Movimentos sociais, coletivos e moradores das periferias saíram às ruas no último domingo (18), em pelo menos seis quebradas de São Paulo, para realizar atos políticos em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT. As manifestações contaram com atrações culturais, como shows de Rincon Sapiência e Emicida, além da presença de figuras públicas, como a podcaster Deia Freitas e o ministro da Secretaria Geral da União, Guilherme Boulos (PSOL).
A ideia era descentralizar as manifestações de apoio e evitar confrontos com apoiadores do candidato Flávio Bolsonaro (PL), que se concentraram no mesmo dia na Avenida Paulista, principal palco dos movimentos políticos das eleições de 2026.
A comunicóloga Patrícia França, 32, da Brasilândia, na zona norte, participou do “Rap Convoca- Ato Musical Contra o Retrocesso”. O evento ocorreu em frente ao Centro Cultural da Juventude, em Cachoeirinha, também zona norte, no domingo. Estiveram presentes artistas importantes das quebradas, como Emicida, Jotapê, Karol com K e Rashid.
“A importância do ato foi mobilizar a juventude da periferia e mostrar que o rap também é um movimento de luta por direitos, dignidade, igualdade e justiça social. Defender a democracia faz parte da trajetória do rap, que vem denunciando o racismo e a violência policial há décadas. É um compromisso com a memória e com as lutas do presente e do futuro”, defende.
Há 40 quilômetros dali, em Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo, a comunicóloga Juliana Santos, 32, também participou de manifestações nas periferias pró-Lula, mais precisamente na Praça Brasil, em Itaquera.
“As manifestações nas periferias reforçam a necessidade de estarmos presentes nos territórios, em diálogo com a população periférica, darmos voz e viabilidade ao povo que tem poder de decisão nas eleições. O povo da periferia não quer ser apenas lembrado em ano de eleição”, comenta.
Estiveram presentes a podcaster Deia Freitas, à frente do podcast Não Inviabilize, o mais ouvido do país; o ex-ministro Fernando Haddad e Marina Silva e o ministro Guilherme Boulos.
Manifestações nas periferias
Esse não é o primeiro ato que Juliana participa nestas eleições. Em 11 de outubro, esteve em uma marcha de apoio ao presidente no antigo terminal de ônibus Cidade Tiradentes. A pauta principal foi a luta por direitos do povo negro e periférico.
“O que me faz estar presente é a compreensão de que não existe revolução sem o povo preto e periférico. Acredito que estar nas ruas é um ato necessário para fazer ecoar em todos os cantos possíveis pela liberdade, seja dos trabalhadores, das crianças, das mulheres, dos LGBTqiapn+, da juventude e dos povos indígenas. Nossa luta é por todos e todas”, acrescenta.

No ato do último domingo, organizações como a Uneafro, Movimento Negro Evangélico, Unegro e Coalizão Negra por Direitos estiveram a frente da organização. O mesmo grupo organizou um ato em Heliópolis, na zona sul, no sábado (17), junto a Unas Heliópolis.
“É sempre importante estar nos atos das regiões centrais, mas também voltar para nossa base, para as manifestações nas periferias. Como isso, movimentamos o nosso território”, diz a jornalista Isabela do Carmo, 25, moradora de Heliópolis e correspondente da Mural.
Ela ficou sabendo da caminhada pelas ruas da favela através das redes sociais, com reforço de políticos conhecidos, como Eduardo Suplicy, Simone Tebet e Tábata do Amaral.
“Teve muita diversidade, um público heterogêneo que refletia realmente a comunidade. Poucas vezes vi Heliópolis tão cheia assim por causa das eleições”.
Isabela do Carmo, jornalista.
O ato começou às 10h, no coração da favela, na Rua da Mina, entoando palavras de ordem sobre fim da escala 6×1 e em apoio a políticas públicas de educação e saúde.
“Quis participar porque, além de jornalista, sou de Heliópolis, um lugar que pulsa política e nasceu dela. Não somos um povo que foge à luta, esse é o DNA da região. As favelas não são territórios homogêneos, as pessoas não pensam da mesma maneira e é com essas pessoas que a gente tem que dialogar. Foi um ato pacífico, com trocas, mesmo entre apoiadores do bolsonarismo”.
- Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto;
- Cachoeirinha, também na zona norte, com um ato musical convocado pelo rapper Emicida e outros artista
- Periferias com Lula, ato de rua no Grajaú, na zona sul
- Periferias com Lula, na Praça Brasil, na Cohab Itaquera, zona leste
- Jardim Ângela, na zona sul, em prol do Instituto Federal
- Heliópolis com Lula, na favela de Heliópolis, zona sul
Para reverter votos
Os entrevistados concordam que há um forte movimento nas quebradas de São Paulo para tentar reverter votos em favor de Lula, sobretudo entre abstenções e nulos. No primeiro turno, o candidato foi o mais votado na maioria das periferias da capital paulista.
“O clima é de preocupação com a volta do bolsonarismo, medo de perder os direitos, mas esperança que vai acontecer a virada no segundo turno”, conta a também jornalista e correspondente da Mural Isabela Alves, do Grajaú, zona sul de São Paulo.
Ela participou de duas manifestações nas periferias pró-Lula, um na última sexta-feira (16), no Centro Cultural Grajaú, e outro no domingo, com o mote “Periferia com Lula”.








A comunicadora Samara da Silva, 28, do Capão Redondo, também na zona sul, avalia que a região está organizada em reverter votos para Lula. No dia 12 de outubro, a comunidade onde mora foi para a rua em uma manifestação contra Flávio Bolsonaro.
“Tentam passar a imagem de que estamos derrotados, enfraquecidos e nosso ato mostrou que não é assim. Tinha bastante gente na rua, muitos jovens, estudantes, professores, idosos e famílias”, comenta.
A manifestação foi organizada pelos coletivos culturais @batalhadarevolta @quilombar e @batalhadocapaolilas, que já organizam batalhas de rima na estação de metrô Capão Redondo.
“As decisões, as propostas e a eleição em si podem parecer algo distante da nossa realidade. Quando a gente se movimenta próximo da nossa casa, ajudamos quem não está tão inteirado a ver que também faz parte desse momento e que ele é muito importante”, acredita.
Agência MuralO post Moradores das periferias organizam atos políticos na reta final das eleições apareceu primeiro em Agência Mural.




