Endividamento e alta taxa de juros fazem conta de consumo de alimentos não fechar, avalia ex-ministro

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Yazar Conversa Bem Viver30/09/2026 às 00:5955 görüntüleme
Alimentos da agricultura familiar comercializados no Armazém do Campo, em São Paulo
Alimentos da agricultura familiar comercializados no Armazém do Campo, em São Paulo
Brasil de Fato

A economia pautou bastante o debate público neste ano eleitoral, especialmente porque é um tema que afeta o dia a dia do brasileiro. Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrou um certo paradoxo: seu terceiro governo tem apresentado números econômicos muito positivos, como a saída do Brasil do Mapa da Fome, ao mesmo tempo em que um alto índice de endividamento das famílias, de aproximadamente 80%, gera uma percepção negativa na população sobre a economia. Esse cenário acaba por impactar a relação entre o poder de compra e os preços dos alimentos.

Ao Conversa Bem Viver, o agrônomo José Graziano da Silva, ex-ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome e ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), explica que o poder de compra e os preços dos alimentos em moeda nacional melhoraram, impulsionados pela valorização do salário mínimo, mas o custo de vida vem sendo fortemente afetado pelo alto endividamento e pelas taxas de juros elevadas que corroem a renda das famílias. “Nós estamos pagando 1% ao dia, quase, de taxa de juros no cartão de crédito. Isso é coisa de agiota. Isso é coisa de bandido”, critica.

Além disso, ele aponta que a flutuação dos preços dos alimentos no país foi impulsionada principalmente por instabilidades climáticas internas, e não por choques do mercado internacional. “Não há dúvida de que nós enfrentamos esse ano, particularmente, e o ano passado, uma elevação dos preços mundiais de alimentos, que tem muito a ver com as guerras, a instabilidade no mercado mundial… Mas isso não afetou muito o Brasil, não. O que afetou mais o Brasil foram as instabilidades climáticas. Então, nós tivemos preços que subiram muito e baixaram muito, dependendo da época de safra, principalmente preço de produtos estrangeiros, que são os mais afetados pela instabilidade climática. Então, na média, o Brasil teve um desempenho melhor do que o resto do mundo”, pondera.

Ao abordar a saída do Brasil do Mapa da Fome, Graziano explica que o país conseguiu reduzir expressivamente a subalimentação para menos de 1% da população. No entanto, ele alerta que o desafio central da segurança alimentar mudou da quantidade de calorias para a qualidade nutricional da dieta, gravemente comprometida pela substituição de alimentos frescos por produtos ultraprocessados. “O nosso problema agora passou de quantitativo, quanto comemos no mínimo para um índice de qualidade, o que nós comemos”, afirma. Como reflexo dessa piora na qualidade da alimentação, ele chama a atenção para a crescente prevalência do sobrepeso e da obesidade, projetando que dois terços da população adulta brasileira poderão estar com excesso de peso até 2030.

Para orientar o debate público e garantir avanços sustentáveis na nutrição do país, o Instituto Fome Zero formulou seis diretrizes estratégicas. Entre as propostas, destacam-se a necessidade de subsidiar produtos frescos no âmbito da reforma tributária, o fortalecimento da agricultura familiar, a implantação de uma proteção social antecipatória diante de emergências climáticas e o incentivo ao engajamento comunitário. “Essa deficiência de frutas, verduras e legumes precisa de mais do que simples isenção de tributo. Precisa de subsídio. O mundo inteiro subsidia produtos frescos”, destaca. “Não há uma política de segurança alimentar e nutricional se não tiver participação social”, resume.

Conversa Bem Viver

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