Tarifas dos EUA jogam o Canadá 'nos braços da China' e prejudicam a própria economia norte-americana

16/09/2026 às 16:4525 بازدید
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Parceiros comerciais e diplomáticos históricos, EUA e Canadá vivem sua maior ruptura em décadas, após o fracasso da negociação para conter as tarifas de 50% sobre US$ 20 bilhões (cerca de R$ 102,8 bilhões) em produtos canadenses aplicadas pelo presidente estadunidense, Donald Trump.
Diante do fracasso nas negociações, o governo canadense optou pela retaliação e anunciou tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que a antiga relação econômica entre os países "não vai voltar", abrindo caminho para a diversificação do comércio para além dos EUA.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Ana Carolina Marson, professora e doutora em relações internacionais, avalia que a situação "é de se espantar" porque a relação dos EUA com o Canadá sempre foi pacífica, enquanto a mais conflituosa era com o México.
"O Canadá parecia até um pouco apagado, quase que esquecido, exatamente essa imagem do vizinho não problemático, o que nos leva à pergunta: o que aconteceu? O fator de mudança foi a reeleição do Donald Trump. A subida do Trump de volta ao poder que trouxe consigo o acirramento das políticas comerciais apertou mais o cerco comercial, e ele fez isso em relação ao Canadá também", afirma.
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Ela acrescenta que a deterioração da relação entre os países é calcada na questão comercial, porque historicamente eles não têm outros problemas.
"Até mesmo quando nós olhamos para a própria fronteira, a fronteira entre EUA e México é fortemente guardada, enquanto a fronteira entre EUA e Canadá é literalmente uma linha imaginária. A não ser por pontos de marcação, é passagem facilitada entre esses dois territórios."
Marson destaca que EUA, México e Canadá chegaram a elaborar um acordo comercial que substituiu o antigo NAFTA: o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês), aprovado em 2019 e colocado em vigor em 2020. Mas o acordo está paralisado por conta do viés isolacionista do governo Trump, que enxerga na interdependência entre economias uma vulnerabilidade e prioriza acordos bilaterais.
"Isso perpassa a própria política externa trumpista, que é essa ideia antiglobalista. Hoje, no cenário internacional, nós vivemos a chamada interdependência econômica. Todos os países dependem uns dos outros em maior ou menor medida. Nenhum país produz 100% daquilo que consome", observa.
Ela diz que Trump traz consigo um discurso de trazer de volta para os EUA empregos que ele considera que foram perdidos por conta dessa interdependência e cita como exemplo a indústria automobilística.

"A indústria automobilística entre Canadá e EUA está altamente integrada. Então, um carro, para ser finalizado, ele vai e volta, cruzando a fronteira várias vezes. Por que, na visão do Donald Trump, isso é negativo? Porque são empregos que estão no Canadá, e não nos EUA."

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Nesse contexto, avalia Marson, o Canadá atua como um país complementar na cadeia produtiva dos EUA, mas para uma pessoa como Trump, que é contra o movimento de globalização, as cadeias globais de valor se tornam uma vulnerabilidade.
Ela ressalta que a integração econômica, de fato, pode trazer alguma vulnerabilidade, mas que a solução não é se fechar, e sim iniciar uma discussão conjunta de melhoria dessas cadeias globais de valor. Porém, em vez de ir à mesa de negociação com o Canadá, os EUA acabam criando mais um ponto de tensão, que é agravado por conta de provocações de Trump postadas nas redes sociais, afirmando, por exemplo, que fará do Canadá o 51º estado dos EUA e mudando o nome do Lago Ontário para "Lago América".
Como consequência, o Canadá se afasta cada vez mais dos EUA e se aproxima da China, que Marson destaca estar ocupando os vácuos comerciais deixados em vários países por conta da política tarifária da atual gestão americana.
"O Canadá está importando da China produtos que antes importava dos EUA. Então, além da mudança gradual que já vem acontecendo por causa do crescimento tecnológico chinês, agora os EUA estão empurrando o Canadá para os braços da China."
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Yasmin Reis, pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Escola de Guerra Naval (EGN) e doutoranda no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, frisa que a ruptura entre EUA e Canadá ultrapassa a questão comercial.

"É importante também a gente ver que é um rompimento que pode ser no âmbito geopolítico, principalmente pelo âmbito da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], que é o principal, a integração que vai além do comercial e do econômico, sendo uma ruptura dentro desse escopo principalmente", afirma.

Outro ponto destacado pela pesquisadora é a mensagem de instabilidade que a atuação dos EUA em relação ao Canadá, tradicionalmente um aliado de Washington, passa para outros países.
"Instabilidade em relação a uma ordem de integração, e que vai prevalecer, pelo menos durante o governo Trump, uma ordem econômica mais direcionada a uma relação bilateral, em que os EUA pressionarão seus parceiros a atender medidas favoráveis à sua política comercial, não prevalecendo a própria política que vai visar o benefício do comércio esperado para ambas as partes."
Ela afirma ainda que a China não é a única alternativa procurada pelo governo canadense em sua diversificação de parcerias para reduzir a dependência dos EUA, mas também a União Europeia (UE).
"O Canadá, na busca da sua resiliência, vai explorar as relações com a União Europeia, inclusive, na semana do dia 14 de setembro, o primeiro-ministro canadense foi a Estraburgo buscar um diálogo e discursar no Parlamento Europeu, buscando aumentar essa sua resiliência e retomar, de certa forma, um laço mais profundo com a União Europeia como uma alternativa", destaca.
Reis avalia que a movimentação canadense deveria preocupar o governo Trump, sobretudo diante da proximidade das eleições legislativas, nas quais o Partido Republicano, do líder norte-americano, corre o risco de perder espaço para o Partido Democrata.

"Tem dois estados, o Maine e o Michigan, que fazem fronteira com o Canadá e que estão dentro dessa disputa, porque o Canadá é para onde a maior parte das suas exportações são direcionadas. E um aumento do preço, domesticamente, teria um impacto mais amplo não só na disputa, mas pelas questões das empresas e dos empregos, o que faria com que a própria sociedade estadunidense tivesse uma percepção de que a economia não estaria indo tão bem."

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