Transcendência

26/10/2026 às 22:336 visualizações
perfil_dest_Marcos-Buckeridge
perfil_dest_Marcos-Buckeridge
Jornal da USP

Por Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

Imagem do artigo

Se todos os nossos relógios inevitavelmente param — ou seja, morremos —, como argumentei nas duas séries anteriores, principalmente em Morte e O Tempo, seria contraditório dizer que algumas coisas conseguem continuar? Organismos desaparecem enquanto a vida continua; pessoas morrem, mas algumas de suas ideias permanecem. Gerações se sucedem enquanto as sociedades preservam parte do que aprenderam. Já discutimos esses processos anteriormente. Agora, quero propor uma pergunta diferente: quando algo continua para além daquilo que lhe deu origem, podemos dizer que transcendeu?

Transcendência é um termo capaz de representar grande parte do que discuti nas séries deste ano, incluindo Como mudar a sociedade, Carbono, Cidades, Morte e O Tempo. A palavra carrega uma história filosófica e religiosa muito mais ampla do que o significado que pretendo explorar aqui. Não vou utilizá-la para designar algo que esteja além do mundo material, uma realidade superior ou qualquer forma de existência que ultrapasse a experiência humana. Também não pretendo discutir se alguma dessas possibilidades existe. Proponho fazer o movimento inverso: trazer a transcendência para dentro do mundo material e perguntar se podemos reconhecê-la como uma propriedade de sistemas biológicos, culturais e sociais.

Transcender significa ultrapassar um limite. Portanto, retirando por um momento as camadas metafísicas, resta uma pergunta concreta: o que acontece quando algo produzido por um sistema consegue ultrapassar os limites do próprio sistema que o produziu? Talvez possamos definir transcendência como a capacidade de produzir algo que continue a operar para além dos limites espaciais, temporais ou materiais do sistema que lhe deu origem. Uma ideia formulada há séculos pode influenciar uma decisão tomada hoje, em uma sociedade que sequer existia quando foi concebida. Nesse caso, a ideia não apenas permaneceu, mas também continuou produzindo efeitos. A transcendência, portanto, não seria simplesmente uma forma de permanência. Seria uma forma de continuidade capaz de modificar outros sistemas.

Mas como reconhecer essa propriedade? Para tentar responder, proponho três condições. A primeira é que exista uma origem. Algo precisa ter sido produzido por um sistema identificável, seja uma célula, um organismo, uma pessoa ou uma sociedade. Sem essa relação entre o que foi produzido e sua origem, não há fronteira a ultrapassar. A segunda condição é justamente atravessar essa fronteira. Uma informação pode alcançar lugares a que seu produtor jamais chegaria, sobreviver ao tempo ou passar a operar em um sistema diferente daquele em que surgiu.

A terceira condição talvez seja a mais importante: a continuidade operacional. Uma mensagem guardada e jamais lida pode sobreviver por séculos sem produzir qualquer efeito. Quando alguém a encontra, lê e modifica seu pensamento, algo volta a acontecer. Não basta, portanto, atravessar uma fronteira. É necessário que aquilo que a atravessou continue funcionando do outro lado. A diferença parece pequena, mas modifica profundamente o conceito. Uma coisa é permanecer. Outra é continuar participando dos acontecimentos.

Entretanto, surge um problema. Quando algo ultrapassa sua origem e passa a operar em outro sistema, dificilmente permanece exatamente igual. Uma ideia encontra outras ideias, é reinterpretada e adquire significados que seu autor jamais imaginou. Informações biológicas atravessam gerações, são recombinadas e participam da formação de organismos muito diferentes daqueles em que surgiram. A transformação não parece ser uma condição necessária para a transcendência, mas talvez seja uma de suas possibilidades mais interessantes. Algo pode continuar produzindo efeitos justamente porque deixou de ser o que era.

A evolução oferece um exemplo. As penas surgiram nos ancestrais das aves antes de serem utilizadas para o voo. Provavelmente desempenhavam funções relacionadas ao isolamento térmico ou à exibição visual e, posteriormente, foram incorporadas às estruturas que permitiram voar. Em 1982, os biólogos Stephen Jay Gould e Elisabeth Vrba propuseram o termo exaptação para descrever características que passam a desempenhar funções para as quais não haviam sido originalmente selecionadas. A exaptação não é a mesma coisa que a transcendência, mas ajuda a compreender como uma estrutura pode adquirir possibilidades que não existiam quando surgiu. A evolução não precisa começar sempre do zero. Pode produzir novidades transformando aquilo que já existe.

Esse exemplo nos coloca diante de uma questão incômoda. Se algo se transforma profundamente, em que momento deixa de ser aquilo que transcendeu? Uma ideia pode atravessar séculos e adquirir significados tão diferentes que seu autor talvez nem a reconhecesse. Nesse caso, foi a ideia original que transcendeu ou surgiu outra coisa? O problema é ainda mais complexo quando pensamos nos organismos. Nossas células são continuamente substituídas, nossas experiências modificam o cérebro e nossa identidade se transforma ao longo da vida. Ainda assim, continuamos nos reconhecendo como a mesma pessoa. Mas até onde essa continuidade pode ser estendida?

As tecnologias atuais tornam essa pergunta cada vez menos abstrata. Substituímos articulações, válvulas cardíacas e órgãos e começamos a produzir estruturas biológicas fora do corpo. Ao mesmo tempo, externalizamos parte de nossa memória e de nossa capacidade de processar informações para as máquinas. Se um dia conseguirmos transferir funções progressivamente mais complexas do cérebro para outros substratos, o que exatamente terá atravessado a fronteira: a informação, a inteligência, a pessoa ou apenas uma cópia de algumas de suas propriedades? E, se essa cópia continuar aprendendo e se transformando, em que sentido ainda estará relacionada àquilo que lhe deu origem?

A ficção científica gosta dessa pergunta porque pode levá-la ao limite. Mas a biologia chegou a ela muito antes de nós. A vida existe há bilhões de anos sem que nenhum organismo precise existir por tanto tempo. Sua continuidade depende de um estranho equilíbrio entre conservar informação e permitir que ela seja transformada. Talvez seja justamente esse equilíbrio que permita ultrapassar os limites de um sistema sem perder completamente a relação com sua origem.

Isso sugere que a transcendência não deve ser confundida com imortalidade. Imortalidade seria a tentativa de impedir que o relógio parasse. A transcendência pode ser algo muito diferente: permitir que algo continue operando, mesmo depois que o sistema que lhe deu origem deixou de existir. Mas, se aquilo que continua pode se transformar, talvez a transcendência não seja uma maneira de escapar da mudança. Pode ser exatamente o contrário: uma maneira de continuar por meio dela.

Também não há razão para imaginar que isso seja necessariamente bom. Ideias destrutivas atravessam séculos. Preconceitos sobrevivem às condições históricas que os produziram. Instituições podem perpetuar formas de organização que já não fazem sentido. Se a transcendência for realmente uma propriedade de determinados sistemas, ela não traz consigo qualquer garantia moral.

Assim como a evolução não significa progresso, a transcendência não significa aperfeiçoamento. Algo pode ultrapassar sua origem e continuar produzindo efeitos que gostaríamos de interromper.

O problema se torna particularmente interessante quando saímos dos indivíduos e chegamos às sociedades. Não pretendo repetir aqui como a linguagem, a escrita e as instituições permitem preservar conhecimentos para além das pessoas que os produziram. Já discutimos esses mecanismos anteriormente. A questão agora é outra. Quando uma sociedade herda conhecimentos, instituições e formas de organização, ela não recebe simplesmente algo pronto. Precisa reinterpretar, modificar e adaptar o que recebeu. Uma descoberta científica pode gerar tecnologias que seus autores jamais imaginaram. Uma instituição criada para resolver determinado problema pode, séculos depois, desempenhar funções inteiramente diferentes. O que atravessa as gerações não é necessariamente a forma original, mas a capacidade de continuar participando da construção de novas formas de organização.

É nesse ponto que a transcendência e o aprendizado coletivo talvez se encontrem. Uma sociedade não transcende simplesmente porque dura. Ela o faz quando aquilo que produz consegue atravessar seus componentes, suas gerações e, talvez, suas próprias formas de organização, continuando a participar daquilo que virá depois. Mas sociedades também esquecem. Conhecimentos desaparecem, instituições entram em colapso e experiências históricas que pareciam definitivamente incorporadas precisam ser aprendidas novamente. A transcendência talvez nunca esteja garantida. Precisa ser continuamente reconstruída.

Nos próximos artigos, quero colocar essa ideia à prova em diferentes escalas. Primeiro, na própria vida, que enfrentou algumas das maiores catástrofes ocorridas no planeta, sem permanecer igual depois delas. Depois, na ciência e nas tecnologias que produzimos, capazes de transferir funções antes restritas aos organismos para sistemas externos a eles. E, finalmente, nas sociedades em que indivíduos efêmeros constroem estruturas e sistemas políticos que podem durar séculos e transformar profundamente aqueles que os herdam.

Há uma possibilidade inquietante. Estamos acostumados a pensar a transcendência como algo que desejamos alcançar, situado em algum lugar além de nós. Talvez ela esteja acontecendo o tempo todo. Cada geração recebe um mundo produzido por pessoas que já não estão nele, modifica esse mundo e o entrega a pessoas que ainda não existem. Fazemos isso com genes, palavras, cidades, conhecimento, instituições e formas de organizar a vida coletiva. Somos, ao mesmo tempo, produtos de transcendências anteriores e sistemas temporários por meio dos quais outras poderão ocorrer.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.