Eleição vai para segundo turno entre Lula e Flavio; petista tem mais votos nas periferias em SP

Por Jacqueline Maria da Silva05/10/2026 às 00:1034 visualizações

A disputa no primeiro turno foi acirrada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 44,6% dos votos, e Flávio Bolsonaro (PL), com 47,3%, levou os candidatos à Presidência ao segundo turno. O resultado foi diferente da eleição de 2022, quando o petista venceu já no primeiro turno.

No entanto, na cidade de São Paulo, o petista teve vantagem, em especial por conta do voto nas periferias da cidade, saindo com 46% da preferência dos paulistanos, ante 42% do senador.

Essa é a principal semelhança entre as duas eleições. Apesar da disputa acirrada, os dados mostram que as periferias de São Paulo mantiveram majoritariamente o voto em Lula. Ele venceu em 34 das 57 zonas eleitorais da capital (59%), segundo dados apurados até as 21h.

Para a cientista política da USP Beatriz Mendes, a maior força de Lula nos extremos da cidade é compatível com a capacidade do lulismo de mobilizar expectativas de proteção social e melhoria das condições de vida entre os setores populares.

Ela explica que, em uma cidade segregada como São Paulo, o território concentra diferenças de renda, composição racial, acesso a serviços e inserção no mercado de trabalho.

“Não é simplesmente a distância do centro que explica o voto, mas as condições sociais e as experiências com o Estado que essa geografia reúne”, afirma.

Já o cientista político Tiaraju Pablo D’Andrea, o resultado nas periferias tem relação com a imagem do atual presidente. “As periferias têm uma ligação histórica com o Lula. Há uma presença organizativa dos movimentos sociais e culturais e um legado do operariado organizado. Nas periferias, Lula é maior que o PT”, afirma.

Lula mantém votos nas periferias, mas perde espaço?

Apesar da vantagem nas periferias, o cenário mostra que Lula perdeu espaço em algumas quebradas. Um exemplo é Piraporinha, na zona sul. Em 2022, o candidato obteve 62% dos votos, contra quase 27% de Jair Bolsonaro (PL). Já em 2026, o petista alcançou 57,72% na mesma zona eleitoral, enquanto Flávio Bolsonaro chegou a 32,53%.

O movimento se repete em pelo menos quatro zonas eleitorais periféricas onde Lula havia ultrapassado 60% dos votos em 2022.

Zona eleitoralLula (2022)Bolsonaro (2022)Lula (2026)Flávio (2026)
Grajaú61,77%27,37%57,72%32,39%
Parelheiros60,4%28,52%56,09%33,61%
Cidade Tiradentes60,77%28,9%57,43%33,29%
Valo Velho60,91%27,93%56,78%33,03%

Para Beatriz, o vínculo desse eleitorado com Lula não deve ser confundido com uma adesão integral à esquerda. Avaliação econômica, identificação com uma liderança e posições conservadoras em outros temas podem coexistir entre os mesmos eleitores.

Tanto que a força de Lula nas periferias não se converteu automaticamente em apoio a Fernando Haddad (PT), candidato a governador derrotado por Tarcísio de Freitas (Republicanos) no primeiro turno.

A cientista política ressalta que as duas eleições também apresentam cenários diferentes. Em 2022, Lula era a alternativa ao governo Bolsonaro. Neste ano, como presidente e candidato à reeleição, tem o desempenho do próprio governo submetido à avaliação dos eleitores.

“Isso remete ao voto retrospectivo: o eleitor considera o desempenho de quem governa e a distância entre suas expectativas e os resultados percebidos. Ter apoiado Lula em 2022 não significa conceder apoio permanente à sua reeleição”, explica.

O crescimento do PL nas zonas analisadas é compatível tanto com uma avaliação mais crítica do governo quanto com uma maior adesão à direita. Os percentuais, sozinhos, porém, não permitem estabelecer quanto cada um desses fatores explica o resultado.

Beatriz aponta que é preciso cuidado metodológico: a queda de Lula e a alta de Flávio Bolsonaro na mesma zona eleitoral não demonstram que os mesmos eleitores migraram de um para o outro. Abstenções, novos eleitores e mudanças no voto em outras candidaturas também podem alterar essa composição.

Perspectivas para o segundo turno

No segundo turno, a expectativa é de que Lula enfatize o balanço do governo e o contraste com a alternativa bolsonarista, enquanto Flávio deve procurar transformar a eleição em um julgamento negativo da atual gestão.

Tiaraju diz que não houve discussão sobre propostas no primeiro turno. “De fato, até agora, não houve campanha. Os debates giraram ao redor da corrupção, do STF e da religião. São pautas da direita. No segundo turno, há que se focar no debate de projeto de país e condições de vida”, argumenta.

As alianças com candidaturas eliminadas também entram nessa disputa, mas sem que haja uma transferência automática de votos. Sobre a possibilidade de reversão do cenário, uma das questões é quanto do recuo de Lula expressa uma insatisfação conjuntural e quanto representa um vínculo mais duradouro dos eleitores com a direita.

“Não dá para presumir que seja apenas um problema de comunicação, nem decretar uma mudança ideológica definitiva das periferias a partir dessa parcial”, acrescenta.

Uma frente importante para Lula no segundo turno é buscar apoio entre quem votou em branco ou nulo, além de quem se absteve. O núcleo mais identificado ideologicamente com a direita tende a ser menos permeável à mudança de voto, embora nem todo voto em Flávio represente essa identificação.

“Isso não transforma brancos, nulos e abstenções em uma reserva automática de votos para Lula. São situações distintas, que podem expressar rejeição, desinteresse ou dificuldades de comparecimento”, diz. “O desafio é ampliar apoio para além das bases já mobilizadas, sem contar com uma conversão expressiva do eleitorado bolsonarista mais consolidado.”

Agência Mural

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