Mesmo que seja para fazer uma pergunta, criar uma imagem, gerar um vídeo de poucos segundos ou editar um texto, consultar um chatbot de IA na nuvem aciona servidores cujo funcionamento depende permanentemente de muitos recursos físicos: espaço, eletricidade, sistemas de resfriamento e, principalmente, minerais e metais raros, necessários para a fabricação dos servidores, redes, unidades de processamento, sensores e cabeamentos dos data centers que hospedam o serviço..
A popularização de ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini e Perplexity no dia a dia das pessoas alimenta o crescimento acelerado dessa infraestrutura, que para funcionar conecta os interesses dos proprietários de minas e refinadoras às necessidades de grandes complexos de processamento de dados.
Essa expansão abre uma nova fronteira extrativa: os benefícios econômicos gerados pela nova tecnologia circulam por cadeias globais, mas grande parte dos custos socioambientais dessa exploração são arcados pelos países que fornecem a matéria prima, como poucas contrapartidas. Uma governança mais justa do desenvolvimento e do uso global da Inteligência Artificial exige, portanto, identificar e responsabilizar claramente quem controla e, por isso, quem deve responder pelos impactos provocados por essa nova tecnologia.
Escala industrial
Comumente associado à ideia simplificada de “nuvem”, na verdade o funcionamento dos data centers que oferecem serviços e operam modelos de IA é caro e danoso ao ambiente. Atualmente, existem cerca de 12 mil data centers no planeta, entre unidades operacionais e projetos, dos quais cerca de 1.360 são considerados de hiperescala.
No estado de Louisiana, nos EUA, por exemplo, a Meta constrói um complexo que abrigará o Hyperion, serviço global destinado ao treinamento de desenvolvedores de sistemas de IA. O projeto prevê uma área construída de cerca de 930 mil metros quadrados, e investimentos anunciados superiores a US$ 50 bilhões.
A cadeia começa nas minas e se amplia com a energia
Servidores, chips e redes necessários ao funcionamento de data centers de IA, grandes ou pequenos, exigem a utilização de cobre, silício, gálio, germânio, tântalo, terras raras, prata, ouro e metais do grupo da platina. Alguns desses materiais precisam atingir elevada pureza para uso eletrônico. Baterias e sistemas de fornecimento de energia ampliam essa dependência.
Fabricar aparelhos com forte presença de componentes eletrônicos pode mobilizar entre 50 e 350 vezes o peso desses aparelhos em matérias-primas.
A Agência Internacional de Energia estima que os data centers de IA existentes no mundo consumiram cerca de 485 terawatts (o equivalente a 485 trilhões de watts) por hora, só em 2025. E projeta um consumo de 950 terawatts por hora em 2030, considerando todo o setor.
Empresas anunciam que grande parte dessa demanda deverá ser atendida por projetos de energia renovável. Embora as fontes solar e eólica sejam centrais para a descarbonização, seus equipamentos, as redes elétricas e os sistemas de armazenamento também exigem grandes quantidades de minerais.
Um exemplo dessa infraestrutura é o parque solar Orion Solar Belt, no Texas, que reúne mais de 1,3 milhão de módulos fotovoltaicos de 700 watts cada. O empreendimento tem o Google como cliente âncora e fornece eletricidade à rede que abastece os data centers da empresa.
Uma comparação hipotética ilustra a escala: para gerar os 950 terawatts por hora previstos para 2030 apenas com módulos solares de 700 watts, serão necessários cerca de 775 milhões de painéis.
Os módulos solares podem operar por 25 a 35 anos, mas alguns equipamentos de data centers precisam ser substituídos em intervalos muito mais curtos, de poucos anos, e isso é outro grande problema. Um estudo de 2024 projetou o acúmulo de 1,2 milhão a 5 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos pela IA generativa entre 2020 e 2030. Sem reutilização ou recuperação adequadas, perdem-se metais e aumentam os passivos ambientais para toda a sociedade.
Os custos econômicos e sociais nos territórios produtores
Além disso, fornecer minerais não assegura aos países de onde são extraídos nenhum controle sobre as tecnologias de maior valor agregado geradas para o desenvolvimento da IA. Como no século XVI, a tendência é que os ganhos com a comercialização do serviço concentrem-se nas empresas, enquanto as comunidades das regiões produtoras enfrentam poluição, riscos ocupacionais e disputas pela terra e pela água- esta última elemento fundamental para a operação a longo prazo de grandes data centers. Nesta complexidade, empregos, tributos e royalties precisariam ser acompanhados de proteção trabalhista, fiscalização e de serviços públicos.
Nossas pesquisas bibliográficas e documentais reuniram evidências dessas desigualdades. As cadeias estudadas abastecem diferentes setores, incluindo eletrônica, baterias e sistemas de energia utilizados pelos data centers.
Segundo estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, a República Democrática do Congo respondeu por cerca de 73% da produção mundial de cobalto em 2025. Investigações recentes documentaram a ocorrência de trabalho infantil, acidentes fatais e exposição a substâncias tóxicas nesta atividade no país, que é um dos mais pobres do mundo.
Na Indonésia, responsável por aproximadamente dois terços da produção mundial de níquel em 2025, pesquisas registraram processamento dependente de carvão, contaminação e conflitos territoriais.
No Chile e no Peru, líderes na produção de cobre, estudos identificaram exposição de comunidades a metais tóxicos.
No Triângulo do Lítio, formado por Chile, Argentina e Bolívia, a extração de salmouras pressiona recursos hídricos em regiões áridas. Na China, a mineração de terras raras foi associada à contaminação da água e dos solos. Em Mianmar, investigações documentaram poluição e coerção contra comunidades em áreas mineradoras controladas por grupos armados.
O caminho perigoso entre as minas e as empresas de IA
Para chegar os data centers, todos esses minerais extraídos de forma prejudicial ao ambiente e à sociedade passam por comerciantes, refinadoras e fabricantes.
Em Rubaya, no Congo, minas associadas a cerca de 15% da oferta mundial de tântalo estão sob o o controle do grupo armado M23 em abril de 2024. O metal, obtido do minério conhecido como coltan, é usado em capacitores eletrônicos. A ONU estimou que as cobranças do grupo sobre o mineral somavam aproximadamente US$ 800 mil mensais, segundo dados citados pela Global Witness.
Em junho de 2026, a ONU relacionou o comércio de coltan associado ao conflito no Congo à empresa chinesa Ningxia Orient Tantalum, que aparece na cadeia de fornecedores declarada oficialmente pela Nvidia, atualmente a líder global na produção de chips de inteligência artificial. A Ningxia negou adquirir o material negociando com o grupo armado, mas a dúvida permanece.
No Brasil, uma investigação da Repórter Brasil, publicada em 2022, identificou conexões entre o ouro extraído ilegalmente de terras indígenas e refinadoras presentes nas cadeias declaradas de Apple, Google, Microsoft e Amazon.
As próprias companhias líderes do segmento reconhecem que informações de fornecedores e auditorias podem ser incompletas, incorretas ou sujeitas a fraude. Divulgar listas, portanto, não equivale a verificar corretamente a origem de cada material.
Água sob pressão e informações sob sigilo
O resfriamento evaporativo e a geração elétrica necessária aos data centers também consomem muita água. Nos EUA, pesquisas estimaram, em 2023, um consumo direto de 66 bilhões de litros por data centers, e quase 800 bilhões de litros associados à eletricidade.
O impacto do funcionamento de data centers no meio ambiente varia de acordo com o clima, o resfriamento necessário e a disponibilidade hídrica. No Brasil, uma reportagem publicada no Pulitzer Center em 2025 identificou que, de 22 projetos do gênero que estavam em análise na época pelo governo brasileiro, cinco estavam em municípios com secas recorrentes. Em Caucaia, no Ceará, onde está previsto um empreendimento associado ao TikTok, foram registradas emergências por seca ou estiagem em 16 anos, entre 2003 e 2024. O governo do Ceará negou acesso à documentação técnica, alegando segredo comercial.
E esse sigilo também protege a identidade das empresas envolvidas. Uma investigação do Intercept Brasil, também publicada no site do Pulitzer Center em março de 2026, mostrou que empresas intermediárias conduzem processos de licenciamento ambiental e pedidos de conexão elétrica sem revelar, inicialmente, as grandes empresas de tecnologia que estão por trás dos projetos.
A investigação sobre o “quintal da IA” na Espanha, no Chile e no México, também apoiada pelo Pulitzer, encontrou obstáculos semelhantes. Autoridades espanholas negaram acesso a dados sobre o consumo de água das instalações no local da Amazon Web Services, que se define como a nuvem de dados mais abrangente do mundo, alegando confidencialidade comercial. Sem essas informações, comunidades e pesquisadores têm dificuldades para avaliar os impactos ambientais do projeto.
Incentivos públicos e responsabilidade empresarial
A governança também envolve os recursos públicos destinados a atrair esses empreendimentos. No Brasil, a Lei 15.504, de setembro de 2026, instituiu o Redata, regime de incentivos tributários para data centers. Entre as contrapartidas previstas estão o fornecimento de energia renovável ou de baixa emissão, a eficiência hídrica e a publicação de relatórios de sustentabilidade das instalações beneficiadas.
Essas obrigações precisam se traduzir em dados verificáveis e fiscalização. A avaliação dos incentivos deve considerar receitas, empregos, custos de infraestrutura e impactos socioambientais. Nas cadeias minerais, uma governança efetiva deve exigir procedimentos capazes de identificar abusos trabalhistas e danos ambientais, com medidas de prevenção e reparação.
A infraestrutura da IA funciona como uma nova fronteira extrativa quando concentra benefícios e transfere custos aos territórios que fornecem recursos. Romper essa dinâmica exige vincular licenças e incentivos a responsabilidades verificáveis ao longo da cadeia.
Empresas que projetam chips, contratam fornecedores ou utilizam data centers devem responder pelas condições que sustentam seus negócios. E as comunidades que convivem com minas e disputam pela água com grandes instalações precisam participar das decisões antes que os interesses econômicos gerados pelos investimentos definam o seu o próprio futuro, sem lhes pedir permissão.

João Stacciarini recebeu financiamento de pós-doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Ricardo Assis Gonçalves recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
