O espectro de Egon Bahr retorna a Moscou: quando a liderança alemã se comportava racionalmente

Por Marco Fernandes10/10/2026 às 12:002 visualizações
Putin citou Egon Bahr em reunião do Clube Valdai
Putin citou Egon Bahr em reunião do Clube Valdai
Brasil de Fato

Na noite de 1º de outubro, diante da plenária de encerramento da conferência anual do Clube Valdai, Vladimir Putin fez uma inesperada digressão histórica com material que encontrou nos arquivos soviéticos. Ele resgatou as advertências feitas há quase 4 décadas de um alemão de quem quase ninguém mais se lembra: Egon Bahr, membro da direção do Partido Social-Democrata (SPD). Foi ele o arquiteto, em 1963, da chamada Ostpolitik (“Política do Leste”), que apostava em aproximar a URSS do Ocidente, em vez de polarizar com ela. 

A Alemanha, propunha Bahr, deveria ser uma ponte entre os dois lados do Muro de Berlim. Bahr negociou os Tratados do Leste de Willy Brandt (chanceler alemão entre 1969 e 1974), na condição de secretário de Estado da Chancelaria, ou seja, o braço direito de Brandt. Entre 1970 e 1973, Bonn assinou com Moscou, Varsóvia e Berlim Oriental os Tratados do Leste: reconheceu as fronteiras saídas da guerra e a existência da outra Alemanha, em troca de trânsito garantido e visitas de família. Era a fórmula de Bahr em forma de direito — aceitar o que existe para que as coisas mudassem pela convivência. A Democracia Cristã (CDU) combateu os tratados até quase derrubar Brandt: a moção de desconfiança de 1972 fracassou por somente dois votos.

No Valdai, Putin leu três trechos do arquivo soviético. No primeiro, Bahr identificava dentro da própria OTAN “aqueles círculos que não têm nenhum desejo de entrar no caminho da cooperação pan-europeia e da redução da confrontação”. No segundo, advertia que, sem “passos decisivos para superar a cisão da Europa em blocos hostis”, o desenvolvimento tomaria “um caráter extremamente desfavorável, condenando a URSS ao isolamento internacional”. E dizia o que deveria substituir os blocos: um conselho de segurança com amplos poderes, reunindo os Estados Unidos, a União Soviética e toda a Europa Central e Oriental — e a OTAN não avançando para leste. 

Ao encontrar isso nos papéis, contou Putin, avisando que ia soar “pouco diplomático”: “fiquei de queixo caído”. Diante de uma Alemanha com retórica cada dia mais agressiva, que insiste em alimentar o fantasma da “ameaça russa”, é mesmo de cair o queixo que um dos principais cérebros da política externa alemã por mais de duas décadas tenha sido tão sensível aos perigos de um acirramento da polarização do Ocidente com a URSS, e propusesse uma nova e ousada arquitetura de segurança na Europa, além de se opor à expansão da OTAN para leste. Para o presidente russo, é como se Bahr tivesse olhado numa bola de cristal (ou “como se tivesse olhado na água”, na expressão em russo).

É importante atentar para o momento em que isso foi dito. Vinte e quatro horas antes, Moscou havia enviado à OTAN um memorando advertindo que recorreria a todos os meios disponíveis para a sua defesa, caso a aliança tentasse impor um bloqueio a Kalinigrado. No Valdai, Putin disse que não falaram em armas nucleares, mas no mesmo dia, o representante permanente da Rússia na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, Dmitry Polyansky, numa reunião do Conselho Permanente da organização, disse que a resposta nuclear está prevista nos documentos doutrinários russos para um caso como esse. No mesmo 1º de outubro, o chanceler alemão Friedrich Merz advertia que a Europa deve se preparar para operações híbridas russas ampliadas. É nesse ambiente que o presidente russo escolhe falar da Alemanha. Mas fala dela pela boca de um alemão. 

Em fevereiro de 1990, Bahr esteve em Moscou pela bancada do SPD, acompanhado do deputado Karsten Voigt, e disse a Aleksandr Yakovlev – o arquiteto da Perestroika – diante de Valentin Falin – que fora embaixador soviético em Bonn nos anos da Ostpolitik – que Helmuth Kohl (da CDU, então chanceler alemão) queria “a OTAN até o Oder”, o rio que separa Alemanha e Polônia (hoje a aliança está mil quilômetros adiante, a 130 km de São Petersburgo). E que, se a União Soviética não fizesse nada para evitar isso, ele não voltaria mais a Moscou, como nos contou Putin. 

No dia seguinte, propôs ao ministro das Relações Exteriores da URSS, Eduard Shevardnadze, um sistema europeu de segurança com comando próprio, no qual a Alemanha unificada estaria vinculada em lugar de blocos opostos — e advertiu que, se Moscou aceitasse a adesão alemã à OTAN, o próprio SPD mudaria de posição e capitularia. Shevardnadze respondeu: “A União Soviética não vai capitular.” Três meses depois, em Washington, Gorbachev concedia à Alemanha o direito de escolher sua aliança. Dezoito meses depois, a União Soviética capitularia, literalmente. Pouco tempo depois, irônica ou tragicamente, o otimista Shevardnadze se tornaria presidente da ex-república soviética da Geórgia.

Putin usou Bahr não apenas para criticar o atual governo alemão, mas também para criticar Gorbachev. A liderança soviética, disse ele, “ouvia, ouvia e não fazia nada”. Voigt — atlanticista convicto, que discordava de Bahr dentro da própria delegação — publicou em 2016 sua versão do encontro: os soviéticos “não tinham concepção própria”, eram contra a adesão à OTAN, mas “não tinham alternativas convincentes a opor”, e pareciam mais interessados nas relações com Washington. Sete semanas depois, Falin escreveria a Gorbachev dizendo que a política europeia soviética havia caído “em contemplação e reflexão, para não dizer depressão”, que “o Ocidente está nos superando” e que a casa comum europeia “transforma-se agora numa miragem”. Ou seja, o experiente diplomata soviético alertava para a ilusão de que pudessem um dia ser bem-vindos à assim chamada “civilização ocidental”.

Isto é o que Putin deixou nas entrelinhas no Valdai: em 1990, um social-democrata alemão e o principal especialista soviético nos temas da Alemanha lançaram o mesmo apelo de lados opostos da mesa, e foram ignorados pelo mesmo homem: Gorbachev. O preço pago pela URSS, e posteriormente pela Rússia, foi alto e o recado tem endereço duplo. Para dentro, reafirma a posição do próprio Putin, que há muito tempo alerta a elite russa sobre suas ilusões em relação ao Ocidente. Para fora, tenta relembrar aos alemães – e à Europa – de que eles já foram capazes de uma política minimamente racional para a Rússia.

Quanto está custando o suicídio econômico alemão?

A Alemanha à qual esse recado foi endereçado vive uma verdadeira decadência econômica. O Instituto da Economia Alemã — o IW de Colônia, think tank financiado pelas federações patronais e insuspeito de simpatias russas — calculou, em fevereiro deste ano, que a economia alemã acumulou, desde 2020, um déficit de produção de quase um trilhão de euros. Em 2025, o produto alemão mal superou o nível de 2019. Ou seja, seis anos de paralisia. O IW não separa os choques: pandemia, guerra e a política confrontacional de Washington se superpõem desde 2022. Mas a parte energética da conta é simplesmente chocante.

Em 2021, a Rússia respondia por 55% das importações alemãs de gás, e o Nord Stream 1 sozinho entregou 59,2 bilhões de metros cúbicos, acima da própria capacidade nominal. Era o combustível de uma estrutura industrial construída sobre energia barata. O TTF, gás de referência europeu, rodava abaixo de 20 euros por megawatt-hora na maior parte de 2019 e 2020; em setembro de 2026, depois do pico de 340 euros em 2022, ainda estava entre 73 e 80 — três a quatro vezes o patamar anterior. A Alemanha substituiu os gasodutos russos por navios vindos de longe: no primeiro trimestre deste ano, 89% do seu GNL veio dos Estados Unidos. Entre 2022 e 2025, a União Europeia gastou cerca de 281 bilhões de euros em gás liquefeito, dos quais 131,5 bilhões em carga americana. Houve uma enorme transferência de renda para o outro lado do Atlântico.

O efeito na economia real está nas estatísticas oficiais. Segundo a Destatis (o IBGE alemão), a produção dos setores intensivos em energia caiu 15,2% entre fevereiro de 2022 e março de 2026, contra 9,5% da indústria como um todo. A consultoria EY, a partir de dados do próprio instituto federal, contou 124 mil postos industriais cortados em 2025, quase o dobro de 2024, dos quais 50 mil na indústria automotiva. Desde 2019, a indústria alemã perdeu cerca de 266 mil empregos, e o setor automotivo, 111 mil — 13% do total. O quarto trimestre de 2025 foi o décimo consecutivo de contração da receita industrial.

O mais revelador, porém, é a decisão silenciosa do capital: numa pesquisa com 3 mil empresas, quatro em cada dez afirmam considerar cortar produção na Alemanha ou transferi-la para fora, proporção que era de 21% em 2022. Enquanto a BASF inaugurava em março deste ano, em Zhanjiang, China, um complexo de 10 bilhões de euros — o maior investimento isolado de sua história —, a ArcelorMittal comunicava ao governo alemão que não construiria suas usinas de aço verde em Bremen e Eisenhüttenstadt, abrindo mão de 1,3 bilhão de euros em subsídios já aprovados. O motivo declarado foi o preço da eletricidade alemã. 

Seu CEO, Geert van Poelvoorde, declarou: “A siderurgia europeia está sob pressão sem precedentes para continuar viável — e isso sem os custos adicionais exigidos para descarbonizar.” O PIB caiu 0,3% em 2023, 0,2% em 2024, e cresceu 0,2% em 2025. Não é desaceleração cíclica, mas uma ameaça aos próprios fundamentos de sua base produtiva. Em outras palavras, trata-se de um processo acelerado de desindustrialização, causada por uma decisão política de Berlin, que optou por abdicar do gás russo barato em troca do mesmo insumo três vezes mais caro e a um oceano de distância. Chamar isso de suicídio econômico não é um exagero retórico.

A reindustrialização pela via militar: um sinistro déja vù

Diante desse quadro, o governo de Friedrich Merz fez uma escolha que a história europeia já viu, e cujo resultado foi nada menos que desastroso: industrializar o país sob a liderança da indústria bélica. Foi o que fizeram os alemães nos anos 1930. Em 18 de março de 2025, o Bundestag aprovou por 513 votos a 207 uma emenda constitucional que isenta do limite de endividamento todo gasto em defesa acima de 1% do PIB. O freio da dívida, inscrito na Lei Fundamental para disciplinar o Estado alemão, deixou de se aplicar justamente ao rearmamento. O orçamento de defesa salta de 86 bilhões de euros em 2025 para 108,2 bilhões em 2026 e deve passar de 150 bilhões em 2029, rumo a 3,5% do PIB. Só até dezembro, a Bundeswehr (Forças Armadas alemãs) pretende assinar 153 grandes contratos de aquisição, somando cerca de 83 bilhões de euros. A Volkswagen, uma das joias da indústria alemã, anunciou recentemente um corte de 50 mil empregos, mas pouco antes, anunciou também que vai entrar no setor bélico.

A retórica acompanhou o orçamento e ela é cada vez mais assustadora. Em junho de 2024, no Parlamento, o ministro da Defesa Boris Pistorius — social-democrata — fixou a meta numa frase que entrou no vocabulário político alemão: “Precisamos estar aptos para a guerra até 2029”. Merz, em sua primeira declaração de governo, prometeu fazer da Bundeswehr a “mais forte força armada convencional da Europa”. Em 29 de setembro de 2025, em Düsseldorf, avisou que diria algo “talvez um pouco chocante à primeira vista”: “Não estamos em guerra, mas também não estamos mais em paz”. A guerra russa, acrescentou, é “uma guerra contra a nossa democracia e uma guerra contra a nossa liberdade”. 

Alemanha e Rússia têm uma relação, por assim dizer, complexa há séculos. Catarina II, a Grande, czarina russa (1762–1796) era uma princesa alemã de Stettin, e a dinastia russa chamou-se formalmente Romanov-Holstein-Gottorp de 1762 até 1917. Com o Tratado de Resseguro, Bismarck amarrou a Rússia em 1887 para nunca ter de lutar em duas frentes, mas seus sucessores o romperam em 1890, empurrando a Rússia para a França e criando as condições que explodiram em 1914, com a I Guerra Mundial. Desnecessário lembrar que ambos os países travaram as batalhas mais sangrentas da história depois que Hitler invadiu a URSS em 1941.

Até que um terceiro elemento surge para complicar ainda mais essa relação. Em 1962, sob pressão de Washington, a OTAN proibiu a venda de gasodutos alemães à URSS, e empresas alemãs tiveram de rasgar contratos assinados. Anos depois, Brandt derrubaria o veto: em fevereiro de 1970, fechou-se o acordo de gasodutos alemães por gás soviético, seis meses antes do Tratado de Moscou, negociado por Bahr, em que Bonn finalmente reconheceu as fronteiras do pós-guerra.

Em 1982, contra o gasoduto siberiano, Washington sancionou empresas europeias, mas os governos da Europa exigiram que se cumprissem os contratos assim mesmo, até que Reagan recuou. Bons e velhos tempos, nos quais a Europa ainda mantinha a sua soberania e era capaz de desafiar as sanções estadunidenses. 

Já em 2019, bastou a ameaça da Casa Branca para que a suíça Allseas abandonasse o Nord Stream 2 em 24 horas — e, até fevereiro de 2021, dezoito empresas europeias tinham feito o mesmo, entre elas as certificadoras e seguradoras sem as quais o gasoduto, mesmo pronto, não poderia operar. Finalmente, em setembro de 2022, explosivos resolveram a questão no fundo do Báltico, com o atentado terrorista contra o controverso gasoduto. Em matéria investigativa, o famoso jornalista Seymour Hersh, atribuiu a explosão a uma operação estadunidense e Washington desmentiu; a promotoria alemã denunciou, em junho deste ano, um ucraniano acusado de comandar o veleiro que teria levado os explosivos. O que é certo é que a Alemanha teve sua infraestrutura energética destruída e, quatro anos depois, ninguém foi responsabilizado. Berlim nunca tratou o episódio como ataque, muito menos como casus belli. Concluído em setembro de 2021, a um custo de cerca de 9,5 bilhões de euros, o Nord Stream 2 não funcionou sequer um dia. E o prejuízo não foi só da russa Gazprom – que bancou metade do projeto -, mas também de empresas da Alemanha, Áustria, França, Reino Unido e Holanda.

A essa relação de medo e fascínio, aliança e destruição, a historiografia alemã chama, com Gerd Koenen, de Russland-Komplex. Hoje o pêndulo está num extremo, e o único lugar do governo onde o outro polo ainda respira é o SPD: em junho de 2025, mais de cem quadros social-democratas assinaram um manifesto pedindo “uma tentativa extraordinariamente difícil” de reengajamento com Moscou “quando as armas silenciarem”. Pistorius, do mesmo partido, chamou o texto de “uma negação da realidade”.

A política de Merz está sendo julgada nas urnas

Em uma de suas respostas na plenária do Valdai, Putin atribuiu a escalada agressiva da retórica europeia de uma suposta “ameaça russa” a uma tentativa de distrair o povo, tirando o foco dos graves problemas econômicos e sociais que as principais nações europeias enfrentam. Mas a julgar pelas últimas eleições estaduais alemãs, a tática de Berlin não está funcionando. Em quinze dias de setembro de 2026 houve três eleições: dia 6, Saxônia-Anhalt, com a CDU caindo de 37% para 17% e derrotada pela AfD com 43,8% (melhor resultado eleitoral de sua história); dia 20, em Mecklemburgo-Pomerânia, não só a AfD venceu com 38,2%, como a CDU, com 4,9%, ficou fora do parlamento. Em Berlim, o Die Linke derrotou a coalizão CDU-SPD e governará a capital, provavelmente com Verdes e o SPD. 

Merz chamou o resultado de “desastre”, mas anunciou que continua no cargo. O secretário de Estado Philipp Amthor, da sua própria ala, resumiu o clima do partido: “está em jogo tudo”. Nas pesquisas nacionais, a AfD oscila entre 25% e 27%, empatada com a CDU. O eleitorado alemão está punindo o partido do rearmamento pelos dois flancos — à direita, a AfD, por uma força que faz campanha contra as sanções e pela retomada do gás russo; à esquerda, o Die Linke, numa capital onde o partido mais claramente contrário à escalada militar acaba de vencer. Não é possível entender tais resultados sem falar das 124 mil demissões industriais de 2025 e de uma conta de energia que triplicou.

Uma chance para outro ‘erro do século’?

No fim da vida, Bahr chamou a opção ocidental pela confrontação de “erro do século”, e dizia que a OTAN havia se tornado “um instrumento no interesse da estratégia hegemônica dos Estados Unidos”. Mais ou menos na época da morte de Bahr, George Friedman, um húngaro que fugiu do comunismo e que nunca nutriu simpatia por Moscou, fundador da Stratfor, consultoria de inteligência geopolítica, apelidada de “CIA privada”, explicou a uma plateia em Chicago que “o interesse primordial dos Estados Unidos, pelo qual durante um século travamos guerras — a Primeira, a Segunda, a Guerra Fria — foram as relações entre a Alemanha e a Rússia. Porque unidas, elas são a única força capaz de nos ameaçar. E é preciso garantir que isso não aconteça”.

Onze anos depois, a Alemanha importa 89% do seu gás liquefeito dos Estados Unidos, perdeu o equivalente a um ano inteiro de produção e debate se já está ou não em guerra. Aparentemente, a Casa Branca fez um bom trabalho. Mas Putin parece ter evocado Bahr na esperança de que o único argumento capaz de rachar o consenso alemão é um argumento também alemão.

*Marco Fernandes é historiador e analista geopolítico do Brasil de Fato em Moscou

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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