Agronegócio mais forte no Congresso em 2027 mostra como dinheiro e lobby interferem na política

Por BdF Entrevista09/10/2026 às 23:383 visualizações
Zé trovão
Zé trovão
Brasil de Fato

Apelidada de Bancada do Boi, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) vai ficar ainda mais forte em 2027. Dois em cada três parlamentares da frente se reelegeram, 17 deputados federais se tornaram senadores, e a bancada ainda conta atrair para si nomes da extrema direita eleitos agora, que têm grande sinergia com a pauta.

O movimento pelo agronegócio no Congresso começou a dar seus primeiros passos nos anos 1990, mas se formou enquanto bancada em 2003 e, de lá para cá, vem ganhando cada vez mais espaço. O grupo conta com o suporte técnico e financeiro do Instituto Pensar Agro (IPA), entidade privada mantida por associações do agronegócio que financia advogados e lobistas para redigir projetos de lei e estruturar a atuação parlamentar. Essa engrenagem garantiu a aprovação de matérias de grande impacto, como a flexibilização do licenciamento ambiental, com o PL da Devastação, o marco temporal para demarcação de terras indígenas e a manutenção de isenções tributárias históricas para a exportação de commodities e ampliação da aprovação e uso de agrotóxicos.

Ao BdF Entrevista, Bruno Bassi, pesquisador e coordenador do Observatório De Olho nos Ruralistas, avalia que o poder econômico vem garantindo, ano após ano, a manutenção desses parlamentares e o aumento paulatino da presença no Congresso a cada eleição. Segundo o pesquisador, FPA e IPA funcionam como “dois lados da mesma moeda: enquanto a FPA tem os políticos, que são de fato as pessoas que têm cargo eletivo, o IPA tem esse lado das empresas, dos lobistas”.

Um dos exemplos de figuras mais vocais do bolsonarismo, envolvido na tentativa de golpe, que compõem a bancada e foi reeleito é Zé Trovão (PL-SC).

Bassi ressalta que essa estrutura corporativa permite ao grupo concentrar um poder desproporcional no parlamento, atendendo prioritariamente às demandas dos grandes proprietários rurais que financiam o sistema. “Você tem uma conexão muito forte das estruturas de poder locais com esses grupos econômicos, com essas oligarquias rurais locais, o que está muito atrelado a alguns partidos em particular”, aponta, ao citar União Brasil, que surgiu do PFL, que virou Democratas e depois União, PSD e PP. “A gente sabe quanto custa fazer uma campanha no Brasil.”

Para ele, existe no Brasil muito mais que uma bancada que milita pelo agro, mas um “sistema político, social e cultural”. Sobre isso, Bassi conta do levantamento realizado pelo De Olho nos Ruralistas, que mostra os 100 artistas que mais receberam recursos públicos de prefeituras ligadas ao agronegócio. “O sertanejo, o piseiro, todo esse circuito do forró ligado às vaquejadas, o brega também acaba participando um pouco disso, tem ligação com o agronegócio, porque as vaquejadas são promovidas e mantidas por empresários do agronegócio, principalmente pecuaristas, em cidades do interior, da região Nordeste, principalmente, mas também um pouquinho para a região Norte”, aponta.

O pesquisador destaca que a FPA é tão consolidada que compõe com todos os recentes governos, inclusive com as gestões petistas. Mas destaca que foi no período Bolsonaro que essa relação se intensificou. “Vários dos ministros do Bolsonaro, pelo menos os primeiros ministros ainda em 2019, antes da reformulação ministerial, eram membros graúdos da FPA. A gente teve o Onyx Lorenzoni, que era diretor da FPA. A própria Tereza Cristina, já citada, e o Ciro Nogueira, também um nome importante dentro do FPA, latifundiário no Piauí. Então a gente tem uma conexão muito forte do bolsonarismo com o FPA”, afirma.

Além da força política, a análise evidencia a contradição entre o discurso liberal do agronegócio e sua intensa dependência de recursos públicos. O grupo frequentemente defende a redução do papel do Estado na fiscalização ambiental e social, mas recorre com frequência a refinanciamentos e perdões de dívidas bilionárias com bancos públicos, além de receber subsídios estatais. “Quando a gente para para observar a realidade do setor, ele é altamente dependente do Estado brasileiro, do financiamento do Estado, dos subsídios”, aponta Bruno Bassi.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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