A esquerda das Américas tenta recobrar forças através dos parlamentos

מאת Armando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales, UNIR - Universidad Internacional de La Rioja15/09/2026 às 13:475 צפיות
O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, discursa durante o último Congresso Pan-Americano, em Montevidéu: criado em 2024 em Bogotá e repetido em 2025 no México, o fórum busca um diálogo mais equilibrado entre norte e sul, num momento em que a direita ocupa a maior parte dos governos democráticos das Américas.
          Foto: Divulgação /Congresso Pan-Americano
O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, discursa durante o último Congresso Pan-Americano, em Montevidéu: criado em 2024 em Bogotá e repetido em 2025 no México, o fórum busca um diálogo mais equilibrado entre norte e sul, num momento em que a direita ocupa a maior parte dos governos democráticos das Américas. Foto: Divulgação /Congresso Pan-Americano
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

No fim de agosto, o Palácio Legislativo de Montevidéu recebeu o terceiro Congresso Pan-Americano, encontro que reuniu mais de cem legisladores, ex-presidentes e dirigentes de quinze países, do Canadá ao Chile. O lema era direto: solidariedade entre os povos, soberania entre as nações.

Estiveram ali a vice-presidenta uruguaia Carolina Cosse, o ex-presidente chileno Gabriel Boric, o ex-presidente colombiano Ernesto Samper, a congressista norte-americana Pramila Jayapal e, pelo Brasil, o senador Humberto Costa (PT-PE). Criado em 2024 em Bogotá e repetido em 2025 no México, o fórum busca um diálogo mais equilibrado entre norte e sul, num momento em que a direita ocupa a maior parte dos governos democráticos das Américas.

A reunião foi um exercício de quem perdeu eleições e ainda controla fatias do poder legislativo. Enquanto a Conferência de Ação Política Conservadora ajudou a projetar figuras como Javier Milei, na Argentina, e José Antonio Kast, no Chile, a esquerda democrática tenta reconstruir uma rede própria.

Alvo foi a ‘Doutrina Donroe’

O alvo declarado é o que Donald Trump chamou de Doutrina Donroe: a atualização da velha Doutrina Monroe, formalizada na Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025 como um “Corolário Trump”. O documento afirma a intenção de restaurar a preeminência norte-americana no hemisfério ocidental e de impedir que rivais extra-hemisféricos controlem ativos estratégicos na região.

Essa linguagem choca com o direito que o Brasil e seus vizinhos juram cumprir. A Carta das Nações Unidas consagra a igualdade soberana dos Estados e proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial de qualquer país. A Carta da Organização dos Estados Americanos eleva a não intervenção a princípio essencial da convivência continental.

A Constituição de 1988 manda o Brasil reger-se, nas relações internacionais, pela independência nacional e pela não intervenção. Em 1986, a Corte Internacional de Justiça, no caso Nicarágua contra os Estados Unidos, reafirmou que cada Estado decide livremente seu sistema político e sua política externa. O pensamento latino-americano de relações internacionais insiste que autonomia não é retórica para países situados no chamado “quintal estratégico de Washington”.

Legisladores apostam nos parlamentos para remover tarifas

A novidade de Montevidéu está no método. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum defenderam a soberania, mas abriram diálogo para tentar remover tarifas e prevenir ação militar em seus territórios. Longe dos holofotes, legisladores progressistas apostam no parlamento.

No Equador, a campanha da oposição ajudou a derrotar, em referendo de 16 de novembro de 2025, a proposta de autorizar bases militares estrangeiras: cerca de 60,6% dos votos foram contra. Na Argentina, parlamentares investigam acordos econômicos opacos de Milei com Trump. Nos Estados Unidos, congressistas questionam ataques a embarcações no Caribe. Como observou o deputado chileno Gonzalo Winter, nos países governados pela direita as principais ferramentas da oposição progressista são os legislativos nacionais.

Estudos sobre parlamentos regionais mostram que assembleias continentais costumam ter papel apenas consultivo. Daí o esforço de aproximar parlamentares de diferentes nações, inclusive a ideia, ventilada a portas fechadas, de uma rede regional de alerta rápido quando a soberania de um país estiver ameaçada.

O Congresso Pan-Americano se distingue do Foro de São Paulo, nascido em julho de 1990 do diálogo entre Lula e Fidel Castro, que reuniu dezenas de delegações da esquerda latino-americana. Aquele espaço conviveu com a defesa de modelos autocráticos em Cuba, Nicarágua e Venezuela, e foi marcado pelo protagonismo masculino.

O encontro uruguaio enfatiza a democracia, teve mulheres à frente da organização e debateu o trabalho de cuidado, a regulação das grandes empresas de tecnologia e uma política industrial verde, alinhada ao impulso ambiental da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e à sociedade do cuidado, que trata o cuidado como direito, igualdade de gênero e motor da economia do cuidado. Há, ainda, autocrítica: o deputado mexicano Alfonso Ramírez Cuéllar advertiu que corrupção e segurança seguem temas mal resolvidos, dos quais a direita se apropria.

Nada disso garante um regresso ao Planalto, à Casa Rosada ou a La Moneda. A polarização que atravessa a região enfraquece partidos e favorece personalismos. Muitos participantes de Montevidéu estão longe do poder executivo. A relação entre executivo e legislativo na América Latina costuma privilegiar presidentes, o que dificulta transformar uma rede de legisladores em maioria eleitoral. O sistema interamericano de direitos humanos permanece um recurso quando a política se estreita.

Mesmo assim, o encontro importa para o Brasil. O país vive a contradição de um governo de esquerda que negocia com Washington enquanto seus parlamentares progressistas se articulam para contestar a doutrina intervencionista.

Ideias hoje minoritárias nos palácios podem voltar pela porta do Congresso. A pergunta é se essa porta basta quando o poder, no hemisfério, se mede cada vez mais por tarifas, bases e a capacidade de impor uma esfera de influência.

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Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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The Conversation Brasil
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