batendo ponto. Eu trabalhei batendo ponto na fábrica.

Parece que toda eleição é muito complicada. É a eleição mais importante de nossas vidas. Mas realmente essa nós vivemos um perigo. Estamos em risco. Nosso país está em risco

Na hora que eu estou saindo da universidade, começa a aparecer um partido que juntava exatamente a fábrica com a universidade. Foi ali que eu venho, então, por uma questão até, vamos dizer, minha pessoal. Gosto muito de militar, de me envolver e de dar opinião, desde o elefante Sandro até a eleição agora presidencial, eu gosto de me posicionar.

E com relação a esse momento que nós estamos vivendo, eu acho que é muito necessário e urgente que nós tentemos participar do processo, porque a alternativa internacional, esse momento todo, é muito perigoso. Nós estamos descaradamente vivendo um processo de interferência internacional grave, de um equívoco. Imagina se nosso país vai ser dominado, você elege o Flávio Bolsonaro com suas ideias absolutamente limitadas, com seu passado absolutamente equivocado e criminoso, imagina isso, combinado com o desejo que os Estados Unidos têm de interferir na eleição e desse domínio da América toda aqui.

Parece que toda eleição é muito complicada. É a eleição mais importante de nossas vidas. Mas realmente essa nós vivemos um perigo. Estamos em risco. Nosso país está em risco.

‘Nós estamos descaradamente vivendo um processo de interferência internacional grave, de um equívoco’ |
‘Nós estamos descaradamente vivendo um processo de interferência internacional grave, de um equívoco’ | — Jorge Leão
‘Nós estamos descaradamente vivendo um processo de interferência internacional grave, de um equívoco’ | Crédito: Jorge Leão

Tu falas sobre tua religiosidade em um vídeo nas tua redes, que é filho de Ogum, que também passou pelo cristianismo, e falando sobre o perigo dos mercadores dos templos. Quem são os mercadores dos templos hoje?

Eu fiz esse vídeo porque, às vezes, eu fico realmente muito incomodado quando se usa a religiosidade para fazer uma doutrinação que resulte na falta de liberdade, que constranja, que aprisione ao invés de libertar.

Eu acho que a religião tem que libertar as pessoas, fazer com que elas sejam muito evoluídas em todos os aspectos da compreensão do outro, das diferenças. Eu tive a sorte de ter uma educação religiosa sincrética, misturando o candomblé com a umbanda, com o espiritismo, tudo meio junto, porque em Sorocaba eu tive essa experiência com uma religião umbandista africana junto com o catolicismo.

Eu vejo muita manipulação, esses pastores eletrônicos, essa mistura com o faturamento, muita gente ficando rica e ganhando dinheiro, são os mercadores do templo. Essa imagem muito forte bíblica, me toca muito essa imagem de que Cristo expulsa os vendilhões do templo.

Eu respeito as crenças de todo mundo. As pessoas acabam sendo envolvidas em alguma coisa, elas têm alguma coisa em troca. E acho que em algum lugar nós falhamos em deixá-las tão desprotegidas, tão desprotegidas socialmente, educacionalmente…

Eu vejo muita manipulação, esses pastores eletrônicos, essa mistura com o faturamento, muita gente ficando rica e ganhando dinheiro, são os mercadores do templo

E na sua fé também…

É, porque acaba que fica um espaço vago aí de acolhimento, principalmente. Eles pegam alguém que está numa situação muito desfavorável e colocam numa engrenagem de solidariedade, no mínimo, porque são irmãos que vão nos seus enterros, que se apoiam, que ajudam a conseguir empregos, que param de beber, param de ser agressivos. Tem uma função aí. A gente tem que entender, não dá só para rechaçar.

Eu tenho parentes que são da Congregação Cristã do Brasil e eu convivi com a congregação pelos meus pais e minha irmã e é muito interessante o culto deles e a irmandade que eles têm. Você pode até discordar de certos dogmas, mas aí é a luta.

Para finalizar, queria falar desse espaço, que é um espaço financiado pela Federação dos Bancários, Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. Criado pelo sindicalismo por ter essa visão da importância da cultura para a transformação da sociedade. Como é que está sendo para ti estar aqui?

Eu fiquei realmente muito emocionado e muito bem impressionado com esse projeto, porque você criar um espaço físico, o teatro, onde eu vou exercer a minha atividade, é uma coisa rara.

Com o quanto se enfraqueceram os sindicatos, com a reforma trabalhista, e o investimento que foi feito para solidamente, nós temos aqui um teatro exemplar, um projeto. Você olha e vê um projeto aqui que, absolutamente, é de quem entende de teatro, não é um auditório. Isso aqui é um teatro reversível. Posso vir aqui e querer fazer a peça de outra maneira. Acho que é um projeto revolucionário.

E gostei muito do palco porque a gente que faz teatro, é como jogador de futebol: se o gramado está bacana, se a relação com a torcida é bacana, se o estádio menor é mais aconchegante. Só tem elogios para esse teatro.

Fonte
Brasil de Fato
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