Entre os dias 10 e 12 de setembro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) participou do encontro Fratelli Tutti, no Vaticano. Desde o papado de Francisco, a Igreja Católica tem mantido diálogo com os movimentos populares e agora o Papa Leão 14 tem mostrado que considera importante manter esse legado.
Ao BdF Entrevista, Rodrigo Suñe, do setor de Internacionalismo do MST, conta que a conversa abordou a crise climática, justiça social e os impactos sociais da inteligência artificial, defendendo alternativas tecnológicas voltadas para a dignidade humana. “Duas questões que parecem ser o foco central desse processo: a dimensão da crise social-ecológica, da crise social-ambiental que nós estamos vivendo, com a identificação como um problema central nesse momento da história, e essa convocatória nesse sentido de exercitar esse diálogo em torno dessa perspectiva, mas, dentro disso, uma ênfase bem forte no processo da justiça social”, afirma.
Suñe pondera que, apesar de o Papa Francisco ser “um ponto fora da curva”, ele considera que Leão 14 tem, dentro de suas possibilidades, conseguido manter esses pontos de diálogo constante com as bases populares. Um dos exemplos é o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, ocorrido em outubro do ano passado. “Um Papa é essencialmente uma figura política, apesar também de ser essa figura espiritual, religiosa”, aponta.
A articulação reforça uma ponte de diálogo histórico entre a Igreja Católica e as lutas sociais no Brasil e na América Latina. “Quando ele afirma o legado de Francisco, afirma o compromisso com o nosso eixo programático de terra, teto e trabalho, ele também está afirmando o compromisso com a luta pela reforma agrária”, pontua.
O representante do MST também destacou a importância histórica da Teologia da Libertação para a esquerda latino-americana e a necessidade de a esquerda respeitar e dialogar com a fé e religiosidade do povo trabalhador. “Eu acho que os processos na América Latina, a nossa perspectiva de construção socialista, ela sempre caminhou lado a lado com esses processos que pensaram a perspectiva da teologia como algo mais amplo. Nesse sentido, a construção do reino de Deus na Terra, para nós, se chama socialismo”, explica. “Apesar de parecer contraditório, eu acho que a história do próprio marxismo latino-americano, de toda a construção, sempre caminhou lado a lado com essa perspectiva da igreja dos mais pobres, dessa teologia que pensa o processo de emancipação, de libertação do nosso povo”, avalia.
O encontro também tratou do impacto das novas tecnologias, com foco nas populações mais vulneráveis e na criação de alternativas populares, como a inteligência artificial voltada à agroecologia. Suni ressaltou a determinação das organizações de atuarem ativamente na formulação de soluções concretas. “Nós não queremos, como movimento, só nos limitar à denúncia da nossa situação. Nós queremos também ser sujeitos da construção dessas alternativas”, destacou.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
