Lula defende Sul Global; Flávio quer proximidade com EUA e Israel

Von Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil13/10/2026 às 18:460 Aufrufe
Os candidatos a presidência da república 2026 Lula e Flávio Bolsonaro . Foto: Lula Oficial e Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro
Os candidatos a presidência da república 2026 Lula e Flávio Bolsonaro . Foto: Lula Oficial e Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro
Foto: © Lula Oficial e Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro / Agencia Brasil

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O plano de governo do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para política externa destaca o fortalecimento das relações do Sul Global e, ao mesmo tempo, defende estimular as relações “com todas as regiões do mundo”.
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Por sua vez, o plano do candidato Flávio Bolsonaro (PL) para política externa defende uma aproximação maior com Estados Unidos (EUA), Israel e Argentina.

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Destaque na campanha deste ano, a política externa do Brasil é abordada pelos candidatos em capítulos específicos dentro dos planos de governos. Lula reservou quase seis páginas para o tema e Bolsonaro cerca de três.

O plano de Lula destaca que o mundo vive “conflitos sem precedentes” desde a 2ª Guerra Mundial, com ataques ao direito internacional e à tentativa de “imposição de uma ordem mundial predatória”.

“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, diz o documento.

O candidato do PL, por sua vez, diz que a soberania se exerce “na prática” e não com “bravatas”. 

“Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, diz o texto, criticando a posição do governo Lula em relação ao Irã, à Venezuela e a Israel. 

Flávio tem defendido as agressões bélicas do governo de Donald Trump no mundo, como a guerra contra o Irã e a invasão da Venezuela, além de criticar a política do Brics de estimular o comércio entre países sem a necessidade do dólar.

Já o governo Lula adota uma postura de condenação aos ataques militares contra o Irã e à intervenção militar na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro, combinada com apelos por diálogo diplomático, respeito ao direito internacional e contenção das partes.

“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, diz o documento de Flávio Bolsonaro.

Defesa nacional
 

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Primeiro Gripen E produzido no Brasil faz voo inaugural no interior de São Paulo — Foto:  Divulgação/Embraer

O plano de governo de Lula promete fortalecer a indústria de defesa nacional em um mundo onde o direito internacional vem sendo constantemente violado.

“Neste cenário, política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. Não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”, diz o plano.

O projeto do candidato do PT cita as medidas tomadas no atual mandato para fortalecer a capacidade de defesa do Brasil por meio do Novo PAC [Programa de Aceleração do Crescimento].

“Desde 2023 já foram executados R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos. Entregamos 7 caças gripens-F-39, tendo sido produzida a primeira aeronave em solo brasileiro este ano. Adquirimos 3 cargueiros KC-390 fabricados no país. Estamos construindo 4 fragatas, a primeira já em operação. Produzimos 226 viaturas blindadas”, destaca.

O candidato Flávio Bolsonaro também aborda a relação entre defesa e política internacional ao prometer incentivar as tecnologias militares disponíveis com foco em inovação em drones e inteligência artificial.

“Os investimentos nas Forças Armadas devem ser condizentes com a inserção de um país que é membro de diferentes blocos e grupos de nações, voltados ao enfrentamento de desafios políticos e econômicos globais”, diz o documento do PL.

Sul Global
 

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A China atua ativamente como porta-voz e parceira de blocos do Sul Global, integrando o Brics. Na foto, o presidente da China, Xi Jinping, em Pequim - Reuters/Carlos Garcia Rawlins/Direitos Reservados

No plano de Lula, é prevista uma política externa “universalista” por meio de relações com “todas as partes do mundo” para diversificar as parcerias comerciais do Brasil.  

“Investiremos em novos acordos comerciais e na abertura de novos mercados para nossos bens e serviços, de modo a continuar enfrentando agressões comerciais e a defender os interesses do país”, disse.

Desde o ano passado, o Brasil tem sido alvo da política de tarifas do governo Trump, que afeta outros aliados históricos dos EUA, como Canadá e Índia.

O plano de governo da chapa de Lula destaca ainda a importância de fortalecer a cooperação com o Sul Global, termo usado para se referir aos países considerados ainda não desenvolvidos, majoritariamente localizados no Hemisfério Sul do planeta.

“Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”, diz o documento.

O G20 é o grupo de países com as maiores economias do planeta, incluindo União Europeia e União Africana, que reúne ainda EUA, França, Alemanha, Japão e Coreia do Sul. Já o Brics reúne Rússia, Índia, China, África do Sul, Árabia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. 

O plano de Lula promete ainda o aprofundamento das relações com a África, "reconhecendo sua crescente importância na ordem internacional e os laços históricos e culturais que unem o Brasil ao continente africano”.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirma que defender a soberania é abrir mercados para quem produz no Brasil e atrair investimentos.

"Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo."

China e terras raras
 

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Candidatos apresentam projetos diferentes para desenvolvimento de minerais críticos e terras raras - Sigma Lithium/Divulgação/Arquivo

O plano de Lula prevê o desenvolvimento de uma uma política específica para minerais críticos e terras raras. O intuito é organizar cadeias produtivas, diferenciar seus usos tecnológicos e evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas. 

“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, diz o projeto de governo.

Já Flávio Bolsonaro diz que vai trabalhar para atrair o capital  estrangeiro e a tecnologia já existente no mundo, transferindo esse conhecimento ao Brasil. 

“Estabeleceremos parcerias internacionais com todos os 55 países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços ideológicos.”

O assunto das terras raras tem sido abordado por Flávio Bolsonaro em encontros no exterior. Em março deste ano, em evento com conservadores nos Estados Unidos, ele afirmou que o Brasil é a solução para “quebrar” a dependência que os EUA têm da China em relação aos minerais críticos.

“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será lutado porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para quebrar a dependência da China de minerais críticos, especialmente dos elementos de terras raras”, disse.

Atrás apenas da China, o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas, cerca de 23%. Os EUA concentram apenas 1,9 milhão de toneladas, algo em torno dos 2% das reservas conhecidas.

Os minerais críticos, entre eles, as terras raras, estão no centro da disputa comercial e tecnológica entre China e EUA por serem os insumos fundamentais das indústrias de tecnologia, defesa e transição energética. 

O governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, foi marcado por atritos com a China, entre eles, a sugestão de Eduardo Bolsonaro de que a pandemia de covid-19 seria de responsabilidade do governo de Pequim, o que levou a Embaixada da China no Brasil pedir retratação pela "provocação flagrante".

Integração sul-americana

Ao reconhecer um mundo em turbulência, o plano do governo Lula destaca que a integração regional e a afirmação da América do Sul e do Caribe como “zona de paz” deve ser uma das prioridades do próximo mandato.

“A integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil. Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional”, diz o documento.

Tarifaço contra o Brasil
 

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs tarifas a produtos brasileiros. - Reuters/Toby Melville/proibida reprodução

Em crítica ao governo de Jair Bolsonaro, pai do candidato Flávio, o plano de Lula argumenta que o Brasil ficou “isolado” geopoliticamente com Jair, com rebaixamento do prestígio diplomático e desidratação de acordos regionais.

Lula ainda tem acusado a família Bolsonaro de “traidores da Pátria” uma vez que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro se mudou para os EUA, onde articulou tarifas comerciais do governo Trump contra o Brasil. Ao anunciar as tarifas aos produtos brasileiros, em julho de 2025, o presidente dos Estados Unidos criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal que, à época, se preparava para o julgamento de Jair Bolsonaro pela trama golpista. 

Tanto Eduardo quanto Flávio comemoraram a adoção de tarifas pelos Estados Unidos, apesar dos prejuízos para parte da cadeia econômica brasileira.

“Obrigado Presidente Trump - Faça o Brasil Livre Novamente - Queremos Magnitsky!”, escreveu Flávio em alusão à Lei Magnitsky imposta pelos EUA, em julho de 2025, como retaliação a autoridades brasileiras e ministros do Supremo.

O candidato do PL, por sua vez, costuma responsabilizar uma suposta agenda “anti-EUA” do governo Lula para justificar as tarifas impostas por Trump ao Brasil.

No capítulo que aborda o agronegócio brasileiro, Flávio Bolsonaro informa que vai trabalhar para “buscar soluções diplomáticas eficazes contra sanções dos EUA, da China e da Europa aos produtos nacionais”.

“Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia. O Itamaraty voltará a ser conduzido pela competência técnica que sempre marcou seus quadros”, diz o documento.

Nas redes sociais, entretanto, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, defende uma “faxina” no Itamaraty contra servidores que supostamente teriam “sabotado” o governo do pai dele, Jair Bolsonaro.

OCDE

No plano do candidato Flávio, destaca-se ainda o objetivo de incluir o Brasil na OCDE [Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico], fórum que reúne 38 países, entre eles, os mais desenvolvidos, para produção de estatísticas e recomendação de políticas públicas.

“A adesão à OCDE é mais do que um selo: ela exige convergência das nossas normas aos padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais”, justifica Flávio Bolsonaro.

A Agência Brasil publica, neste segundo turno, matérias com o comparativo dos planos de governo dos dois candidatos. 

Quelle
Agencia Brasil
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