Enchente deixa famílias ilhadas após três dias sem resposta na zona leste de SP: ‘O apoio aqui é nós entre nós mesmos’

מאת Rodrigo Chagas14/09/2026 às 23:3228 צפיות
Morador caminha por rua alagada na Vila Seabra, na zona leste de São Paulo
Morador caminha por rua alagada na Vila Seabra, na zona leste de São Paulo
Brasil de Fato

A água que avançou sobre a várzea do rio Tietê, no extremo leste de São Paulo (SP), desde o fim da semana passada, continuava dentro de casas e ruas nesta segunda-feira (14). União de Vila Nova, Jardim Pantanal, Jardim Helena, Vila Itaim e Vila Seabra estão entre as áreas atingidas por uma inundação que atravessou o fim de semana e, em alguns pontos, deixou moradores ilhados por dias. Enquanto alagamentos registrados em outras regiões da capital escoaram, famílias próximas ao Tietê ainda tentam proteger móveis, conseguir comida ou encontrar uma forma segura de sair de casa.

Na Vila Seabra, a líder comunitária Clarice Ferreira relata que moradores chegaram ao terceiro dia convivendo com ruas alagadas e casas com cerca de 80 centímetros a 1 metro de água. “A gente está levantando os móveis e não tem mais para onde levantar dentro de casa, porque já não tem mais espaço”, conta. Segundo ela, a água voltou a subir nesta segunda, após um breve recuo.

Sem conseguir esperar pelo socorro, moradores organizaram a própria rede de apoio. Clarice conta que vizinhos conseguiram um barco e distribuíram marmitas para famílias que não tinham como deixar as residências. “O apoio aqui que estamos tendo é nós entre nós mesmos”, resume.

Ela afirma que, até o momento da conversa com o Brasil de Fato, não havia visto equipes da Defesa Civil ou da Subprefeitura no trecho em que mora.

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A situação se repete em outros pontos acompanhados pelo Brasil de Fato desde o sábado (12). Na União de Vila Nova, em São Miguel Paulista, o morador Emerson Maquiné relatou que chovia desde as 23h da sexta-feira (11) e que a água começou a subir por volta das 2h. Às 10h17 do sábado, as casas continuavam inundadas. “A água não está escorrendo, não está tendo vazão. Seguimos aqui com sofrimento, como todos os anos, e a gente quer solução”, afirmou.

Moradores da União de Vila Nova, na zona leste de São Paulo, enfrentam alagamentos após a chuva que atinge a capital desde a noite de sexta-feira (11). |
Moradores da União de Vila Nova, na zona leste de São Paulo, enfrentam alagamentos após a chuva que atinge a capital desde a noite de sexta-feira (11). | — Emerson Maquiné
Moradores da União de Vila Nova, na zona leste de São Paulo, enfrentam alagamentos após a chuva que atinge a capital desde a noite de sexta-feira (11). | Crédito: Emerson Maquiné

No domingo (13), o próprio Tietê estava acima da cota de extravasamento em pontos do extremo leste. No Jardim Helena, o nível chegou a 71 centímetros acima da cota de inundação. Em Itaim Biacica, chegou a 91 centímetros acima da cota. Moradores do Jardim Pantanal relataram água próxima de um metro dentro das residências, e na Vila Seabra houve famílias circulando de canoa.

Até o início da tarde desta segunda-feira, São Paulo havia acumulado 227,8 milímetros de chuva em setembro, volume 245,2% superior à média histórica de 66 milímetros para o mês. Segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), já é o setembro mais chuvoso dos últimos 32 anos, período em que a Prefeitura mantém medições por subprefeitura. O órgão alerta também para o solo encharcado e o risco de deslizamentos.

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Moradores relatam demora e distância do socorro

Para quem permaneceu dentro das casas, conseguir ajuda se tornou parte do problema. Clarice afirma que o ponto de atendimento disponibilizado para as famílias da Vila Seabra ficava a cerca de três quilômetros da área em que mora. Segundo ela, escolas mais próximas poderiam ter sido utilizadas para receber os atingidos.

“Ontem nós pegamos aqui voluntariamente os moradores, arrumamos um barquinho para levar marmita onde as pessoas não estão conseguindo sair das suas casas”, relata. “O descaso com essa população é muito grande.”

Moradores usam barco para distribuir marmitas a famílias ilhadas pela enchente (Foto: Divulgação)
Moradores usam barco para distribuir marmitas a famílias ilhadas pela enchente (Foto: Divulgação)
Moradores usam barco para distribuir marmitas a famílias ilhadas pela enchente (Foto: Divulgação)

Adriana Santos também aguardava atendimento. Com o pé machucado e duas crianças pequenas dentro de casa, ela diz ter entrado em contato com a Defesa Civil e recebido a informação de que uma equipe chegaria às 9h. Até o momento em que gravou o relato, ninguém havia aparecido.

“Eu estava com duas crianças pequenas dentro de casa, sem poder sair, com meu pé machucado. Eles falaram que iam estar aqui às 9 horas da manhã, mas até agora nada”, afirma. Adriana contou que precisou enfrentar a água para buscar leite. “Tô indo buscar leite para as crianças que estão sem. Não vieram nem ajudar a gente com nada até agora nesse momento.”

Em resposta ao Brasil de Fato sobre os alagamentos, a Prefeitura de São Paulo informou que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) Ambiental atua na região com viaturas, botes e moto aquática, prestando apoio aos moradores e auxiliando na retirada de quem deseja deixar as residências. Outras equipes da GCM, segundo a gestão, reforçam a segurança.

A Prefeitura também afirmou que realiza limpeza de bueiros, galerias e córregos e citou o Plano Recupera Pantanal. Segundo a administração municipal, estão sendo investidos R$ 59,8 milhões em novas galerias de drenagem e na pavimentação de 10,4 quilômetros de vias. A gestão informou ainda que está construindo cerca de 845 metros de muro de gabião às margens do Tietê, com o objetivo declarado de impedir novas ocupações em áreas de proteção ambiental e facilitar a fiscalização.

Desde dezembro de 2025, 789 famílias foram retiradas de áreas consideradas de risco pelo Recupera Pantanal. O número, porém, é um acumulado do programa e não corresponde ao total de atingidos pela enchente desta semana. Até o fechamento desta reportagem, não havia sido apresentado um balanço consolidado de quantas casas foram inundadas, quantas famílias deixaram as residências, quantas estão em abrigo público e quantas pessoas receberam atendimento nos bairros da várzea.

Adriana Santos mostra o quintal de casa tomado pela água durante a enchente (Foto: Arquivo pessoal/Adriana Santos)
Adriana Santos mostra o quintal de casa tomado pela água durante a enchente (Foto: Arquivo pessoal/Adriana Santos)
Adriana Santos mostra o quintal de casa tomado pela água durante a enchente (Foto: Arquivo pessoal/Adriana Santos)

‘Na minha casa eu perdi tudo’

Para Marinalva da Silva Menezes, de 56 anos, o balanço já é conhecido dentro de casa. Doméstica, ela veio de Alagoas para São Paulo e mora na estrada da Biacica. Já passou por outras cheias, inclusive entre 2009 e 2010 e no ano passado, mas diz nunca ter enfrentado tanta água dentro da residência.

Em 2025, conseguiu erguer os móveis e evitar perdas maiores. Desta vez, tentou colocar sofá e outros objetos sobre blocos, mas a água ultrapassou o nível que esperava. Geladeira, fogão, máquina de lavar, guarda-roupa e outros bens ficaram na água.

“O ano passado veio, eu consegui levantar minhas coisas e deu certo, mas esse ano não deu”, relata. “É uma coisa muito triste de você saber que você perdeu tudo. Meu guarda-roupa está dentro d’água.”

Marinalva deixou a residência e foi para a casa da filha, que mora perto. Quando tentou retornar, já não encontrou condições seguras para entrar. “Nesse momento eu não tenho como entrar em minha casa. Sabe por quê? Porque a água está subindo muito rápido de novo.”

“Na minha casa eu perdi tudo, eu não fiquei com nada”, resume.

Operação da barragem da Penha volta a ser questionada

A permanência da água nos bairros a montante da barragem da Penha reabriu uma discussão que acompanha as enchentes na região. Moradores relacionam o nível prolongado da inundação ao fechamento das comportas. O governo estadual nega que a operação da estrutura seja responsável pelas cheias no Jardim Pantanal, Jardim Helena e bairros vizinhos.

Clarice afirma que moradores foram até a barragem no domingo e encontraram as comportas fechadas. Segundo ela, primeiro uma e depois duas foram abertas, e o nível da água nas ruas começou a cair. “Quando foi mais tarde, abriram duas, a água da rua começou a baixar. Só que eles foram e fecharam novamente. Neste momento, eu estou aqui num local onde dá para a gente observar. Já está enchendo mais”, relatou.

O Brasil de Fato solicitou à SP Águas o histórico de operação das seis comportas entre os dias 9 e 14 de setembro, com horários de abertura e fechamento, grau de abertura de cada estrutura, níveis a montante e a jusante e, se disponíveis, dados de vazão. Até o fechamento desta reportagem, os registros não haviam sido enviados.

Em nota, o governo paulista informou que as seis comportas da barragem são fechadas quando o nível do Tietê a jusante chega à cota de 720 metros. O objetivo, segundo o Estado, é controlar a vazão que segue em direção à região central durante episódios de chuva intensa.

A própria resposta oficial afirma que, com as comportas fechadas, “a água passa a ocupar temporariamente a várzea do Tietê”, em área que se estende até a região da Universidade de São Paulo (USP) Leste. O Estado sustenta, porém, que essa operação não provoca as enchentes.

O vereador Alessandro Guedes (PT), que presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Pantanal na Câmara Municipal, contesta essa conclusão. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele reconheceu o volume excepcional de chuva, mas acusou o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) de proteger a Marginal Tietê e outras vias ao fechar a barragem, transferindo o impacto para as áreas a montante.

Guedes afirma que representantes da SP Águas ouvidos pela CPI negaram relação entre a barragem e as inundações, mas outros técnicos apontaram que o efeito de remanso pode interferir no sistema de drenagem dos bairros. Com os trabalhos da comissão já encerrados, ele informou que o departamento jurídico de seu mandato analisa medidas para cobrar “a abertura pelo menos controlada” das comportas.

Três décadas de enchentes e soluções ainda em discussão

As enchentes atingem os bairros da várzea do Tietê há pelo menos três décadas, com episódios graves registrados desde os anos 1990. Mesmo após obras e intervenções realizadas ao longo dos anos, regiões como Jardim Pantanal, Vila Itaim e Jardim Helena continuaram convivendo com cheias prolongadas, como as de 2009 e 2010, 2017, 2018, 2025 e, agora, 2026.

Foi nesse contexto que a CPI do Pantanal investigou, entre outros temas, controle de cheias, desassoreamento do Tietê, drenagem, funcionamento da barragem, saneamento, ocupação da várzea e alternativas para retenção da água. O relatório final registra que o problema exige atuação articulada entre Município, Estado e União e não pode ser reduzido a ações pontuais de zeladoria ou resposta a emergências.

A comissão também discutiu intervenções de drenagem distribuída, reservatórios, pôlderes e soluções baseadas na natureza, além de diferenciar áreas em que a permanência das famílias pode ser compatibilizada com obras e adaptação daquelas em que o risco torna necessário o reassentamento. O relatório final afirma que a região já acumula diagnósticos suficientes e aponta a demora, a fragmentação entre órgãos e a falta de execução continuada como parte do problema.

O governo estadual afirma que mantém ações de desassoreamento no trecho do Tietê que passa pela região. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, 371,9 mil metros cúbicos de sedimentos já foram retirados do rio na área do Jardim Pantanal, com investimento de R$ 55,8 milhões. A gestão estadual sustenta que a retirada de sedimentos aumenta a capacidade de escoamento e reduz os efeitos das cheias.

A Prefeitura de São Paulo foi consultada sobre os planos de assistência durante e após as enchentes e não respondeu até o momento.

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