A guerra pela eternidade: uma escolha nada difícil

Por Jorge Branco29/09/2026 às 19:3326 visualizações
Lula segura imagem de Nossa Senhora de Nazaré durante ato de campanha em Belém (PA)
Lula segura imagem de Nossa Senhora de Nazaré durante ato de campanha em Belém (PA)
Brasil de Fato

O Estado de S. Paulo publicou no dia 8 de outubro de 2018, antes do segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, um editorial intitulado “Uma escolha muito difícil”. O texto é um modelo perfeito da desfaçatez. Para aderir ao candidato de extrema direita e reacionário, o Estadão, assim como outros conservadores de direita, criou uma insustentável equiparação entre os dois candidatos, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, para enfim chegar ao ponto de onde gostariam de ter partido e não sabiam como: apoiar o candidato que, transformado insensatamente em Presidente da República, anos depois jogou o Brasil na crise da covid-19, devolveu o país ao mapa da fome, fugiu com joias e tentou um golpe de Estado.

A crueza do reacionarismo não tardou a se demonstrar. Em um jantar com empresários e amigos em Miami, nos Estados Unidos, em março de 2019, Bolsonaro declarou: “Prezado Olavo de Carvalho, o Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos que desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa, para depois começar a fazer”. Bolsonaro tinha duas missões em mente: destruir políticas e direitos sociais para garantir recursos para os rentistas e empresários, e desconstituir valores que foram fundamentais para a construção da democracia e base para a força da esquerda e do progressismo no país. Destruir ambos os conteúdos, simultaneamente, consistiam em algo fundamental para o projeto da extrema direita em associação com seus fornecedores logísticos, os super-ricos.

O projeto do reacionarismo no mundo e no Brasil não se restringe, por evidente, a um programa econômico e a uma plataforma de assalto, quando no governo. Trata-se de uma luta pela cultura, pela visão de mundo e por valores. Trata-se do que Benjamin Teitelbaum chamou de “guerra pela eternidade”. Uma guerra cultural, onde a política se torna sua consequência. Isso explica tamanha resiliência da extrema direita brasileira. Fora do governo — após causar um genocídio por desídia durante a pandemia, gerar fome, envolver-se em corrupção e com o crime organizado, afundar-se em notícias falsas, ser rejeitada por metade da população e organizar uma tentativa de golpe de Estado —, ela ainda disputa cabeça-a-cabeça o voto dos brasileiros contra a candidatura vinculada à democracia, ao combate à fome e líder do campo pacifista e multilateralista nas relações internacionais. Uma candidatura que, por qualquer critério de avaliação, mostra-se muito mais virtuosa que a outra, para governar o país.

Novamente este embate — entre passado e futuro, entre democracia e autoritarismo, entre destruição e construção, entre barbárie e civilização — se apresenta para, de forma dramática, encaminhar as próximas décadas do Brasil e, por arrasto, da América Latina.

Se o Estadão teve que agredir o bom senso para apoiar Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad, chamando sua opção de “escolha difícil”, agora em 2026 a escolha entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro não é nada difícil, ao menos para aqueles que se colocam no campo do iluminismo, da igualdade e do mundo moderno. Bolsonaro representa as trevas, a negação do desenvolvimento e do processo civilizatório. Isso implica a extinção do Estado laico — única forma de garantir a liberdade religiosa —, a desdemocratização acelerada, a ampliação de barreiras para a luta por direitos e a implosão dos elementos soberanos, o que coloca em risco a existência da nação. Lula da Silva é o oposto disso tudo.

Nada difícil, portanto, senão escolhê-lo para construir mais tempo. Tempo que precisamos obter para acumular forças na batalha pelos ideais, a batalha pela manutenção das grandes conquistas civilizatórias da era dos superlativos, como proclamou Eric Hobsbawm. Era contraditória e incompleta e que, agora, se vê às voltas com a contrarrevolução do reacionarismo.

Uma escolha nada difícil, como se vê. 

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.