IA muda funções e amplia pressão sobre trabalhadores: quem fica com os ganhos?

Por Clara Aguiar25/09/2026 às 18:2625 visualizações
Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que um em cada quatro empregos no mundo está em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa
Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que um em cada quatro empregos no mundo está em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa
Brasil de Fato

Se a Inteligência Artificial (IA) será capaz de levar a humanidade à extinção dentro de dez anos, como sugerem projeções recentes, ainda não se sabe. O alerta merece atenção e reforça a necessidade de regular o desenvolvimento da tecnologia, mas o cenário catastrófico permanece no campo da especulação. Sobre o trabalho, porém, não há dúvida: de um lado, a tecnologia facilita algumas atividades; de outro, modifica funções, encurta prazos, submete trabalhadores a novas formas de controle e coloca postos de trabalho em risco.

Mais do que uma discussão sobre tecnologia, está em curso uma disputa pelo controle e pela distribuição da riqueza gerada com seu uso. Os ganhos de produtividade serão apropriados pelas grandes empresas de tecnologia e pelos empregadores ou servirão para reduzir a jornada, melhorar salários, proteger empregos e tornar o trabalho menos desgastante?

Para Maria, nome fictício de uma trabalhadora de uma empresa de tecnologia que pediu para não ser identificada por estar submetida a um contrato de confidencialidade, essa transformação já chegou. A IA acelerou as entregas, mas também trouxe novas exigências e aumentou a insegurança.

“A IA não só agilizou entregas e trouxe uma pressão por mais produtividade, mas também impôs novos métodos e necessidades que rapidamente se tornaram obrigatórios e extremamente cobrados. O que antes era um ambiente saudável e legal de trabalhar virou um lugar de intensa cobrança e insegurança”, relata.

Maria atuava como UX Writer, profissional responsável pelos textos e pela comunicação dentro de produtos digitais. Com a incorporação da IA, sua posição foi alterada para Product Designer, responsável pela experiência visual.

“Comecei a trabalhar com um escopo bem diferente e vejo que há um direcionamento para gradual redução do quadro de profissionais”, afirma. Segundo ela, até um aplicativo de design tradicionalmente utilizado pela equipe começou a ser deixado de lado para que as entregas sejam produzidas de maneira mais uniforme, diretamente em HTML, com o uso da IA.

‘Tudo é possível em tempo mínimo’

A pressão por resultados mais rápidos também passou a fazer parte da rotina de Taiguara Castro, diretor de arte que trabalha há cerca de 15 anos na área da publicidade. Segundo ele, a IA mudou os pedidos feitos por agências e clientes.

“Onde antes se considerava haver limitações de tempo e orçamento, hoje paira uma ideia de que com IA tudo é possível, e em tempo mínimo”, conta.

Castro relata que se tornou mais difícil justificar investimentos na produção própria de fotografias e vídeos. Também aumentaram os pedidos de imagens complexas, acompanhados pela expectativa de que o resultado poderá ser obtido de maneira simples e rápida com um comando para a ferramenta.

A redução desses investimentos ameaça uma cadeia de trabalhadores envolvidos na produção, como fotógrafos, cinegrafistas, produtores e modelos, para além do trabalho realizado dentro das agências.

“Em tais pedidos está implícito que o trabalho é simples, fácil e rápido, como a indústria da IA propaga, o que nem sempre é verdade. Acredito que, em certo sentido, isso desvaloriza o trabalho, já que o destaque está na ferramenta, não no profissional”, avalia.

Para ele, a automação não está transformando o tempo economizado em descanso ou redução da jornada. “É claro que as IAs facilitaram o trabalho ao automatizar certas tarefas. Mas esse tempo não sobra em benefício do trabalhador, ele é reabsorvido pela promessa de produtividade”, diz.

Castro também percebe uma perda de qualidade. Os briefings, documentos que orientam a criação, tornaram-se mais objetivos, mas também mais frios e superficiais. Textos, imagens e campanhas são entregues rapidamente, porém tendem a apresentar ideias genéricas, repetitivas e pouco desenvolvidas.

“O imperativo da produtividade não tolera o ritmo da criatividade real, que exige maturação”, resume.

Caso o uso de ferramentas capazes de criar layouts e campanhas inteiras se torne dominante, o diretor de arte acredita que as atribuições da profissão poderão mudar drasticamente, com impacto sobre a quantidade de trabalho disponível.

IA no primeiro emprego

A expansão da IA também começa a modificar a entrada dos jovens no mercado de trabalho, especialmente em funções consideradas porta de entrada para a vida profissional.

Atividades administrativas, produção de conteúdo, atendimento ao cliente, análise de dados e tarefas repetitivas estão entre aquelas que podem ser parcialmente automatizadas ou realizadas com ferramentas de IA. Isso pode reduzir a oferta de algumas vagas destinadas a quem busca o primeiro emprego e, ao mesmo tempo, criar novas demandas por profissionais capazes de utilizar e supervisionar essas tecnologias.

Na América Latina e no Caribe, outro estudo da OIT e do Banco Mundial estima que entre 26% e 38% dos empregos possam ser afetados pela IA generativa |
Na América Latina e no Caribe, outro estudo da OIT e do Banco Mundial estima que entre 26% e 38% dos empregos possam ser afetados pela IA generativa | — Canva graphics
Na América Latina e no Caribe, outro estudo da OIT e do Banco Mundial estima que entre 26% e 38% dos empregos possam ser afetados pela IA generativa | Crédito: Canva graphics

Para quem está iniciando a trajetória profissional, o desafio não se resume a aprender a operar ferramentas de IA. A mudança também pode afetar a própria oportunidade de adquirir experiência, já que muitas habilidades são desenvolvidas justamente nas tarefas mais básicas realizadas no início da carreira.

A experiência de Thiago Palominio, estudante de Direito, ilustra como essa transformação já começa a ocorrer no cotidiano profissional. Durante dois anos, ele atuou como estagiário na Defensoria Pública do Rio Grande do Sul.

“A nossa rotina envolvia a elaboração de memoriais, recursos de apelação e a transcrição manual de audiências para instruir as peças defensivas. Perto do fim do meu contrato, foi implementada uma ferramenta de IA que passou a fazer a transcrição automática das audiências e a sugerir teses jurídicas e fundamentos para os recursos. Isso acelerou absurdamente o fluxo, zerou pendências e tornou o trabalho muito mais dinâmico.”

A experiência, segundo Palominio, demonstra o potencial da tecnologia para auxiliar na realização das atividades, mas também levanta preocupações sobre os efeitos da automação nas oportunidades de trabalho.

“A IA provou ser uma aliada formidável na gestão do serviço público. Porém, o ponto de atenção é o futuro: essa tecnologia deve servir para aliviar a carga do trabalhador, e não para substituir a força humana, reduzir vagas de estágio ou enxugar concursos públicos.”

O estudante também questiona o uso da IA exclusivamente como instrumento de redução de custos. “Se for usada apenas como corte de custos, deixará de ser uma ferramenta de avanço social para se tornar um fator de obsolescência do trabalho humano.”

Para ele, a adoção da tecnologia deve considerar seus efeitos sobre a sociedade como um todo. “A IA precisa estar rigidamente a serviço do bem-estar coletivo, do bem público e que sirva para gerar uma melhoria para a vida de todas as pessoas, não de apenas algumas empresas e instituições. Toda a sociedade deve se sentir beneficiada.”

Profissões mais expostas

Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que um em cada quatro empregos no mundo está em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. Os autores avaliam que o resultado mais provável é a transformação das funções, em vez da substituição completa dos trabalhadores.

As ocupações administrativas estão entre as mais expostas, incluindo profissionais de entrada de dados, digitação, contabilidade, escrituração e secretariado. A exposição também aumentou em atividades altamente digitalizadas, como finanças, desenvolvimento de programas e produção de conteúdo.

Na América Latina e no Caribe, outro estudo da OIT e do Banco Mundial estima que entre 26% e 38% dos empregos possam ser afetados pela IA generativa. Entre 8% e 14% poderiam ter ganhos de produtividade, enquanto de 2% a 5% estariam sujeitos à automação completa. A maior exposição está nos setores urbanos, formais e com maior escolaridade.

Esses impactos não se distribuem igualmente. Segundo o pesquisador Atahualpa Blanchet, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e de grupo de pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), um estudo da OIT aponta que 41% do emprego feminino está em ocupações expostas, contra 28% do masculino.

Os efeitos também variam conforme raça, idade, escolaridade e renda. No Brasil, segundo Blanchet, trabalhadores em situação de pobreza têm menos condições de se beneficiar dos ganhos de produtividade trazidos pela IA, o que pode aprofundar desigualdades já existentes.

Quando o algoritmo vira chefe 

Blanchet identifica três grandes tendências nos impactos da IA sobre o trabalho. A primeira é o deslocamento de mão de obra humana pela automação. A segunda é a interação entre pessoas e algoritmos, inclusive por meio da gestão algorítmica. A terceira é a plataformização, que transfere a organização e o controle do trabalho para aplicativos e plataformas digitais.

“A IA está ditando as regras do jogo desde o recrutamento à tomada de decisões, passando pela distribuição de tarefas, monitoramento e avaliação da força de trabalho”, explica.

Na gestão algorítmica, sistemas definem metas, distribuem tarefas, vigiam a produtividade e participam de decisões sobre contratação, remuneração, promoção, punição ou demissão. O poder sobre essas informações, entretanto, está concentrado nas empresas.

Enquanto o empregador conhece o sistema, o trabalhador muitas vezes nem sequer sabe quais dados estão sendo coletados, como são analisados e de que forma influenciam sua vida profissional. Além da falta de transparência, os algoritmos podem reproduzir e ampliar discriminações presentes na sociedade e no próprio mercado de trabalho.

Quem fica com os ganhos?

O aumento da produtividade provocado pela IA não resulta automaticamente em melhores salários, redução da jornada ou proteção dos empregos. Segundo Blanchet, a distribuição desses benefícios depende da correlação de forças, da organização dos trabalhadores e da negociação coletiva.

De um lado, a tecnologia facilita algumas atividades; de outro, modifica funções, encurta prazos, submete trabalhadores a novas formas de controle e coloca postos de trabalho em risco |
De um lado, a tecnologia facilita algumas atividades; de outro, modifica funções, encurta prazos, submete trabalhadores a novas formas de controle e coloca postos de trabalho em risco | — Canva graphics
De um lado, a tecnologia facilita algumas atividades; de outro, modifica funções, encurta prazos, submete trabalhadores a novas formas de controle e coloca postos de trabalho em risco | Crédito: Canva graphics

“A tecnologia pode gerar ganhos desde que sejam objeto de negociação coletiva: proteção do emprego, formação remunerada, melhoria salarial e discussão sobre redução da jornada sem redução de salário”, defende.

Se uma mesma quantidade de trabalho pode ser realizada em menos tempo, a redução da jornada é uma forma de repartir os benefícios da tecnologia. Sem essa disputa, a produtividade tende a ser convertida em intensificação do trabalho, redução dos quadros e ampliação dos lucros.

A dirigente da Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (CUT-RS) Silvana Piroli também defende que a incorporação da tecnologia seja acompanhada pela distribuição da riqueza gerada. “A tecnologia precisa estar a serviço do ser humano, e não o ser humano a serviço da tecnologia”, afirma.

Piroli cita o setor bancário como exemplo de uma atividade em que o avanço tecnológico foi acompanhado pela redução do número de trabalhadores, mesmo com lucros elevados. Para a dirigente, a contradição evidencia que os ganhos de produtividade não são repartidos automaticamente: podem significar maior rentabilidade para as empresas e menos empregos para a população.

Na avaliação dela, a resposta precisa incluir qualificação profissional e alternativas para aqueles cujas funções forem substituídas ou profundamente alteradas.

A disputa também envolve a soberania dos países diante de grandes conglomerados que concentram tecnologias, dados e conhecimento. Piroli defende investimentos públicos em pesquisa, universidades, formação profissional e desenvolvimento de ferramentas próprias para evitar que o Brasil permaneça dependente de sistemas controlados no exterior. 

“É uma concentração do conhecimento tecnológico para dominar o mundo. Você precisa ter soberania, precisa ter condições de fazer essa disputa do conhecimento”, avalia a dirigente sindical.

Sindicatos levam IA à mesa de negociação

Segundo Piroli, os sindicatos já começam a levar a inteligência artificial para as negociações coletivas. Entre as propostas levantadas no debate sindical estão a obrigação de informar e consultar os representantes dos trabalhadores antes da implantação de sistemas que afetem funções, metas ou avaliações.

Também começam a ser debatidos o direito de saber como os algoritmos tomam decisões, a revisão humana, a proteção dos dados pessoais, a proibição de decisões exclusivamente automatizadas em questões sensíveis, a qualificação durante a jornada e medidas para evitar demissões.

Uma pesquisa apresentada por Blanchet com 17 centrais sindicais de 13 países das Américas mostra que 44% já criaram estruturas ou grupos para discutir o tema e metade debate a transparência dos sistemas. Apenas 16,7%, porém, relataram experiências de acesso a informações ou de negociação coletiva envolvendo IA.

O pesquisador reitera que, no Brasil, algumas categorias já tentam transformar essas propostas em cláusulas de acordos e convenções coletivas, embora o avanço ainda seja desigual entre entidades e setores.

Para Blanchet, os trabalhadores não precisam ocupar apenas uma posição defensiva diante da tecnologia. Eles também podem disputar seu desenvolvimento e controle. Ele cita iniciativas de cooperativismo de plataforma e desenho algorítmico justo, nas quais trabalhadores participam da implantação dos sistemas por meio de comissões com representantes das empresas ou desenvolvem as próprias ferramentas.

Tecnologia com direitos sociais

A CUT tem se mobilizado para levar a implantação dessas ferramentas ao debate sindical e às negociações coletivas, com a cobrança de garantias de emprego e direitos. Como parte dessa articulação, a central prepara atividades sobre inteligência artificial e trabalho em diversos estados. No Rio Grande do Sul, o debate deve ocorrer em novembro.

Para Silvana Piroli, a modernização tecnológica precisa ampliar direitos, e não ser usada para eliminá-los ou aprofundar desigualdades. “Precisamos de uma IA com direitos sociais”, resume.

Na opinião de Taiguara Castro, a aceleração imposta pela IA pode esvaziar a atividade criativa, mas o público pode se cansar do excesso de imagens genéricas e voltar a valorizar aquilo que é feito por pessoas. “O trabalho humano é mais rico porque não se resume a uma operação lógica, mas também é feito de corpo, sensibilidade e imaginação”, afirma.

Atahualpa Blanchet destaca que a disputa começa por uma pergunta básica sobre a finalidade da tecnologia: “É preciso pensar para quê e para quem serve a tecnologia. Afinal, se a tecnologia não servir para gerar bem-estar e melhores condições de vida para as pessoas e para os trabalhadores, então ela não serve para nada”.

Fonte
Brasil de Fato
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