
Da esquerda para a direita, Roberto Queiroga Lautner, Gilson Bruno Souza e Silva e Márcio Luís Moreira de Souza, autores da pesquisa desenvolvida na UFJF-GV sobre o uso de tecnologias digitais no ensino de Biologia (Foto: Divulgação)
Em um cenário educacional cada vez mais marcado pela presença de recursos digitais, uma pesquisa desenvolvida no campus Governador Valadares da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF-GV) buscou responder a uma questão cada vez mais presente nas salas de aula: o uso de tecnologias digitais torna o processo de aprendizagem mais efetivo do que os métodos tradicionais de ensino?
O estudo, intitulado “Do giz às telas: comparação de efetividade entre abordagens tradicionais e tecnológicas no ensino de Biologia”, comparou o desempenho de estudantes do segundo ano do ensino médio de uma escola pública de Governador Valadares submetidos a duas diferentes abordagens para o ensino de Citologia, área da Biologia que estuda as células.
Fruto da dissertação de mestrado de Gilson Bruno Souza e Silva, professor da rede pública de ensino e egresso do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Biologia em Rede Nacional (PROFBIO), o estudo foi publicado recentemente na revista @rquivo Brasileiro de Educação. O artigo também tem como autores os professores Roberto Queiroga Lautner e Márcio Luís Moreira de Souza, ambos da UFJF-GV.
A pesquisa compara a efetividade do método tradicional de ensino com o uso de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) e foi desenvolvida em parceria com o Centro de Educação a Distância (CEAD), responsável pela produção de vídeos didáticos sobre células eucariontes, elaborados a partir de uma sequência didática previamente construída pelos pesquisadores.
Além de comparar o desempenho dos estudantes submetidos às diferentes metodologias, o trabalho utilizou métodos estatísticos para a avaliação das amostras e testes psicométricos com os participantes. Dessa forma, os pesquisadores também investigaram possíveis relações entre características de personalidade e o método de ensino empregado.
De acordo com os resultados, o método tradicional de ensino, baseado na centralidade do professor, mostrou-se mais efetivo para a aprendizagem nas condições investigadas, independentemente do perfil psicológico e cognitivo dos estudantes.
Os dados também apontaram diferenças na resposta dos estudantes às plataformas digitais. Aqueles com maior nível de neuroticismo, característica associada a uma maior tendência a experimentar emoções negativas, apresentaram menor benefício com o uso desses recursos. Já estudantes com menor nível de extroversão e maior estabilidade emocional apresentaram melhor aproveitamento quando submetidos à mediação tecnológica.
A experiência de Gilson como professor da rede pública de ensino também contribuiu para sua reflexão sobre os resultados da pesquisa. Ao relacionar a investigação acadêmica aos desafios que vivencia em sala de aula, ele destaca que a escolha das metodologias deve considerar as particularidades dos estudantes e o contexto de aprendizagem. “Não se trata de escolher entre tecnologia e ensino tradicional, mas de compreender como, quando e para quem cada estratégia pode contribuir melhor. Os estudantes não aprendem todos da mesma maneira, e uma estratégia que funciona muito bem para alguns pode não produzir o mesmo efeito em outros”, avalia.
Segundo o pesquisador, as análises psicométricas permitiram aprofundar essa compreensão, ao investigar aspectos individuais que podem influenciar a maneira como cada estudante responde a uma determinada metodologia. Para ele, essa perspectiva abre caminhos para novas pesquisas sobre o uso de recursos digitais na educação. “A pergunta não deve ser apenas se uma tecnologia funciona, mas para quem ela funciona, em quais condições e com qual mediação pedagógica pode apresentar melhores resultados”, destaca Gilson.
Para Roberto Queiroga Lautner, os resultados ganham relevância diante das transformações pelas quais passa a educação, especialmente com a expansão do uso de tecnologias digitais e da inteligência artificial. “O trabalho lança holofotes para um debate importante, especialmente no cenário em que o uso em massa de IA coloca em xeque a importância da figura do professor”, explica.
Deste modo, os pesquisadores concluem que os dados podem contribuir para a sociedade e para a comunidade acadêmica, ao acrescentar elementos à discussão sobre metodologias de ensino e aprendizagem e sobre os efeitos da incorporação de tecnologias ao processo educacional.

