Como a iniciativa de um jornalista nos anos 80 resultou na primeira vila de combate à pobreza da China

Por Mauro Ramos18/10/2026 às 14:192 visualizações
Wang Shaoju jornalista aposentado e membro do Partido Comunista da China (PCCh) em Fuding, na província chinesa de Fujian.
Wang Shaoju jornalista aposentado e membro do Partido Comunista da China (PCCh) em Fuding, na província chinesa de Fujian.
Brasil de Fato

Em 1984, mais de 130 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza na China, cerca de 10% da população. Wang Shaoju era jornalista e membro do Partido Comunista da China (PCCh) em Fuding, no interior de Fujian, província do sul do país. Naquele ano, ele decidiu caminhar 23 quilômetros por trilhas de montanha para ver com os próprios olhos o que ouvia sobre um vilarejo de minoria étnica numa base revolucionária histórica.

Chegando a Xiashanxi, uma localidade dentro da Vila de Chixi, encontrou casas de madeira com telhado de palha, crianças descalças, famílias comendo vegetais silvestres porque não havia arroz. Numa casa, sogra e nora dividiam um único par de calças. “Havia falta grave de grãos, e alimentos em geral e roupas eram difíceis de conseguir”, disse Wang, hoje com 80 anos de idade, ao Brasil de Fato, durante o Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg), em Xangai, neste domingo (18). “Como jornalista, quando ouvi essas histórias, não conseguia dormir”, conta. Na madrugada, ao voltar do vilarejo, ele escreveu uma carta aberta.

O título era: “Vilarejo montanhoso espera por políticas especiais para combater a pobreza e alcançar a prosperidade”. A carta trazia três propostas: que os agricultores não fossem obrigados a vender grãos ao governo, ficando livres para decidir sobre a própria produção; que a política de filho único fosse flexibilizada para a região; e que quadros do PCCh e lideranças locais assumissem a responsabilidade de ajudar os agricultores a aumentar a produção e melhorar as condições de vida, explicou Wang ao Brasil de Fato.

Wang enviou a carta a um jornal regional. A resposta foi uma advertência: a China vivia uma fase de reformas e crescimento, histórias de prosperidade chegavam de toda parte, a carta era inoportuna. Um interlocutor o avisou de que poderia ser expulso do PCCh.

“Como membros do Partido Comunista, temos a obrigação de falar pelo nosso povo e de refletir a realidade para o governo”, disse Wang. Se fosse expulso, preferia voltar a ser camponês.

Ele aumentou a aposta e acabou enviando a carta ao Diário do Povo, em Pequim, a edição nacional do jornal. Cerca de 15 dias depois, em 24 de junho de 1984, o jornal publicou o texto na primeira página com o título inalterado, acompanhado de um artigo editorial convocando o país a enfrentar a questão das comunidades empobrecidas.

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Ouvir a voz do povo

Em 29 de setembro de 1984, o Comitê Central do PCCh e o Conselho de Estado emitiram o “Aviso sobre como ajudar as áreas empobrecidas a mudar sua situação o mais rápido possível”, o que representou um marco da campanha nacional de combate à pobreza que seria desenvolvida posteriormente.

Entre os leitores da carta estava Xi Jinping, então diretor de um condado em Fujian. Anos depois, como secretário da prefeitura de Ningde, percorreu mais de 80 quilômetros por trilhas de montanha para visitar pessoalmente as comunidades mais remotas do interior. Sob sua liderança, o jornal regional Mingdong, paralisado há décadas, retomou a publicação em 1989.

“Fui editor-chefe de jornal. Os jornais devem ser a voz do povo, como sempre defendeu o presidente Xi Jinping. O ponto de partida e o objetivo final de tudo o que fazemos deve ser servir aos interesses do povo”, disse Wang ao Brasil de Fato. “Nosso jornalismo deve dar voz às pessoas comuns, coletar as experiências das bases e disseminá-las pelo país e pelo mundo”, defendeu.

A produção de sangue próprio

A trajetória de Xiashanxi tem três momentos de combate à pobreza em Chixi. A primeira fase, chamada pelos moradores de “transfusão de sangue”, durou uma década: o governo enviou grãos, tecidos, mudas e animais. Mas, ao fim de 1994, a renda per capita em Xiashanxi ainda era de cerca de 30 dólares anuais. Havia dificuldades nos plantios, as cabras morreram por falta de pasto, e javalis destruíam as plantações.

Wang percorreu o vilarejo 13 vezes para entender por que a pobreza persistia. Além da baixa qualidade da terra, outro dos motivos identificados foi o isolamento geográfico. Em 1995, as 22 famílias de Xiashanxi foram transferidas para a área plana de Chixi, ao pé da montanha. Ao longo dos vinte anos seguintes, mais de 350 famílias de 12 comunidades rurais isoladas foram realocadas naquilo que os moradores chamaram de “troca de sangue”.

A terceira fase, é chamada de “geração de sangue” própria. Com ela, começaram a ser desenvolvidos o turismo ecológico, o cultivo do chá branco de Fuding e cooperativas agrícolas. Em 2015, a renda per capita em Chixi chegou a 13.600 yuan (cerca de R$ 7.200). A taxa de pobreza, que era de 80% nos anos 1980, caiu para 1%. Em 2016, o vilarejo recebeu 200 mil visitantes.

Em 19 de fevereiro de 2016, Xi Jinping fez uma videoconferência com os moradores de Chixi pelo portal do Diário do Povo. Ao reconhecer Wang na tela, disse: “Shaoju, ver você me faz muito feliz.” Xi chamou Wang de “mapa vivo e dicionário vivo” da região. Chixi é hoje reconhecida como a Primeira Vila de Combate à Pobreza da China.

Ao ser consultado sobre a importância de um espaço como o Fórum Acadêmico do Sul Global, Wang diz: “Só existe harmonia no mundo quando existe prosperidade compartilhada em todo o Sul Global. Esta é a minha convicção sincera”.

“Com prosperidade compartilhada para todos no mundo, não haverá mais guerras. Cada pessoa ter uma vida estável, confortável e de qualidade: é isso que queremos”, conclui.

Fórum Acadêmico do Sul Global

Wang Shaoju apresentou sua história na quarta edição do Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg), que está sendo realizado em Xangai nos dias 17 e 18 de outubro. O evento reúne representantes de partidos políticos, movimentos populares e centros de pesquisa de cerca de 30 países sob o tema “Partidos Políticos do Sul Global: Governança e Modernização”.

Fonte
Brasil de Fato
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