‘O maior arauto do golpismo’: a complexa trajetória de Carlos Lacerda recebe uma nova biografia

Por BdF Entrevista01/10/2026 às 23:4456 visualizações
Carlos Lacerda em 1954
Carlos Lacerda em 1954
Brasil de Fato

Ele esteve na esquerda; migrou para a direita, tornando-se referência do campo conservador; foi vítima de um atentado; colecionou inimigos, entre eles o ex-presidente Getúlio Vargas, e uma série de contradições em sua trajetória política. Esse é Carlos Lacerda, que agora ganha uma nova biografia, “Lacerda: Coração de tempestade, Vol. 1 (1914–1955)”. O autor, o jornalista Mário Magalhães, também é biógrafo de Carlos Marighella.

Preso nove vezes durante a Era Vargas, Lacerda passou de militante comunista ao “maior arauto do golpismo” no Brasil, como o próprio biógrafo define.

Ao BdF Entrevista, Magalhães explica que essa primeira parte da biografia se dedica a contar da fase do nascimento e infância do bigrafado — quando precisou lutar pela vida porque, ainda pequeno, contraiu a gripe espanhola na epidemia de 1918 — até o ano de 1955, quando Lacerda parte para o autoexílio.

A decisão de deixar o país ocorre após a eleição de Juscelino Kubitschek e de seu vice, João Goulart. “Houve uma grande articulação golpista para tentar impedir que eles assumissem. E essa pregação golpista teve à frente, com enorme destaque, o meu biografado, Carlos Lacerda. Ela acabou se frustrando e assumiram aqueles que tinham vencido nas urnas”, afirma. Um movimento capitaneado pelo general Lott garantiu a posse.

Mário Magalhães compara com o trabalho que fez sobre Marighella. Diz que usou os mesmos “princípios jornalísticos e éticos”, assim como “os mesmos métodos de apuração e investigação”, e afirma que deixa para o leitor tirar suas próprias conclusões. “Em relação aos dois, eu não tive veleidade de julgá-los. Eu não julgo biografado. Também não sou advogado deles, nem sou promotor contra eles. O que eu me esforço é para elaborar um relato escrupuloso que ajude leitores e leitoras a formarem de modo autônomo o seu próprio juízo”, diz.

O jornalista detalha a trajetória política de Lacerda, que militou por mais de dez anos na juventude comunista e na Aliança Nacional Libertadora (ANL) antes de romper com o movimento e se converter a um anticomunismo severo e macartista. “O macartismo não é só o anticomunismo, é o anticomunismo persecutório, impiedoso. E há outros leitores que vão rejeitá-lo como comunista e vão adotá-lo como anticomunista”, pondera. “É um homem do tempo dele. Ele vai da esquerda para a direita.”

O biógrafo compara com outras figuras célebres que tiveram suas ambivalências, como Vinicius de Moraes, que, quando jovem, era ligado ao movimento integralista e chegou a publicar poemas na revista Anauê, como destaca Magalhães, “um pastiche do nazismo alemão com o fascismo italiano que existia no Brasil”.

O livro também se dedica a reconstituir o atentado que Lacerda sofre na Rua Toneleiro, em agosto de 1954. O ataque resultou na morte do Major Rubens Vaz e feriu o próprio Lacerda. “Me debrucei sobre tudo que havia de investigação, perícia, tudo que foi feito na época e não há dúvidas: ele foi vítima de um atentado”, afirma.

Magalhães observa que, apesar de seus arroubos golpistas, Lacerda sempre ocupou cargos públicos para os quais foi eleito democraticamente. E cita algumas de suas ideias quando governador do estado da Guanabara, que seriam bastante identificadas com a esquerda: um programa contrário ao despejo de famílias faveladas e a oposição pública ao apoio do Brasil para a criação do Estado de Israel porque “ela se fundava no sionismo, que era uma doutrina racista”, segundo elaboração do próprio Lacerda.

Entre 1966 e 1968, o político voltaria a surpreender o cenário nacional ao integrar a Frente Ampla contra a ditadura militar ao lado de antigos desafetos políticos, como Kubitschek e Jango. Nesse sentido, o biógrafo defende que Carlos Lacerda deixa herança para todos os espectros políticos. “Ele se junta a quem ele havia sido colocado contrário para derrubar a ditadura. A influência, as lições, cada um pega o que quiser”, pondera.

“Uma coisa é o Carlos Lacerda que combate pela democracia e contra os golpes de Estado do Getúlio Vargas, e outra é o Carlos Lacerda que é o maior arauto, o maior propagandista do golpismo da história do Brasil. A história do Brasil é isso, ela é muito louca”, resume.

Confira a entrevista completa abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.