Tribunal de Justiça do Ceará abre seminário sobre prevenção e combate à tortura no sistema socioeducativo

Por EDSON VIANA GOMES27/08/2026 às 22:563 visualizaciones
Público que comparece ao encontro é formado por profissionais do sistema socioeducativo, das universidades, dos movimentos sociais e do sistema de Justiça
Público que comparece ao encontro é formado por profissionais do sistema socioeducativo, das universidades, dos movimentos sociais e do sistema de Justiça
Foto: J. P. Oliveira / Tribunal de Justica do Ceara

Comprometido com o fortalecimento da articulação interinstitucional e o debate de estratégias de proteção integral a crianças e adolescentes, o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) iniciou, nesta quinta-feira (27/08), o seminário “Garantir Direitos, Prevenir Violências: desafios e estratégias para o enfrentamento da tortura no sistema socioeducativo”. O evento, realizado na sede da Justiça Federal no Ceará (JFCE), em Fortaleza, segue até esta sexta (28).

Durante a mesa de abertura, o supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e de Execução de Medidas Socioeducativas (GMF) do TJCE, desembargador Henrique Jorge Holanda Silveira, destacou a relevância da união de esforços entre as diversas instituições para garantir a efetividade das políticas de direitos humanos no âmbito socioeducativo.

“Prevenir a violência, os maus-tratos e a tortura é também responsabilidade do Poder Judiciário. Não podemos naturalizar nenhuma forma de violência institucional. Precisamos estar atentos às condições de cumprimento das medidas socioeducativas, fortalecer as inspeções, qualificar a escuta dos adolescentes e assegurar que toda notícia de violação de direitos seja recebida, apurada e encaminhada de forma adequada. Ao mesmo tempo, temos clareza de que o Judiciário não fará isso sozinho”, salientou o supervisor do GMF.

O diretor do Foro da Justiça Federal no Ceará (JFCE), juiz federal Júlio Rodrigues Coelho Neto, falou da parceria com o TJCE e o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca Ceará) para a realização do evento. Para o magistrado, o combate a violações no sistema socioeducativo ultrapassa as divisões da Justiça e representa um compromisso coletivo de Estado brasileiro.

“Embora não sejamos a competência primeira para tratar da matéria, atuamos na defesa dos Direitos Humanos, na questão da federalização e na responsabilidade do Brasil por ofensas a convenções e tratados internacionais. Estamos preocupados em contribuir para trazer propostas de soluções viáveis, que façam a diferença na vida das pessoas”, pontuou o juiz federal.

A coordenadora-geral do Cedeca Ceará, Marina Araújo, enfatizou a necessidade de efetivar os mecanismos estaduais de prevenção e disse ser de extrema relevância a Resolução nº 05/2025, do Órgão Especial do TJCE, que, em março do ano passado, instituiu o fluxo de processamento de casos de tortura e maus-tratos no sistema socioeducativo cearense.

 

Público que comparece ao encontro é formado por profissionais do sistema socioeducativo, das universidades, dos movimentos sociais e do sistema de Justiça
Público que comparece ao encontro é formado por profissionais do sistema socioeducativo, das universidades, dos movimentos sociais e do sistema de Justiça
Público que comparece ao encontro é formado por profissionais do sistema socioeducativo, das universidades, dos movimentos sociais e do sistema de Justiça

 

“O modelo que o Ceará aplica traz luz para que outros estados olhem atentamente para o fenômeno da tortura e dos maus-tratos no sistema socioeducativo. Muitas vezes, a complexidade do sistema prisional adulto invisibiliza o que acontece contra crianças e adolescentes. Trazer essa pauta é reforçar a prioridade absoluta que eles devem ter”, reforçou.

 

PIONEIRISMO DO CEARÁ

 

Representando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o coordenador-adjunto do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (DMF), desembargador Ruy Muggiati, também reconheceu o pioneirismo do TJCE na criação da Resolução nº 05/2025. “Trata-se de uma referência para outros Tribunais de Justiça no enfrentamento dessas violações”, afirmou.

O desembargador Ruy Muggiati acrescentou que a custódia estatal exige dever de proteção mais rigoroso e chamou a atenção para o racismo institucional. “Se ao Estado brasileiro já incumbe prevenir e combater a tortura em qualquer hipótese, esse dever constitucional se torna ainda mais rigoroso quando se trata de adolescentes sob a custódia de autoridades públicas. Dados do Cadastro Nacional revelam que cerca de 75% dos adolescentes internados no país são negros, o que exige do sistema de Justiça juvenil sensibilidade e postura crítica quanto ao impacto do racismo institucional. Esse cenário reforça a urgência de fluxos administrativos robustos e de compromissos interinstitucionais coesos”, completou.

 

É PRECISO RESGATAR A DIMENSÃO HUMANA

 

Integrante da Unidade de Monitoramento e Fiscalização de decisões do Sistema Interamericano de Direitos Humanos (UMF) do Poder Judiciário do Ceará, que tem à frente o desembargador Eduardo Scorsafava, a juíza Luciana Teixeira de Souza propôs uma reflexão sobre a necessidade de resgatar a dimensão humana na prevenção da violência.

“Socioeducar não é retirar tudo. Quando retiramos a liberdade de alguém, quanto mais precisamos retirar? Prevenir a violência não é apenas impedir que algo ruim aconteça, é criar condições para que algo humano continue existindo. Garantir direitos exige normas, fiscalização e responsabilização, mas prevenir a tortura exige também humanidade. Responsabilizar não pode significar desumanizar. Que continuemos enxergando o menino que pode sentir o gosto de casa, abrir um livro, reviver uma memória e encontrar portas abertas para quem ainda tem uma vida inteira por escrever”, concluiu a juíza Luciana Teixeira.

 

O seminário teve início nesta quinta (27) e prossegue até amanhã (28) na sede da Justiça Federal no Ceará, em Fortaleza
O seminário teve início nesta quinta (27) e prossegue até amanhã (28) na sede da Justiça Federal no Ceará, em Fortaleza
O seminário teve início nesta quinta (27) e prossegue até amanhã (28) na sede da Justiça Federal no Ceará, em Fortaleza

 

Além das autoridades citadas, compuseram a mesa de abertura do seminário: o procurador-geral de Justiça do Estado, Herbet Gonçalves Santos; a defensora pública Andrea Pereira Rebouças; o superintendente da Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas), Roberto Bassan; o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), deputado estadual Renato Roseno; e a coordenadora do Coletivo Vozes de Mães e Familiares do Sistema Socioeducativo e Prisional, Alessandra Félix.

Após a solenidade, houve a conferência sobre “Tortura e maus-tratos no sistema socioeducativo brasileiro: desafios estruturais e responsabilidades institucionais”. Participaram do debate a promotora de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais, Licia Ferreira Reis; doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual da Bahia, Jalusa Silva de Arruda, professora do Curso de Direito da Universidade Estadual da Bahia, e o juiz do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Afrânio José Fonseca Nardy. O juiz Wilson de Alencar Aragão mediou os trabalhos.

Toda a programação foi transmitida, ao vivo, pelo Canal da JFCE, no Youtube

 

MESAS TEMÁTICAS

 

À tarde, o seminário foi retomado com a primeira mesa temática, que tratou sobre “Prevenção e Combate à Tortura: Definições e Marco Normativo Nacional e Internacional”. O debate contou com a participação do assessor técnico nacional do Programa Fazendo Justiça (CNJ/PNUD), Acássio Pereira de Sousa, e da representante da organização Justiça Global, Monique Cruz. A mesa foi mediada pela coordenadora-geral do Cedeca, Marina Araújo, que citou os desafios para a prevenção da violência institucional e a importância da articulação entre o sistema de Justiça e a rede de proteção para assegurar os direitos de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas.

A segunda mesa do evento teve como tema “A implementação da Resolução nº 05/2025 do TJCE: fluxos, desafios e perspectivas para a prevenção e o combate à tortura no sistema socioeducativo”. Na oportunidade, o coordenador do Núcleo de Políticas Socioeducativas do GMF, juiz Epitácio Quezado Cruz Júnior, apresentou o guia prático para facilitar os fluxos de trabalho previstos no normativo. Clique AQUI para conferir

“Esse guia é um resumo manual para facilitar o entendimento, o manuseio e a aplicação por parte de juízes e servidores do Tribunal de Justiça do Ceará. A Resolução nº 05/2025 é um normativo complexo, com 67 artigos, e o GMF elaborou esse manual com modelos práticos de ofícios e do relatório sintético, peça importantíssima que o juiz deve confeccionar após a audiência em que ouve o adolescente”, explicou.

Ao falar do seminário, o magistrado enfatizou que a atuação em rede é indispensável. “Essa presença interinstitucional é fundamental na efetivação da resolução, porque sozinho o Judiciário não consegue implementá-la integralmente. Precisamos do apoio e da parceria de diversos atores para que a norma não corra o risco de virar ‘letra morta.'”

Na sequência, o público conferiu a terceira mesa, que teve como tema “Escuta especializada e depoimento especial no fluxo de processamento de casos de tortura e maus-tratos”. O debate teve a participação da vice-diretora do Fórum Clóvis Beviláqua e coordenadora do Centro Especializado de Apoio às Vítimas (CEAV), juíza Daniela Lima da Rocha.

 

“Escuta especializada e depoimento especial no fluxo de processamento de casos de tortura e maus-tratos” foi uma das temáticas debatidas no evento
“Escuta especializada e depoimento especial no fluxo de processamento de casos de tortura e maus-tratos” foi uma das temáticas debatidas no evento
“Escuta especializada e depoimento especial no fluxo de processamento de casos de tortura e maus-tratos” foi uma das temáticas debatidas no evento

 

“É uma honra estar participando desse evento que representa um grande passo na articulação entre as tantas instituições que são afetadas direta e indiretamente por esse tema, afetadas no sentido de obrigação de construir ou participar da construção de soluções para a prevenção e combate à tortura de adolescentes dentro do sistema socioeducativo. Na medida em que participamos desse fluxo, nós, do Ceav, sentimos que estamos cumprindo o nosso papel também de proteção à vítima de modo geral”, ressaltou a juíza Daniela Lima.

A mesa ainda teve a participação da idealizadora do novo fluxo do Depoimento Especial no Ceará, a juíza Dayana Claudia Tavares Barros de Castro, titular da 2ª Vara da Comarca de Boa Viagem e integrante do Núcleo de Cooperação Judiciária do TJCE.

“Muitas vezes a gente vê o adolescente apenas como aquele que praticou o ato infracional, mas a gente esquece que ele também é uma vítima. E a gente precisa saber lidar com essas situações para ouvi-lo, através da escuta especializada e do depoimento especial, de forma humanizada e acolhedora, impedindo maus-tratos e tortura dentro do sistema. E tem relatos de um estudo feito pelo próprio CNJ de que os números de casos de abusos quando esses adolescentes são apreendidos é absurdo e vem aumentando, em que não é resguardado o direito dele à proteção, ao acolhimento devido, a ter um ambiente adequado na espera pela decisão judicial”, informou a magistrada.

A titular da Vara Única da Infância e Juventude de Caucaia, juíza Débora Danielle Pinheiro Ximenes, mediou o debate. Além das magistradas, participaram das discussões sobre depoimento especial a supervisora operacional do Ceav, Yane Pereira Machado, e a coordenadora da Casa da Criança da Secretaria da Proteção Social (SPS), Andrea Autran.

O seminário “Garantir Direitos, Prevenir Violências: desafios e estratégias para o enfrentamento da tortura no sistema socioeducativo” seguirá nesta sexta-feira (28/08). A programação terá painéis dedicados à responsabilização, aos relatórios de inspeção e aos fluxos estaduais de fiscalização.

 

SERVIÇO

 

Seminário “Garantir Direitos, Prevenir Violências: desafios e estratégias para o enfrentamento da tortura no sistema socioeducativo”
2º Dia: Da identificação à responsabilização: práticas de prevenção e combate à tortura no sistema socioeducativo do Ceará
Data: 28 de agosto de 2026 (sexta-feira)
Horário: 9h às 16h30
Local: Auditório da Justiça Federal, Fortaleza
Público-alvo: integrantes do Sistema de Justiça, gestores e profissionais do sistema socioeducativo, equipes técnicas, socioeducadores, representantes da sociedade civil, universidades e movimentos sociais.

PROGRAMAÇÃO
9h às 11h – Mesa 4 – Inspeções como instrumento de prevenção e combate à tortura: metodologia e prática no Ceará
11h às 12h30 – Mesa 5 – Tortura e maus-tratos no sistema socioeducativo cearense: apresentação do Relatório de Missão do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH)
14h às 16h30 – Mesa 6 – Responsabilização pela prática de tortura e maus-tratos no Ceará: fluxos, entraves e soluções
16h30 – Encerramento

 

Fuente
Tribunal de Justica do Ceara
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