
Não são.
Podemos reduzir emissões de carbono e, ao mesmo tempo, continuar perdendo biodiversidade. Podemos substituir uma fonte de energia e ampliar a pressão sobre a mineração e a água. Podemos produzir uma embalagem com menor pegada de carbono que contenha substâncias persistentes no ambiente. Podemos instalar uma atividade considerada eficiente justamente em uma região submetida a grave estresse hídrico. Em outras palavras, uma solução para determinado problema ambiental pode manter, ou até aumentar, pressões sobre outros.
Essa constatação nos obriga a recuperar uma ideia que deveria ser elementar na discussão ambiental: a natureza funciona como um sistema. Atmosfera, oceanos, florestas, solos, rios, organismos e ciclos de nutrientes não existem de maneira independente. Eles trocam matéria e energia e se influenciam continuamente. O desmatamento, por exemplo, não representa apenas emissão de carbono. Ele também significa perda de habitat, alteração da biodiversidade, exposição do solo, modificação da evapotranspiração e mudanças no ciclo da água. Da mesma maneira, o excesso de nitrogênio e fósforo pode provocar eutrofização de ambientes aquáticos, enquanto o dióxido de carbono que aquece a atmosfera também contribui para a acidificação dos oceanos.
Talvez uma das maiores dificuldades contemporâneas para enfrentarmos a questão ambiental seja justamente nossa tendência a fragmentá-la. Discutimos quem emite mais carbono, qual setor consome mais água, quem desmata mais ou qual atividade gera mais resíduos. Essas perguntas podem ser importantes para determinados diagnósticos, mas se tornam insuficientes quando nos fazem perder de vista o funcionamento do conjunto. Em um sistema ecológico, pressões diferentes interagem, reforçam-se e podem produzir consequências que não seriam compreendidas pela análise isolada de cada uma delas.
Foi justamente para ajudar a compreender essa complexidade que, em 2009, Johan Rockström e colaboradores propuseram o referencial das Fronteiras Planetárias. A ideia é relativamente simples, embora suas implicações sejam profundas: existem processos fundamentais para manter a estabilidade e a resiliência do sistema terrestre, e a humanidade exerce pressões crescentes sobre eles.
Em artigo anterior publicado neste jornal, ao discutir a questão do fósforo, já havia abordado brevemente o conceito de fronteiras planetárias. Retomo-o agora de forma mais ampla, procurando aprofundar seu significado e, sobretudo, o que ele nos revela sobre a dimensão e a complexidade da crise ambiental contemporânea.
O modelo identifica nove grandes fronteiras: mudança climática; integridade da biosfera; mudança no sistema terrestre; mudança da água doce; fluxos de nitrogênio e fósforo; acidificação dos oceanos; ozônio estratosférico; aerossóis atmosféricos; e aquilo que os pesquisadores denominam “entidades novas”, categoria que inclui substâncias químicas, plásticos e outros materiais produzidos e liberados em escala superior à nossa capacidade de avaliá-los e controlá-los.
O que aconteceu desde que esse referencial foi apresentado merece atenção. Em 2009, três fronteiras eram consideradas ultrapassadas. Em 2015, eram quatro. Em 2023, uma avaliação abrangendo todas as nove identificou seis transgressões. Em 2025, com a inclusão da acidificação dos oceanos entre as fronteiras ultrapassadas, chegamos a sete.
Atualmente, encontram-se fora do espaço considerado seguro a mudança climática, a integridade da biosfera, as mudanças no sistema terrestre, a água doce, os fluxos de nitrogênio e fósforo, as entidades novas e a acidificação dos oceanos. Permanecem no espaço seguro global o ozônio estratosférico e os aerossóis atmosféricos, estes últimos com a importante ressalva de que continuam podendo representar problemas graves em escalas regionais e para a saúde humana.
É importante compreender corretamente esse diagnóstico. Dizer que sete das nove fronteiras foram ultrapassadas não significa que “sete nonos do planeta estejam perdidos”, nem que um colapso ambiental ocorrerá em determinada data. As fronteiras não são nove pedaços equivalentes da Terra e sua transgressão não representa uma sentença de colapso imediato. Elas funcionam como referências de prudência: indicam a entrada em zonas nas quais os riscos de alterações extensas, não lineares ou difíceis de reverter se tornam crescentes.
Há ainda outro aspecto especialmente preocupante: sete problemas simultâneos são mais graves do que a simples soma de sete problemas isolados.
A perda de biodiversidade reduz a capacidade dos ecossistemas de responder às mudanças climáticas. A degradação das florestas interfere no carbono e no ciclo da água. Oceanos mais quentes e mais ácidos enfrentam simultaneamente poluição, eutrofização e sobrepesca. Solos degradados armazenam menos água e sustentam com maior dificuldade a produção agrícola. À medida que enfraquecemos esses sistemas, reduzimos justamente os mecanismos naturais que ajudam o planeta, e nossas próprias sociedades, a absorver perturbações.
Isso significa que enfrentar a mudança climática continua sendo indispensável. Mas significa também que descarbonizar não é sinônimo de tornar-se sustentável.
Uma economia de baixo carbono ainda pode destruir habitats, exaurir recursos hídricos, alterar ciclos de nutrientes, disseminar substâncias persistentes e pressionar ecossistemas além de sua capacidade de regeneração. Da mesma forma, aumentar a eficiência não garante necessariamente reduzir a pressão ambiental total. Se o impacto de cada unidade produzida diminui, mas o volume total cresce ainda mais, o impacto absoluto pode continuar aumentando.
Talvez seja justamente aí que precisemos modificar a maneira como formulamos o problema. A economia não existe ao lado da natureza. Ela existe dentro dela. Empresas, cidades, agricultura, indústria e cadeias de suprimentos dependem de água, solos, minerais, fotossíntese, biodiversidade, regulação climática e inúmeros outros processos que não produzimos economicamente. Transformamos materiais e criamos valor, mas não fabricamos as condições biofísicas que tornam essa transformação possível.
Por isso, a questão ambiental não deveria ser reduzida a uma disputa sobre qual setor “polui mais” ou sobre qual tecnologia apresenta a menor emissão de carbono. Precisamos perguntar também quais recursos são utilizados, onde os impactos acontecem, quais ecossistemas são pressionados, quais problemas podem estar sendo transferidos de um lugar para outro e qual é a pressão total exercida sobre os sistemas naturais.
O clima é decisivo. Mas o planeta é muito mais do que o clima. Talvez o grande desafio ambiental deste século seja justamente recuperar essa visão sistêmica. Não basta resolver um problema enquanto agravamos outro. Sustentabilidade exige compreender que biodiversidade, água, solos, oceanos, atmosfera e sociedades pertencem a um mesmo sistema, no qual causas e consequências atravessam as fronteiras que nós mesmos criamos para estudá-las.
As Fronteiras Planetárias não nos dizem exatamente quando uma crise acontecerá nem oferecem uma fórmula automática para resolvê-la. Elas nos oferecem algo mais importante: uma advertência de que a estabilidade da qual nossas sociedades dependem resulta da interação de muitos processos naturais, e de que sete deles já se encontram submetidos a pressões além das margens consideradas seguras.
Enfrentar a crise climática é indispensável. Confundi-la com toda a crise ambiental, porém, pode nos fazer ignorar justamente uma parte substancial do problema.
________________(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)
