O tempo que carregamos conosco

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Jornal da USP

Por Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

 Publicado: 28/09/2026 às 18:26

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Supermemória é um sonho para muita gente. O perfil é o de uma pessoa que se lembra de absolutamente tudo, como se fosse uma das inteligências artificiais disponíveis em nossos computadores. Mas quais seriam as consequências para um ser humano? Jorge Luis Borges criou um personagem para refletir sobre esse sonho em seu conto-ensaio intitulado Funes, o memorioso.

Irineu Funes não esquece de nada, absolutamente nada. Para ele, um cão visto agora é diferente do cão visto no minuto anterior e, por sua vez, do cão visto no minuto seguinte. O que parece ser a realização de um sonho é, na verdade, mais um pesadelo — e um dos grandes. Funes não é viável como pessoa, justamente por se lembrar de absolutamente tudo o que passou em sua vida desde que era bebê. Não esquecer, no conto de Borges, é algo como uma deficiência mental. E Borges esbarra em uma conclusão: “Pensar é esquecer diferenças, generalizar, abstrair”.

O fato de termos que esquecer para sermos viáveis salienta uma relação importante com o tempo: só lembramos de uma pequeníssima parte do que nos aconteceu no passado. A estabilidade dos seres numa cadeia temporal física depende de nos lembrarmos o suficiente para entendermos quem somos, de modo a podermos usar esse conhecimento para tentar prever o futuro. Nossa relação com o tempo está tanto dentro do nosso cérebro quanto fora dele. O tempo físico passa de forma solene e impiedosa. É o deus Chronos em ação. Queiramos ou não, nosso cérebro constrói uma percepção do tempo. O senso autobiográfico, que é uma dimensão do que passamos na vida até chegar a este momento, não necessita de uma memória completa.

Essa capacidade de organizar o passado no tempo não é exclusivamente humana. Algumas aves armazenadoras de alimento são exemplos extraordinários. Em experimentos clássicos, scrub-jays foram capazes de se lembrar do que haviam escondido, de onde o alimento estava e há quanto tempo o haviam armazenado. Quando escondiam um alimento muito apreciado, mas perecível, e outro menos atraente, porém durável, procuravam o primeiro se pouco tempo tivesse passado; depois de um intervalo maior, quando já estivesse deteriorado, mudavam de escolha. É o que os pesquisadores chamam de memória episódica-like: não sabemos se uma ave “revive” subjetivamente o passado como nós, mas sabemos que informações sobre o que aconteceu, onde e quando, são integradas para orientar seu comportamento no presente. O tempo, portanto, entrou na memória muito antes de termos inventado autobiografias.

Podemos ir ainda mais longe. Plantas não têm cérebro nem sistema nervoso e, ainda assim, seu passado pode modificar seu futuro. Uma planta submetida à seca, ao calor ou a outro estresse pode responder de maneira diferente quando encontra novamente a mesma condição. A primeira experiência deixa marcas fisiológicas e moleculares, evidenciadas por alterações metabólicas, na expressão gênica e, em alguns casos, epigenéticas, que modificam a resposta subsequente. É o que se costuma chamar de memória do estresse ou priming. Evidentemente, uma planta não se lembra de uma seca como nós nos lembramos de uma viagem. Mas algo daquela seca permanece nela. Talvez essa seja a forma biologicamente mais elementar de memória: o passado deixando uma marca que altera a resposta ao futuro.

Nossa percepção da passagem do tempo surge da atividade de diferentes circuitos cerebrais. Prova disso é que acidentes em que partes do cérebro humano são danificadas podem levar a alterações profundas nessa percepção. Lesões no córtex pré-frontal podem provocar o que se chama de “amnésia da ordem temporal” ou déficit de contexto temporal: a pessoa se lembra dos acontecimentos, mas não consegue estabelecer a ordem em que ocorreram. Os acontecimentos têm uma espécie de “gramática” e o nosso cérebro precisa compreendê-la. Para muitos de nós, ao tentarmos nos lembrar de eventos muito distantes no passado, essa perda gramatical pode ocorrer. Tudo isso funciona como evidência de que vivemos em um período de lembranças do nosso passado recente, salpicado de pontos de referência importantes, e, apenas com isso, criamos a nossa autobiografia.

Quanto do passado precisamos guardar para continuarmos sendo nós mesmos? Certamente não tudo. Talvez nem sequer muito. Pessoas podem perder extensas partes de sua memória autobiográfica e permanecer conscientes, capazes de perceber o mundo e interagir com ele. Consciência e autobiografia não são a mesma coisa. Para mantermos um presente coerente, precisamos integrar acontecimentos em escalas de segundos; para construirmos uma identidade, porém, precisamos de algo diferente: uma narrativa suficientemente estável sobre o caminho que nos trouxe até aqui. Essa relação entre memória, processamento de informação e percepção de si também apareceu quando discuti a inteligência como propriedade biológica.

Mas não basta perguntar quanto do passado guardamos. É preciso perguntar também por que certos acontecimentos permanecem conosco enquanto tantos outros desaparecem.

Nossa inserção na sociedade depende fortemente da nossa percepção de tempo. Dentre os múltiplos eventos que nos acontecem em um dia ou em uma semana, nosso cérebro faz escolhas sobre o que é mais relevante. Essa escolha está relacionada ao que Hartmut Rosa chama de ressonância. Da forma como interpreto Rosa, ressonar significa interagir de forma mais completa e profunda com o mundo que nos cerca, incluindo tudo: objetos, clima, pessoas, contexto social e psicológico, entre outros. Talvez a ressonância exija justamente uma mudança em nossa experiência subjetiva do tempo. É como se, por alguns instantes, o relógio desacelerasse e pudéssemos examinar com maior profundidade o que acontece no agora.

Nesse sentido, são esses episódios de ressonância que compõem a nossa autobiografia. A coleção de ressonâncias mais profundas nos define como pessoas para nós mesmos, assim como, depois de nossa morte, outras coleções de lembranças passam a nos definir para aqueles que permanecem. O interessante é que, para alguém diferente de nós, as ressonâncias serão próprias de cada um e as narrativas formadas serão diferentes. É por isso que os outros não nos veem como nós mesmos.

Ainda na companhia de Rosa, podemos incluir o elemento do tempo nessa equação. Para incluí-lo, precisamos lembrar que agora somos constantemente pressionados a perceber a sequência de eventos com cada vez mais detalhes. A representatividade social de uma pessoa no século 20 era dada de forma quase estrutural. Alguém escolhia uma profissão, se engajava em buscar uma posição e passava a vida naquela posição conquistada. No momento, a estrutura perdeu importância em relação à velocidade. Temos que fazer tudo mais rápido e mostrar resultados constantemente. É esse mecanismo de funcionamento, dominado pelo tempo, que nos leva a correr cada vez mais rápido para, no mínimo, manter a posição.

Isso não foi um grande problema enquanto a velocidade dos eventos era compatível com a nossa capacidade cerebral de acompanhá-los. Porém, a aceleração científica e tecnológica gigantesca, que abordei no meu artigo O retorno dos polímatas, vem provocando mudanças sociais a uma velocidade cada vez maior. E ambos (tecnologia e mudanças sociais) alteram o nosso dia a dia. Rosa defende que essa aceleração brutal a que estamos submetidos afeta diretamente a nossa capacidade de ressonância com o mundo. Isso talvez signifique que a velocidade com que nós mesmos impomos nossa forma de viver nos torna, nas palavras de Rosa, alienados.

O que fazer? Uma opção seria desacelerar, mas isso nos colocaria em desvantagem em relação a quem não quiser fazer o mesmo – e parece que a maioria ainda não quer. A outra opção é encontrar formas de aumentar a ressonância. Mas como ter tempo para ressonar mais com o mundo e manter um ritmo compatível para continuarmos exercendo nossa representatividade na sociedade? A inteligência artificial poderia nos salvar?

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