Criação do refúgio Serra da Chapadinha une vitória histórica e alerta contínuo

14/09/2026 às 17:2731 Aufrufe
Decreto Estadual nº 24.778 institui o Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) Serra da Chapadinha, resguardando aproximadamente 18 mil hectares distribuídos entre os municípios de Itaetê, Ibicoara, Mucugê e Iramaia, no coração da Chapada Diamantina
Decreto Estadual nº 24.778 institui o Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) Serra da Chapadinha, resguardando aproximadamente 18 mil hectares distribuídos entre os municípios de Itaetê, Ibicoara, Mucugê e Iramaia, no coração da Chapada Diamantina
Brasil de Fato

Após décadas de pressão socioambiental e três anos de mobilização intensa, a Serra da Chapadinha agora é oficialmente uma Unidade de Conservação (UC) de Proteção Integral. Assinado em 31 de agosto pelo governador da Bahia, o Decreto Estadual nº 24.778 institui o Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) Serra da Chapadinha, resguardando aproximadamente 18 mil hectares distribuídos entre os municípios de Itaetê, Ibicoara, Mucugê e Iramaia, no coração da Chapada Diamantina.

A nova unidade cumpre um papel ecossistêmico crucial, conecta o Parque Nacional da Chapada Diamantina aos parques municipais de Ibicoara (Espalhado) e Andaraí (Rota das Cachoeiras), configurando um dos últimos corredores ecológicos contínuos da região. Além de abrigar fauna e flora raras, a Serra da Chapadinha atua como uma verdadeira “caixa d’água natural”. Suas nascentes alimentam a bacia do Rio Una, afluente estratégico do Rio Paraguaçu, garantindo o abastecimento hídrico de mais de 80 municípios baianos, incluindo Salvador e a Região Metropolitana.

Um dos pontos mais celebrados por juristas e ambientalistas está no parágrafo único do Artigo 3º do decreto, onde fala que o subsolo da área foi expressamente integrado aos limites da unidade de conservação.

Pela legislação brasileira ordinária, o subsolo pertence à União e costuma ficar vulnerável à concessão minerária mesmo em áreas com restrições superficiais. Ao incluir o subsolo na área de proteção integral, o decreto cria uma barreira jurídica direta contra o avanço de empreendimentos extrativos predatórios em uma região que já soma milhares de requerimentos minerários em tramitação.

“Acho que o ponto mais positivo do REVIS é que ela considera o subsolo como parte integrante do solo e do meio ambiente. Eu não conheço isso em outro decreto”, destaca Claudio Dourado, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Conflitos agrários e marcas de violência

Apesar da comemoração, a criação da reserva não apaga as tensões históricas do território. A Serra da Chapadinha e seu entorno convivem com um histórico profundo de desigualdade, grilagem de terras e sobreposição de interesses econômicos sobre comunidades camponesas tradicionais, posseiros, geraizeiros, catadores de sempre-viva e assentamentos de reforma agrária, como o Assentamento Colônia, às margens do Rio Una.

Nos últimos anos, o clima de tensão escalou com a chegada de novos agentes corporativos e especuladores imobiliários. Há poucos meses, ativistas ambientais locais da Toca do Lobo sofreram um violento atentado a tiros e precisaram ser incluídos no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH) do Governo Federal.

Gislene Moreira, do Observatório da Chapada Diamantina (OCA), pontua que a segurança da população precisa acompanhar o decreto na prática. “O decreto é uma vitória histórica em termos de ecologia e preservação, mas enquanto esse clima de faroeste e ameaças continuar existindo, qual é a capacidade da sociedade civil de fazer valer sua vontade? A sociedade precisa de respostas concretas, o inquérito sobre os atentados precisa avançar e os responsáveis precisam ser punidos. A criação do REVIS precisa vir acompanhada de um processo real de pacificação do território”, ressalta.

Moreira adverte ainda para o cenário macroeconômico que pressiona a região, conhecida pela riqueza de sua recarga hídrica. “Estamos falando de projetos de mineradoras com siderúrgicas a poucos quilômetros, avanço de data centers de inteligência artificial, especulação e agronegócio. Proteger uma nascente do Una é fundamental em tempos de extremos climáticos, mas a defesa precisa abranger todo o Chapadão da Serra do Espinhaço”, destaca.

Gestão, conselho consultivo e a corrida pelo Plano de Manejo

Pelo texto do decreto, a gestão do REVIS caberá ao Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), que terá um prazo de até cinco anos para elaborar e aprovar o Plano de Manejo. Também está prevista a formação de um Conselho Consultivo composto por proprietários de terras, órgãos públicos, sociedade civil, assentados da reforma agrária e povos tradicionais.

No entanto, organizações ambientalistas consideram a janela de cinco anos excessivamente longa para a urgência da área. “O decreto está assinado, mas o trabalho não se encerra aqui”, enfatiza Renato Cunha, coordenador do Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá). “É preciso acelerar a elaboração do Plano de Manejo para definir com clareza o zoneamento, o que pode e o que não pode funcionar dentro da unidade. O prazo de cinco anos precisa ser encurtado, e o Estado, em parceria com o Governo Federal, precisa estabelecer uma presença física imediata de fiscalização para evitar novos ataques e invasões”, observa.

Claudio Dourado reforça que o sucesso da unidade dependerá de como o Estado tratará a questão fundiária e as comunidades tradicionais, que historicamente foram empurradas para as margens. “Há uma governança pública que precisa dialogar com a lei da reforma agrária e com o modo de vida camponês. O decreto não resolve por si só a estrutura fundiária; é indispensável avançar no autorreconhecimento e na demarcação dos territórios tradicionais para que os camponeses não continuem vulneráveis”, afirma.

A criação do REVIS Serra da Chapadinha representa uma vitória ecológica determinante para a Bahia, ao mesmo tempo em que inaugura uma nova fase de cobrança popular, para transformar o ato institucional em proteção física, justiça social e paz no campo.

O que são os REVIS?

Os Refúgios de Vida Silvestre (REVIS) visam proteger ambientes naturais para a existência e reprodução de espécies da flora e fauna local, incluindo as residentes e migratórias. A visitação é permitida, sujeita às condições do Plano de Manejo e normas do órgão administrador. A posse pode ser pública ou privada, desde que os objetivos da unidade sejam compatíveis com a utilização da terra pelos proprietários.

Quelle
Brasil de Fato
Original öffnen ↗
War diese Nachricht nützlich?

Debatten 0

Seien Sie der Erste, der zur Debatte beiträgt.

Teilen Sie Ihre Informationen und fördern Sie Ihr Argument

Zögern Sie nicht, nützliche Informationen zu veröffentlichen.

Um an der Diskussion teilzunehmen, melden Sie sich an oder erstellen Sie ein kostenloses Konto.