Ataques à UnB evidenciam ‘reação de ódio’ da extrema direita contra universidade pública

Von Kennedy Cruz29/09/2026 às 15:2253 Aufrufe
Pinturas e intervenções feitas por estudantes ocupam as paredes do Instituto de Artes
Pinturas e intervenções feitas por estudantes ocupam as paredes do Instituto de Artes
Brasil de Fato

A ação do candidato a deputado federal Wilker Leão (Novo) no Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília (UnB), no domingo (27), reacendeu uma disputa que há décadas atravessa a instituição: a defesa da universidade pública como espaço de produção de conhecimento, debate e participação política.

Ex-estudante da UnB, Wilker foi preso em flagrante pela Polícia Federal após pintar de branco paredes do IdA e cobrir manifestações artísticas feitas por estudantes. A universidade informou que estudantes foram agredidos durante o episódio e acionou o protocolo de segurança. Nesta segunda-feira (28), a Justiça Federal concedeu liberdade provisória ao candidato, sem fiança ou medidas cautelares.

O episódio não é isolado na trajetória de conflitos entre Wilker e a universidade. Ele foi expulso da UnB em setembro de 2025 após processo disciplinar relacionado à gravação de professores e estudantes sem consentimento. A atuação do candidato no campus voltou a colocar em debate a utilização da universidade como espaço de disputa política.

Para Eliene Novaes, professora da UnB e ex-presidenta da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), a sequência de ações protagonizadas pelo candidato está relacionada à busca por visibilidade política.

“A gente vai percebendo que atitudes desse cidadão, desde filmar professores, constranger professores a ponto de ser expulso da universidade, e agora continuar insistindo dentro da universidade com uma posição de exposição e autopromoção através de práticas fascistas e homofóbicas, são estratégias muito vinculadas à construção da extrema direita”, afirmou.

Mudança no perfil das universidades

Além do caso específico, a professora relaciona a disputa em torno das universidades às mudanças provocadas pela expansão do acesso ao ensino superior público e pelas políticas de inclusão. 

“A universidade pública brasileira é muito mais acessível à população pobre, negra e que vem de escola pública. E isso é um elemento intolerável para a elite brasileira e para a extrema direita, que acha que a universidade é um direito apenas deles”, avalia Eliene Novaes.

O aumento do acesso por meio de políticas de ações afirmativas e expansão das universidades federais transformou o perfil do público atendido pelas instituições. O próprio processo histórico da UnB registra uma trajetória de expansão e reconstrução após os anos de repressão da ditadura militar.

É nesse ponto que professores da universidade estabelecem uma relação entre o cenário atual e o passado da instituição. Durante a ditadura militar, a UnB sofreu quatro invasões, em 1964, 1965, 1968 e 1977. Na primeira, apenas nove dias após o golpe, tropas do Exército ocuparam o campus, revistaram salas e procuraram professores considerados subversivos. O então reitor Anísio Teixeira foi afastado.

Em 1965, 223 professores e assistentes deixaram a universidade em protesto contra a repressão. Três anos depois, em agosto de 1968, uma nova operação terminou com mais de 500 pessoas detidas na quadra de basquete do campus e 60 prisões. Em 1977, tropas militares voltaram à universidade durante uma greve de estudantes e professores.

Para Diego Diehl, diretor da ADUnB, a repressão contra a universidade durante a ditadura e os episódios atuais têm como ponto comum a disputa em torno da produção livre de conhecimento. “Há um fio de continuidade entre os ataques da ditadura e as ações atuais da extrema direita contra as universidades brasileiras. Todo espaço de produção livre, autônoma e crítica de conhecimento foi alvo de ataques no passado e no presente. Não à toa, os setores que atacam atualmente as universidades são saudosistas da ditadura militar”, afirmou.

Universidade como alvo político

A dimensão do acontecimento é destacada pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN). Para Cláudio Mendonça, presidente do sindicato, ações contra universidades públicas fazem parte de uma disputa política.

“Esses ataques têm sido uma tônica dos setores ligados ao bolsonarismo, ao Partido Novo e ao Partido Missão. Seus militantes identificam o espaço público e o potencial democrático da Universidade como uma ameaça, sobretudo por ela ser um espaço de diálogo e de exercício do contraditório, além de constituir um lócus de resistência a governos autocráticos, autoritários e reacionários”, afirmou.

Segundo Mendonça, o aumento das políticas de cotas e a expansão territorial das universidades e institutos federais também ajudam a explicar a disputa em torno dessas instituições.

“Quando a gente olha a dimensão territorial das Universidade e dos Institutos Federais, isso é assustador para um setor que sempre defendeu esses espaços como ambientes majoritariamente dominados por setores privilegiados. Hoje as Universidades estão mais negras, periféricas, femininas, LGBTQIA+”, disse.

Muros do Instituto de Artes reúnem diferentes expressões produzidas pela comunidade acadêmica; estudantes convocaram uma nova mobilização para recuperar as obras cobertas no domingo (27) |
Muros do Instituto de Artes reúnem diferentes expressões produzidas pela comunidade acadêmica; estudantes convocaram uma nova mobilização para recuperar as obras cobertas no domingo (27) | — Flavia Quirino/BdF DF
Muros do Instituto de Artes reúnem diferentes expressões produzidas pela comunidade acadêmica; estudantes convocaram uma nova mobilização para recuperar as obras cobertas no domingo (27) | Crédito: Flavia Quirino/BdF DF

Para Diego Diehl, a mudança no perfil das universidades também provocou uma reação de setores da extrema direita, que, segundo ele, passaram a disputar a imagem dessas instituições na sociedade.

“Nas últimas décadas, com as ações afirmativas, a expansão das vagas e as políticas de inclusão permitiram que novos sujeitos passassem a ter acesso a esta instituição tão importante para a construção da ciência, da cultura e de profissionais qualificados das mais diversas áreas do conhecimento. Isso gerou uma reação de ódio da extrema direita, que tem tentado forjar no imaginário popular uma ideia distorcida sobre o que a universidade realmente é”, argumentou.

Autonomia e pluralidade

A disputa também envolve o caráter laico, plural e autônomo defendido pelas universidades públicas. Para Diehl, esses elementos estão entre os motivos pelos quais a instituição se tornou alvo. “A extrema direita tem trabalhado para deslegitimar a universidade justamente por seu caráter laico, plural e autônomo, pois entende que este espaço só pode existir se estiver a serviço do capital e das classes dominantes. Toda e qualquer tentativa de apresentar outras perspectivas são violentamente atacadas, sob um discurso higienista de quem se considera dono de um espaço que é de todas e de todos”, afirmou.

Na avaliação de Eliene Novaes, o conflito atual também retoma uma disputa sobre a função social da UnB. Criada em 1961 e inaugurada no ano seguinte com a presença de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, a universidade foi concebida com uma proposta de integração entre ensino, pesquisa e extensão.

A professora considera que os ataques atingem a liberdade de produção e circulação de conhecimento. “O que está em jogo nos ataques que a gente vê cada vez mais recorrentes, mais fortes e mais agressivos da extrema direita, da oposição, é atacar as universidades para desqualificá-las socialmente como lugares de produção. E isso é uma estratégia política”, declarou.

Resistência 

Para o presidente do Andes, a situação exige enfrentamento e o primeiro passo é fortalecer a unidade para derrotar a extrema direita nas urnas.

“Precisamos continuar em movimento para garantir o fortalecimento orçamentário de nossas instituições, fortalecer os mecanismos democráticos, a exemplo do fim da lista tríplice, e reocupar nossas universidades com gente, energia e disposição. Esse processo será demorado, mas exige muita paciência entre nós e luta contra nossos inimigos”, observa Cláudio Mendonça.

Nesta terça-feira (29), estudantes do Instituto de Artes convocaram uma nova mobilização para repintar os muros do departamento. “O Departamento de Artes Visuais sofreu mais um ataque dos criminosos de extrema direita. […] Não podemos deixar que esse tipo de ação nos intimide. Por isso, estamos convocando todos os estudantes para mais um ato de repintaço”, convocou Marie de Queiroga, presidente do Centro Acadêmico de Artes Visuais (Cavis).


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