
Escrevo a partir de um lugar institucional específico: a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, cuja biblioteca reúne 660.021 itens físicos, segundo o Anuário Estatístico de 2025. Trata-se de um dos maiores acervos da Universidade por unidade. Esse número, por si só, não determina a relevância do acervo, mas expressa uma dimensão concreta da responsabilidade envolvida em sua guarda, conservação, organização e acesso.
Quando se fala em preservação, é correto afirmar que quantidade não pode ser o único critério. Acervos diferem em valor histórico, raridade, estado de conservação, condições ambientais, suportes, intensidade de uso e riscos. Mas reconhecer essa complexidade não significa relativizar o peso da escala.
A dimensão quantitativa interfere diretamente nas necessidades de preservação. Quanto maior o acervo, maior tende a ser a extensão física a ser monitorada, o número de itens sujeitos a deterioração, o volume de materiais que demandam higienização, acondicionamento, reorganização e conservação preventiva, além da necessidade de equipamentos, insumos, infraestrutura e trabalho especializado.
Em outras palavras, quantidade não equivale a valor cultural, científico ou histórico. Mas também não é uma variável neutra.
Há uma diferença objetiva entre preservar 20 mil itens e preservar 600 mil. Essa diferença não pode ser reduzida a uma simples proporção matemática entre número de volumes e orçamento, mas tampouco pode ser desconsiderada em nome da complexidade qualitativa dos acervos. Escala e complexidade não são dimensões concorrentes. São dimensões complementares do mesmo problema.
Esse ponto é importante em universidades grandes e heterogêneas, nas quais bibliotecas de perfis muito diferentes integram um mesmo sistema institucional. Algumas administram coleções especializadas e relativamente pequenas; outras respondem por centenas de milhares de itens acumulados ao longo de décadas. Algumas ocupam áreas físicas mais extensas, outras lidam com coleções especiais, fundos documentais, materiais raros ou suportes específicos. Não há, portanto, uma experiência única de preservação.
Os acontecimentos recentes na biblioteca da Faculdade de Educação da USP tornam essa discussão particularmente concreta. Um acervo de mais de 200 mil volumes, que inclui obras raras e especiais, foi atingido em maio por uma grave ocorrência envolvendo a cobertura do edifício e, meses depois, voltou a ficar exposto à entrada de água. A necessidade de remoção de coleções, as ações emergenciais das equipes e a impossibilidade de funcionamento regular da biblioteca mostram, de maneira contundente, que preservar um acervo não é apenas intervir sobre livros e documentos: é assegurar as condições físicas, ambientais, técnicas e institucionais necessárias à sua permanência.
O caso evidencia também por que políticas de preservação precisam trabalhar com múltiplas dimensões. O número de itens importa, mas não explica sozinho a vulnerabilidade de um acervo. A relevância e a raridade das coleções importam, mas também não são suficientes. Infraestrutura predial, exposição a riscos, condições ambientais, capacidade de resposta a emergências e continuidade das ações preventivas fazem parte do mesmo problema.
É justamente por isso que reconhecer a complexidade da preservação não deveria levar à relativização de nenhuma dessas variáveis, mas à sua articulação. Uma biblioteca com centenas de milhares de itens enfrenta uma determinada escala de responsabilidade; uma biblioteca que abriga coleções particularmente raras enfrenta outras exigências; uma biblioteca submetida a condições estruturais críticas pode enfrentar riscos imediatos de perda. Em muitos casos, essas dimensões se sobrepõem.
O que aconteceu na Faculdade de Educação lembra, de forma particularmente dura, que o risco patrimonial não é uma abstração e que a preservação não pode depender apenas da capacidade de reação das equipes quando a emergência já está instalada. Ela pressupõe infraestrutura adequada, prevenção, monitoramento, planejamento e recursos compatíveis com as responsabilidades assumidas pela Universidade na guarda de seus acervos.
Por isso, políticas institucionais nessa área precisam ser capazes de reconhecer assimetrias. A igualdade formal de acesso a oportunidades de financiamento é importante, mas não resolve, por si só, diferenças estruturais entre bibliotecas. Tratar de maneira idêntica realidades profundamente distintas pode produzir resultados desiguais.
É nesse ponto que a noção de equidade se torna central.
Equidade não significa estabelecer automaticamente que bibliotecas maiores devam receber mais recursos. Significa reconhecer que diferentes níveis de responsabilidade patrimonial, escala, risco, infraestrutura e complexidade exigem respostas proporcionais. Uma política madura de preservação precisa ser capaz de combinar critérios quantitativos e qualitativos sem transformar nenhum deles em medida absoluta.
Essa combinação pressupõe diagnósticos consistentes. É preciso conhecer não apenas quantos itens compõem um acervo, mas em que condições eles se encontram, quais riscos enfrentam, que intervenções são prioritárias, quais capacidades técnicas e estruturais estão disponíveis e quais consequências podem decorrer da ausência de intervenção.
Nesse contexto, a escala deve aparecer como uma das variáveis estruturantes do diagnóstico. Não porque coleções maiores sejam necessariamente mais importantes, mas porque demandam uma capacidade material de gestão proporcional à sua dimensão.
Esse aspecto é ainda mais relevante quando se considera que grandes acervos universitários não surgem por acaso. Eles são resultado da história institucional, da amplitude das áreas de ensino e pesquisa atendidas, das políticas de aquisição construídas ao longo do tempo e das responsabilidades assumidas pelas bibliotecas na preservação da produção intelectual e da memória acadêmica.
No caso da FFLCH, administrar um acervo de mais de 660 mil itens significa lidar diariamente com uma escala de preservação que atravessa todas as dimensões do trabalho bibliotecário. Organização, conservação, acesso, infraestrutura, segurança, movimentação, acondicionamento e planejamento não podem ser pensados de forma dissociada desse volume.
Essa constatação não diminui a importância de bibliotecas menores. Ao contrário, reforça a necessidade de políticas capazes de olhar para cada realidade em sua especificidade. A preservação não se beneficia de hierarquias simplistas entre acervos. Beneficia-se de critérios transparentes, diagnósticos consistentes e capacidade de reconhecer diferenças objetivas entre instituições, coleções e responsabilidades.
Preservar o conhecimento é construir o futuro, mas construir esse futuro exige também reconhecer que as bibliotecas da Universidade não enfrentam desafios equivalentes. A isonomia no acesso aos recursos é um princípio importante; a equidade exige, além disso, compreender as diferenças de escala, risco, infraestrutura e responsabilidade patrimonial para responder a elas de maneira proporcional e tecnicamente fundamentada.
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