Estudo da USP investiga como a telemedicina transforma o atendimento em arquipélago amazônico

20/10/2026 às 19:210 visualizações
Cinco pessoas posam em frente à entrada de um centro de telemedicina em Parintins, no Amazonas, em um prédio com fachada amarela e azul. Acima da porta, há uma placa com a palavra telemedicina, e, nas portas de vidro, aparecem os logotipos do SUS Digital e da Prefeitura de Parintins
Cinco pessoas posam em frente à entrada de um centro de telemedicina em Parintins, no Amazonas, em um prédio com fachada amarela e azul. Acima da porta, há uma placa com a palavra telemedicina, e, nas portas de vidro, aparecem os logotipos do SUS Digital e da Prefeitura de Parintins
Jornal da USP

Estudo da USP investiga como a telemedicina transforma o atendimento em arquipélago amazônico

Pesquisa de doutorado da Faculdade de Saúde Pública da USP analisa como o atendimento médico a distância reorganiza os serviços públicos de saúde e evidencia desafios relacionados às desigualdades territoriais e às diferenças culturais entre pacientes e especialistas

Texto: Sylvia Miguel*

Foto: Arquivo Pessoal/Rodrigo Meirelles

Doutorando do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, Rodrigo Meirelles acaba de retornar de seu campo de pesquisa com muitas impressões na bagagem. Parintins, um arquipélago em pleno território continental amazônico, foi o local escolhido por abrigar o primeiro serviço público de telemedicina do Brasil, em funcionamento há cerca de 20 anos. Seu objetivo: compreender as transformações que a telemedicina produz nas relações sociais, no trabalho e na organização política da saúde, a partir de sua incorporação ao próprio SUS, o Sistema Único de Saúde.

Localizado na Ilha Tupinambarana, a cerca de 369 km de Manaus, o município abriga o mundialmente famoso Festival de Parintins, com as agremiações dos bois Caprichoso (azul) e Garantido (vermelho).

“A partir da sociologia da saúde, busco compreender as relações sociais, institucionais e de trabalho que tornam possível o cuidado médico a distância em uma das áreas mais remotas do Brasil, bem como seus efeitos sobre as desigualdades e a produção de riscos em saúde”, conta.

No Brasil, a telemedicina ganhou uma dimensão muito maior durante a pandemia de covid-19, quando houve uma rápida expansão de seu uso e regulamentação. Sua configuração -atendimento médico a distância mediada por tecnologias digitais- acarreta mudanças na estrutura histórica do cuidado, predominantemente presencial e territorial. É uma lógica que muda a organização dos serviços, as relações e a distribuição do cuidado.

Os atendimentos a distância permitem ampliar o acesso a determinadas condutas diagnósticas e terapêuticas especializadas sem, necessariamente, modificar a distribuição territorial dos médicos especialistas, o que evidencia um dos impactos macroestruturais, segundo o pesquisador.

Quando a desigualdade na distribuição dos especialistas permanece, a telemedicina pode produzir novas formas de dependência territorial e institucional dentro do próprio SUS, aponta. “O sistema de saúde de Parintins passa a depender de instituições localizadas fora do município e do estado do Amazonas”, como faculdades de medicina de Manaus e hospitais privados-filantrópicos de São Paulo, afirma.

Para Meirelles, a ampliação do acesso proporcionada pela telemedicina depende das condições concretas de cada localidade e do trabalho necessário para sustentar esse tipo de cuidado, ou seja, seu potencial de ampliação do acesso não está isento de riscos.

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Rodrigo Meirelles, doutorando da Faculdade de Saúde Pública - Foto: Reprodução/Linkedin

“No contexto europeu, já existe uma série de estudos, especialmente nos campos dos Estudos da Ciência e Tecnologia e da Sociologia da Saúde, demonstrando como a telemedicina pode reproduzir ou aprofundar desigualdades sociais”, afirma.

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Implementação da telemedicina na zona rural - UBS Vila Amazônia - Foto: Arquivo Pessoal/Rodrigo Meirelles

No Brasil, a regulamentação e a expansão da telemedicina são relativamente recentes e essa dimensão do “risco” potencialmente associado ao aprofundamento das desigualdades ainda é pouco estudada. Para Meirelles, isso justifica uma perspectiva crítica e reflexiva que transcenda os números, ou seja, que olhe além do aumento no número de consultas e procedimentos a distância.

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Unidade Básica de Saúde (UBS) Fluvial e sala de telessaúde da UBS Fluvial em Parintins - Foto: Arquivo Pessoal/Rodrigo Meirelles

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Um dos centros de de telemedicina do arquipélago e a comunidade ribeirinha da Serra da Valéria, no município de Parintins, no estado do Amazonas - Foto: Arquivo Pessoal/Rodrigo Meirelles

A dimensão cultural

Em Parintins, os trabalhadores locais e o coordenador do Centro de Telemedicina e Telessaúde fazem a telemedicina acontecer no cotidiano. Eles conectam pacientes das áreas urbanas e rurais e profissionais das equipes de Saúde da Família a especialistas de Manaus e São Paulo. Nesse processo, mediam diferenças de linguagem e formas de compreender o processo saúde-doença entre contextos sociais e territoriais distintos.

Meirelles cita como exemplo uma teleinterconsulta em que um profissional local precisou explicar a um especialista de São Paulo o que um paciente ribeirinho queria dizer ao descrever seu sintoma como um “esquentamento na mãe do corpo”. A expressão “mãe do corpo” é usada em regiões do Norte e Nordeste para se referir ao útero. No caso referido, poderia ser uma queimação ou cólica intensa na região pélvica e abdominal.

A dimensão humana, territorial e local sustentando a telemedicina faz toda a diferença e isso “não aparece necessariamente quando olhamos apenas para a tecnologia ou para a consulta realizada a distância”, ressalta o pesquisador.

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Comunidade da Serra da Valéria e a equipe UBS local após implementação da telemedicina - Foto: Arquivo Pessoal/Rodrigo Meirelles

A importância da telemedicina para a saúde em locais distantes

Desde o início dos anos 2000, a Organização Mundial da Saúde reconhece o potencial da telemedicina para ampliar o acesso à saúde. No Brasil, dados de produção divulgados pelo Ministério da Saúde (MS) também evidenciam a importância crescente dessa estratégia no âmbito do SUS.

Atualmente, o SUS conta com 29 Núcleos de Telessaúde funcionando em âmbito estadual e outros 34 em implantação, que deverão ampliar a cobertura para mais de 60 núcleos nas 27 unidades da Federação, segundo dados do MS. Essa estrutura possibilitou mais de 10 mil procedimentos de telessaúde no SUS entre janeiro de 2025 e junho de 2026, segundo dados do ministério.

O Novo PAC Saúde prevê a implantação de Pontos de Telessaúde nas Unidades Básicas de Saúde, com o fornecimento de 7 mil kits de equipamentos para teleconsulta até o final de 2026.

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Comunidade ribeirinha da Serra da Valéria, o porto de Parintins e o encontro com o secretário de saúde e diretor de telemedicina - Foto: Arquivo Pessoal/Rodrigo Meirelles

Em Parintins, são 22 pontos de telessaúde: nove em unidades de saúde ribeirinhas, incluindo a unidade fluvial, seis em unidades urbanas da Atenção Primária à Saúde (APS) e sete em serviços especializados. A estrutura permite o acesso remoto a especialidades como cardiologia, pediatria, neurologia, endocrinologia, ginecologia, psiquiatria, oftalmologia e ortopedia, entre outras, além de telediagnósticos.

“Acredito que o pioneirismo do estudo, consideradas as características apresentadas, trará contribuições importantes não apenas para a saúde, mas para uma compreensão ampliada da nossa condição digital”, afirma a orientadora do trabalho, professora Aurea Maria Zöllner Ianni, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP.

Para ela, compreender os processos de digitalização é essencial, dado que estão a conformar as condições sociais, pessoais e institucionais. O trabalho de Meirelles se insere em um projeto maior, coordenado pela docente, voltado a compreender A Saúde na Contemporaneidade e as Relações Sociais de Definição e Decisão de Risco.

Meirelles está na fase final da pesquisa e conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP – Processo nº 2025/16542-4).

*Da Assessoria de Imprensa da Faculdade de Saúde Pública da USP


Fonte
Jornal da USP
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