Por que o Sul Global precisa de uma política industrial?

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Door Vijay Prashad14/09/2026 às 23:0327 weergaven
Cidade do México, 1949
Cidade do México, 1949
Brasil de Fato

Enquanto o capitalismo limita o Sul Global à extração de matérias-primas e às exportações baratas, o planejamento democrático pode romper com a dependência, reivindicar o controle tecnológico e transformar recursos em poder econômico coletivo.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Durante quarenta anos, os países do Sul Global foram levados a acreditar que o planejamento econômico era um erro. O Estado deveria diminuir, as tarifas alfandegárias precisavam cair, as empresas públicas deveriam ser privatizadas e o investimento ser confiado àqueles que movimentam dinheiro por meio das fronteiras com a velocidade de um clique. O desenvolvimento viria por meio da vantagem comparativa: cada país deveria vender o que já possuía e comprar o que os outros haviam aprendido a produzir. O resultado é visível de Harare a Jacarta. Países ricos em minerais, terras férteis e mão de obra jovem permanecem presos na extremidade menos lucrativa das cadeias globais de valor, exportando matérias-primas e importando os bens de maior valor agregado produzidos a partir delas. Gana, por exemplo, exporta cacau e importa chocolate, enquanto a Venezuela exporta petróleo bruto e importa combustíveis refinados. A riqueza se esvai do Sul Global, enquanto a dívida, a informalidade e a disciplina da austeridade se aprofundam.

Uma política industrial progressista para o Sul Global deve começar com a recusa desse acordo. A “economia” não é um fato neutro ou natural, mas um produto histórico da intervenção colonial, da reestruturação neocolonial, dos regimes de propriedade e dos padrões de acesso à tecnologia e ao capital. As taxas de crescimento são importantes, mas ainda mais importante é a questão do que é produzido, como é produzido, quem controla o processo de produção e como os benefícios são distribuídos. O objetivo do desenvolvimento não deve ser o crescimento em si, mas o florescimento da vida humana.

Charles Sheeler (EUA), Água, 1945.
Charles Sheeler (EUA), Água, 1945.
Charles Sheeler (EUA), Água, 1945.

As instituições que outrora tornaram a política industrial um tabu para o Sul Global — o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — começaram agora a rever suas recomendações. A OCDE, por exemplo, reconhece que as forças de mercado, por si só, não conseguem resolver a baixa produtividade, as cadeias de suprimentos frágeis e as transições verde e digital; poucas empresas arriscariam seu capital em investimentos de longo prazo, a menos que assim fossem obrigadas. O Banco Mundial vai além, argumentando que somente o investimento liderado pelo Estado pode impulsionar a industrialização, inclusive por meio da criação de parques industriais, infraestrutura de transporte, redes de energia e fornecimento de financiamento de longo prazo. O FMI é mais cauteloso: reconhece a importância dos subsídios e da proteção comercial para indústrias nascentes, mas alerta contra a proteção de setores não competitivos. Cada uma dessas instituições agora sugere, sem afirmar explicitamente, a necessidade de planejamento. Acrescentamos que este deve ser democrático e voltado para o bem público. Devemos construir poder popular e capacidade estatal para disciplinar o capital e penalizá-lo quando se recusar a cumprir metas sociais.

Existe uma assimetria reveladora nos antigos argumentos sobre política industrial. Quando os países ricos subsidiam semicondutores, veículos elétricos, indústrias de defesa ou tecnologias verdes, isso é apresentado como “inovação” ou “segurança nacional”. Quando os países pobres tentam processar seus próprios minerais ou proteger indústrias nascentes, são alertados sobre “distorções”, “ineficiência”, “corrupção” e “risco fiscal”. O fato é que o mercado mundial já está planejado por Estados poderosos, empresas transnacionais, regimes de patentes, instituições financeiras e prioridades militares. A verdadeira questão é quem planeja, em benefício de quem e em que nível da cadeia de valor.

Haji Widayat (Indonésia), Perayaan Sekaten di Yogya (Festival Sekaten em Yogya), 1983.
Haji Widayat (Indonésia), Perayaan Sekaten di Yogya (Festival Sekaten em Yogya), 1983.
Haji Widayat (Indonésia), Perayaan Sekaten di Yogya (Festival Sekaten em Yogya), 1983.

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) enfatiza a necessidade de coordenação entre os Estados para que as políticas comerciais, energéticas, de educação e pesquisa, ambientais e as regras de investimento estrangeiro caminhem na mesma direção. Sem coordenação, um governo pode anunciar o processamento local enquanto seu banco central priva a indústria de crédito de longo prazo, seu sistema elétrico deixa as fábricas sem energia e seu regime comercial recompensa as importações. Os argumentos da Unctad são úteis, mas ignoram o problema principal: os capitalistas buscam o lucro, não o bem público.

Uma política industrial que não discipline o capital e o direcione para o bem-estar da sociedade está fadada ao fracasso. Empresas públicas são necessárias para realizar investimentos de longo prazo em áreas socialmente essenciais, nas quais o setor privado não demonstra interesse. Em vez de usar recursos públicos para especulação privada, é muito melhor direcioná-los para instituições públicas capazes de criar mercados regulamentados, incubar novas tecnologias e desenvolver linhas de produção socialmente benéficas. Em última análise, uma política industrial não pode ser sustentável a menos que os países restabeleçam algumas barreiras comerciais e controles de capital. Sem essas medidas, os governos enfrentarão grave escassez de divisas e altos custos fiscais. Com o tempo, essas pressões enfraquecerão as finanças públicas e prejudicarão o desenvolvimento industrial.

Parte da destruição da política industrial no Sul Global ocorreu com o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (Trips) de 1994, que restringiu o espaço político que os países antes utilizavam para imitar, adaptar e desenvolver tecnologias existentes. O Trips dificultou o desenvolvimento de novas tecnologias pelos países em seus próprios termos. É hora de os Estados do Sul Global reconsiderarem o pleno reconhecimento dos direitos de propriedade intelectual. O licenciamento compulsório já permite a produção de medicamentos essenciais quando as necessidades públicas são urgentes. Ferramentas semelhantes devem ser estendidas a outros setores críticos para o desenvolvimento industrial. Isso melhoraria o acesso à tecnologia essencial, fortaleceria a produção nacional e reduziria a dependência de corporações multinacionais.

Gresham Tapiwa Nyaude (Zimbábue), Voos da Imaginação de Maio, 2019.
Gresham Tapiwa Nyaude (Zimbábue), Voos da Imaginação de Maio, 2019.
Gresham Tapiwa Nyaude (Zimbábue), Voos da Imaginação de Maio, 2019.

A política de lítio do Zimbábue é um exemplo importante da perspectiva econômica necessária para a política industrial contemporânea. Em dezembro de 2022, o Decreto 213 proibiu a exportação de minérios contendo lítio ou lítio não refinado sem autorização ministerial. Essa política contraria o senso comum colonial de que o papel de um país africano é extrair e exportar. O país usou o controle sobre um recurso estratégico para pressionar as empresas de mineração a investirem no processamento e a criarem mais valor agregado, qualificação profissional e receita tributária internamente. Esse é exatamente o tipo de medida contra a qual a economia convencional se posiciona. Mas instrumentos tão ousados podem ser necessários quando o sistema vigente faz com que a extração pareça “eficiente” e a industrialização “ineficiente”. A proibição do Zimbábue mudou o cálculo enfrentado pelo capital da mineração: o acesso ao minério passou a exigir cada vez mais investimentos em processamento doméstico. Isso ajudou a impulsionar as empresas a processarem o minério de lítio na forma de um concentrado e, mais recentemente, a planejarem instalações de sulfato de lítio – aproximando o Zimbábue dos insumos para baterias.

A política do Zimbábue deve ser defendida sem romantização. Processar minério em concentrado não é o mesmo que controlar a cadeia de valor das baterias. Empresas estrangeiras ainda dominam a produção. Tecnologia, financiamento e acesso ao mercado permanecem sob o controle de corporações multinacionais. Comunidades locais expressaram preocupação com as condições de trabalho, direitos sobre a terra e a água, e regulamentação deficiente. Proibir a exportação por si só não pode produzir engenheiros, eletricidade confiável, pesquisa pública ou fabricantes nacionais. O próximo passo do país deve, portanto, ser mais profundo e mais transparente: um plano integrado de mineração e manufatura que conecte conhecimento geológico, participação estatal, crédito de bancos de desenvolvimento, educação profissional, processamento químico, produção de componentes, reciclagem e demanda regional. Tal plano precisaria conceder poder institucional às comunidades e aos trabalhadores da mineração e garantir que as receitas públicas construam bens universais, em vez de riqueza privada.

O sucesso do Zimbábue não deve ser medido pelas usinas de processamento, mas sim pela capacidade da política de lítio em contribuir para a construção de novas escolas públicas, hospitais, infraestrutura de água e transporte, redes de energia e outros bens públicos.

Alexander ‘Skunder’ Boghossian (Etiópia), Encruzilhada, 1992–1997.
Alexander ‘Skunder’ Boghossian (Etiópia), Encruzilhada, 1992–1997.
Alexander ‘Skunder’ Boghossian (Etiópia), Encruzilhada, 1992–1997.

A Quarta Década do Desenvolvimento Industrial para a África das Nações Unidas (2026–2035) reconhece a urgência do momento atual. Quase doze milhões de jovens africanos ingressam no mercado de trabalho a cada ano, enquanto a Área de Livre Comércio Continental Africana oferece a escala necessária para construir cadeias de valor regionais. A ONU, corretamente, defende que a África passe da exportação de matérias-primas para a produção de bens de valor agregado. Mas declarações e “projetos financiáveis” não bastam. Como Grieve Chelwa e eu argumentamos em nosso livro, “Como o Fundo Monetário Internacional Estrangula a África” (2026), a África precisa de bancos públicos de desenvolvimento, planejamento continental de infraestrutura, política mineral coordenada, regras de conteúdo local, proteção da indústria nascente e alívio das dívidas externas que drenam a própria capacidade fiscal que a industrialização exige.

Os opositores da política industrial não oferecem uma alternativa neutra. Deixar o investimento nas mãos das corporações multinacionais é aceitar um plano concebido em outro lugar: minas sem indústria, áreas agrícolas sem processamento de alimentos, cidades sem trabalho digno e uma transição verde em que as tecnologias são projetadas no Norte, utilizando minerais extraídos no Sul. A política industrial não é garantia de emancipação, mas pode ser um campo de luta de classes sobre quem controla o investimento, a produção e o excedente econômico. Os povos do Sul Global têm o direito de usar seus próprios recursos para construir o futuro.

A conjuntura atual abriu espaço para o debate sobre a política industrial, em parte porque a longa estagnação que se seguiu à crise financeira de 2008 tornou as antigas prescrições cada vez mais insustentáveis. Após décadas em que o planejamento foi desacreditado e a capacidade estatal foi enfraquecida, os países do Sul Global precisam ter a audácia de imaginar algo melhor do que o acordo que lhes foi imposto. Existe um antigo provérbio Shona, do Zimbábue, que talvez seja útil lembrar: Chawawana batisisa mudzimu haupi kaviri – o que você encontrou, guarde com carinho, pois os ancestrais não dão duas vezes.

Cordialmente,

Vijay

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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