Na sexta-feira passada (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou uma Medida Provisória que proíbe qualquer tipo de aposta online em território nacional. O fim das bets tem movimentado o noticiário, as redes sociais e o cenário eleitoral. Pesquisas realizadas após o anúncio apontam que Lula cresceu na intenção de votos, enquanto seu principal oponente, Flávio Bolsonaro (PL), estagnou ou aparece oscilando de leve para baixo.
Ao BdF Entrevista, o psicólogo e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Altay de Souza, que acompanha desde quando as bets apareceram no Brasil, avalia a medida como positiva, embora tardia e embalada por conveniências do cenário político. Nesse sentido, aponta que toda pesquisa de intenção de voto “fala sobre o passado, não o futuro”. “É por isso que o frame decisório dela para condicionar as nossas decisões no futuro sempre é a curto prazo”, avalia.
Para o cientista, a interrupção das atividades é uma “decisão humanitária” e deveria ter ocorrido sob uma perspectiva estritamente humana e de prevenção. “Foi muito mais uma decisão política do que uma decisão humanitária, porque deveria ter sido uma decisão humanitária em favor da saúde pública da população”, afirmou.
Souza comparou a crise a um tsunami que finalmente atingiu a sociedade brasileira após anos de avanço da publicidade e da adesão popular, que saltou de 8% da população em 2022 para 30% entre 2023 e 2024. “A bet espalhou tão rápido aqui no Brasil frente a outros países por conta da nossa herança colonial e racista, em que, na verdade, a classe dominante viu a bet como uma possibilidade, não de desenvolver o Estado, mas de garantir a manutenção da desigualdade e das suas estruturas familiares, que é uma coisa que a gente tem desde as capitanias hereditárias”, aponta.
Além dos impactos diretos na saúde mental e pública, com aumento de casos de ludopatia, suicídios e sobrecarga nos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), o setor provocou uma onda de endividamento das famílias. Dados apontam que o mercado de apostas gerou uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, que deixou de circular no país e foi parar em paraísos fiscais. O pesquisador destacou o contraste entre os indicadores agregados do país e a realidade financeira da população. “Macroeconomicamente parece muito estável, mas microeconomicamente, que reflete no dia a dia das pessoas, é terrível”, pontua.
Diante da proibição, que deve começar a valer no dia 6 de outubro, o especialista alerta que o país enfrentará um longo e complexo processo de reconstrução social e atendimento psiquiátrico e psicológico. “Eu vou ficar realmente feliz quando a proibição das bets no Brasil virar efetivamente uma lei”, ressaltou. Ele acrescenta que serão necessários anos de investimento em capacitação de profissionais e grupos de apoio comunitários para reparar os estragos acumulados. “A gente tem uma estimativa de, pelo menos, de sete a 10 anos para amortizar no serviço público de saúde todo o dano já causado pelas bets na sociedade, desde suicídios, tratamentos, impacto no serviço público, absenteísmo, pessoas que faltam, trabalho. A gente vai levar mais ou menos cinco anos para amortizar todas as perdas que as Betis já deixaram na nossa sociedade”, pondera.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
