‘A melhor forma de dizer que estamos com Fidel é derrotar a direita’, diz Stedile em lançamento de documentário do BdF

Von Rafaella Coury26/08/2026 às 23:304 Aufrufe
'Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus', documentário do Brasil de Fato, lançado em agosto de 2026
'Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus', documentário do Brasil de Fato, lançado em agosto de 2026
Brasil de Fato

Para João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a melhor homenagem ao legado de Fidel Castro não está em discursos, mas nas urnas. A declaração foi feita nesta quarta-feira (26) no lançamento oficial de “Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus”, documentário do Brasil de Fato sobre o pensamento do líder cubano e os desafios atuais da Revolução, em evento na Livraria Expressão Popular, em São Paulo (SP).

“Qual é a melhor forma de dizer: estamos contigo? Não é simplesmente fazer luta. Isso qualquer pessoa poderia fazer. A nossa obrigação é derrotar a direita em toda a América Latina, começando aqui no Brasil dia 4 de outubro”, afirmou Stedile, referindo-se ao primeiro turno das eleições presidenciais deste ano.

O evento reuniu os diretores do documentário, Igor Carvalho e Rodrigo Chagas, além de Meylin Alfonso Gómez, representante do Consulado de Cuba em São Paulo. Entre o público, estavam o deputado estadual Eduardo Suplicy e o historiador Valerio Arcary. Ao final da mesa de debate, o público assistiu à exibição do filme.

Chagas, que conduziu a noite como mestre de cerimônias, destacou o impacto de mergulhar no pensamento de Fidel durante as filmagens. “Espero que vocês tenham o espírito revolucionário, com nosso ânimo revolucionário renovado no pensamento de Fidel. Mergulhar no pensamento de Fidel significou muito para nós, que tivemos a oportunidade de fazer o filme. E falar de Fidel Castro também fez brilhar o olhar de todos os cubanos e cubanas que entrevistamos, de diferentes faixas etárias, diferentes origens”, disse.

Bastidores: 14 dias em Havana no meio de uma crise

Igor Carvalho, codiretor e produtor executivo do filme, contou que a equipe chegou a Cuba em junho, coincidindo com o anúncio de um pacote de 176 medidas de transformação econômica pelo governo cubano, e que o roteiro original, centrado apenas no centenário de Fidel, foi se transformando ao longo da apuração.

“Percebemos que não seria possível falar do centenário do Fidel sem falar da crise que a ilha atravessa nesse momento”, afirmou. Segundo ele, praticamente todas as pessoas entrevistadas mencionaram a ausência do líder cubano, morto em 2016. “Não houve uma só pessoa com quem conversamos que não acabou citando a ausência do Fidel […]. Talvez a presença dele hoje tornasse a negociação, a resistência, a organização do povo cubano ainda maior.”

Ao longo de 14 dias em Havana, a equipe registrou também as dificuldades cotidianas da crise energética — falta de eletricidade, cortes no fornecimento de água, dificuldade de locomoção. Entre os personagens do filme, Carvalho destacou Josué, de 25 anos, um dos responsáveis por pensar a transição energética em Cuba, e a visita ao Centro Fidel Castro, um dos poucos espaços autorizados a usar o nome do líder — já que uma determinação cubana, atendendo a um pedido do próprio Fidel, veta homenagens dessa natureza. “Solidariedade era o traço […] do legado do Fidel Castro que mais chamava a atenção”, relatou o diretor do Centro à equipe do documentário.

‘Cuba não se rende’

Meylin Alfonso Gómez, representante do Consulado de Cuba em São Paulo, agradeceu a solidariedade internacional num momento que classificou como de “forte genocídio” contra o povo cubano, em referência ao recrudescimento das sanções dos Estados Unidos. “Cuba não se rende”, afirmou, voltando a citar as 176 medidas anunciadas pelo governo cubano, agora como exemplo de esforço para atrair investimento estrangeiro e diversificar a produção, além da ampliação da energia solar diante da dependência da geração térmica. “Cuba não está morta. Cuba se reinventa […], segue sendo um farol de resistência” para a América Latina e o Caribe, disse.

Na mesma linha, Stedile classificou Fidel Castro como um “profeta”, citando uma fala do líder cubano na Rio-92, no Rio de Janeiro (RJ), sobre a crise ambiental: “Se nós não mudarmos os hábitos de consumo, não mudarmos a nossa relação com a natureza, não enfrentarmos as empresas que destroem a natureza, lamento em lhes informar, mas há um ser vivo que corre o risco de desaparecer do planeta Terra. E esse ser vivo se chama o ser humano.”

Para Stedile, a esquerda latino-americana ainda não incorporou esse alerta em seus programas. “A esquerda só pensa em votar […], mas não é assim que tu muda o mundo. Muda o mundo com programa, com clareza de quais são os desafios que a humanidade está enfrentando.”

O dirigente também recordou a cooperação entre Cuba e o MST na formação de médicos brasileiros pela Escola Latino-Americana de Medicina — cita 502 formados, a maioria negros e mulheres — e mencionou que 72 estudantes do movimento cursam atualmente a graduação na ilha. Ele relatou ainda um encontro pessoal com Fidel Castro, em que o líder cubano teria oferecido, ainda no governo Lula, o método cubano de alfabetização de adultos “Yo, Sí Puedo” — proposta recusada à época pelo Ministério da Educação e posteriormente adotada por movimentos populares, incluindo experiências no Haiti e na Zâmbia.

Ao encerrar a fala, Stedile convocou o público a se engajar na campanha eleitoral deste ano, defendendo a eleição de uma bancada mais alinhada ao governo no Congresso. “Já estamos cansados de meio, meio, né, galera?”

Um documentário urgente

A diretora-executiva do Brasil de Fato, Nina Fideles, destacou que a decisão de produzir o documentário partiu de uma escolha editorial firme, mesmo em um momento de dificuldades de financiamento do veículo. “A gente decidiu, escolheu e escolhe fazer um documentário sobre Cuba, porque entende como extremamente necessário e urgente […] dizer e denunciar o crime contra a ilha, que acaba sendo um crime contra toda a humanidade”, disse. “Se Cuba falha, falhamos todos.”

“Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus” está disponível gratuitamente no canal do Brasil de Fato no YouTube, com legendas em português, espanhol e inglês.

Quem quiser ajudar o Brasil de Fato a continuar produzindo documentários e coberturas como esta pode se tornar membro do canal no YouTube. A iniciativa oferece quatro níveis de apoio, a partir de R$ 11,99 mensais, com benefícios como vídeos exclusivos, transmissões ao vivo e acesso antecipado a conteúdos.

Quelle
Brasil de Fato
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