Na sua obra ‘1984’, Orwell refere que ‘quem controla o passado controla o futuro’. As eleições presidenciais de 2026 no Brasil nos permitem observar claramente a forma como as disputas em torno do passado recente e seus usos políticos são articulados por diferentes candidaturas. Afinal, as manifestações dos candidatos representam não apenas propostas antagônicas de país para os mandatos que iniciam em 2027, mas também visões divergentes sobre como podem ser encarados acontecimentos da dinâmica política brasileira dos últimos anos.
Uma palavra emerge do mar de propostas e disputas articuladas desde antes do início do período eleitoral. Faço referência, aqui, à palavra ‘anistia’, termo que nos remete a uma espécie de encruzilhada política, na qual perspectivas conflitantes sobre passado, presente e futuro se tornam bastante concretas.
Sobre passado, porque o termo remete ao período da ditadura iniciada com o Golpe de 1964 assim como à Lei que, em 1979, estabeleceu as bases para a impunidade e o esquecimento dos crimes cometidos em nome da Segurança Nacional. Sobre o presente, porque dialoga com as tentativas (recentes) de garantir a impunidade dos envolvidos nos atos de 08/01, articulação golpista interrompida em 2023. Sobre o futuro, porque sinaliza aquilo que as candidaturas projetam em termos de enfrentamento do tema.
Passado, presente e futuro instrumentalizados na campanha
Isso pode ser observado no conteúdo da propaganda eleitoral, gratuita ou não, que tem sido veiculada por presidenciáveis e seus apoiadores. Mas pôde ser visualizado, também, em sabatinas como as realizadas no Jornal Nacional a cada pleito, e à qual têm sido submetidos alguns dos candidatos à presidência. Telejornal de ampla repercussão transmitido no país há décadas, o Jornal Nacional constitui mais um espaço no qual ‘passado’, ‘presente’ e ‘futuro’ foram instrumentalizados em termos políticos durante as eleições.
Respondendo às perguntas dos jornalistas sobre temas diversos da política brasileira, e, em alguns momentos, sobre seus planos de governo, alguns dos candidatos foram inquiridos sobre o 08/01. O panorama não foi nada surpreendente, uma vez que apenas reiterou aquilo que a polarização e manifestações anteriores já sinalizavam. Ou seja, candidatos mais à direita tendem a interpretar a anistia como um caminho para o esquecimento dos atos golpistas e para a impunidade.
Ronaldo Caiado (PSD) e Flávio Bolsonaro (PL) foram os mais assertivos em sua defesa, apelando para a ideia de pacificação através da libertação imediata de todos os envolvidos, e, especialmente, os já condenados, entre eles o ex-presidente e a cúpula golpista. Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante), por sua vez, não tiveram a mesma clareza.
Cury disse que o tema poderia ser analisado por uma comissão de juristas futuramente. Zema tentou relativizar os atos cometidos em janeiro de 2023, sendo interpelado de forma bastante incisiva pela entrevistadora Renata Vasconcellos, que listou para o candidato todos os crimes dos quais foram acusadas as pessoas julgadas pela na invasão da sede dos Três Poderes. Apesar da falta de clareza ou assertividade em comparação a Caiado e Bolsonaro, tais falas deixaram transparecer sua tendência a pensar no que aconteceu como algo menor no rol de suas preocupações imediatas.
O fato, em última análise, é que todos os candidatos posicionados mais à direita do espectro político convergem, ainda que nas entrelinhas, para uma narrativa que relativiza a gravidade dos crimes cometidos em Brasília, ou, até mesmo, nega o cometimento de crimes por parte dos acusados e condenados. As críticas, veladas ou não, ao Supremo Tribunal Federal (STF), são mais uma peça do mosaico no qual passado recente e futuro se entrelaçam. Entre ditos e não ditos.
Pensar sobre como candidatos lidam com o passado é tão relevante quanto analisar planos de governo.
O único candidato mais à esquerda do espectro político levado à bancada do Jornal Nacional, ou seja, o presidente Lula (PT), possui atualmente um posicionamento público claramente contrário à anistia dos envolvidos na articulação golpista que tentou dar fim ao seu novo governo. Seria no mínimo curioso se sua posição fosse diferente. Em sua sabatina, o presidente-candidato não foi inquirido sobre a questão.
A ausência de um posicionamento de Lula sobre o tema da anistia na bancada do Jornal Nacional não é o que importa. O que merece uma reflexão é que essa não deve ser encarada como uma preocupação menor no horizonte dos resultados das urnas. Pensar sobre como os principais candidatos ao cargo de presidente articulam em suas campanhas temas imbricados ao passado recente do país é, talvez, tão relevante quanto analisar outras propostas estabelecidas em seus planos de governo.
No jogo acelerado em busca de votos, a disputa em torno da anistia para os crimes do 08/01 está mais conectada com outros momentos dramáticos da história política do país do que, a priori, pode parecer. Dito em outras palavras, aquilo que for feito em relação a janeiro de 2023 e, consequentemente, a memória que for estabelecida sobre tais acontecimentos, possui estreita conexão com a forma como enfrentamos coletivamente as consequências de articulações golpistas anteriores, sejam elas as que saíram vitoriosas em abril de 1964 ou, quem sabe, em agosto de 2016.
Quem controlar (a narrativa) sobre o passado controlará (fixará os limites) do seu projeto de futuro. Em outubro, as urnas dirão qual passado/futuro parte do eleitorado brasileiro escolheu. Será com anistia e impunidade. Ou sem anistia e mais democracia.

Carlos Artur Gallo não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
