O futuro das periferias em disputa

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作者 Paulo Talarico / Sarah Fernandes04/10/2026 às 14:2479 浏览

A disputa acirrada entre os candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) até o último dia da campanha eleitoral coloca em foco uma pergunta central para as periferias: qual deve ser o papel do Estado para reduzir desigualdades e formular políticas públicas?

Para nós, que vivemos em territórios periféricos, a decisão deste domingo (4) não fica restrita aos programas de governo. Elas são concretas, no tempo gasto para chegar ao trabalho, na qualidade do transporte público, no acesso à saúde e à educação, na possibilidade de viver em uma moradia adequada e ter segurança alimentar.

Ao longo dessa campanha eleitoral, a Mural mostrou como as periferias se mobilizaram, em uma disputa mais “morna” pelas ruas do que o normal e, infelizmente, com pouca discussão sobre as propostas do que será feito no futuro. A visão do que são os programas de cada candidato ficou de lado em meio ao noticiário focado em polarização barata e um amplo ruído das redes sociais. 

Isso tudo esconde a importância de refletir sobre os programas apresentados pelos dois candidatos, que partem de diagnósticos e caminhos diferentes. São visões distintas sobre o papel do poder público diante das históricas (e vergonhosas) desigualdades sociais brasileiras.

Quando o projeto de Lula defende maior investimento estatal e políticas universais, está propondo uma forma de enfrentar a precariedade. Quando o de Flávio prioriza a redução do Estado e respostas mais centradas na segurança, apresenta outra leitura sobre os problemas e sobre como enfrentá-los.

Eleições nas periferias transcorreram com tranquilidade pela manhã @Léu Britto/ Agência Mural
Eleições nas periferias transcorreram com tranquilidade pela manhã @Léu Britto/ Agência Mural

Eleições nas periferias transcorreram com tranquilidade pela manhã @Léu Britto/ Agência Mural

É preciso perguntar, então: como cada projeto afeta os moradores das periferias? Uma política de segurança pode proteger vidas ou ampliar a exposição de determinados grupos à violência? Um programa habitacional deve reconhecer o direito à cidade ou tratar os territórios como áreas a serem controladas? Uma política econômica pode fortalecer serviços públicos ou reduzir sua capacidade de atender quem mais depende deles?

As respostas passam também pelas 594 cadeiras em disputa no Congresso Nacional, onde deputados e senadores definem leis, fiscalizam o Executivo e controlam uma parcela cada vez maior do orçamento público. A composição do Parlamento pode ampliar direitos, impedir retrocessos ou dificultar a implementação de medidas voltadas à redução das desigualdades.

Por isso, mais do que nunca, é importante que nós, moradores das periferias, também estejamos lá, ocupando esse espaço que nos foi historicamente negado – como bem mostramos na nossa cobertura da campanha eleitoral. Muitos dos concorrentes das quebradas enfrentaram uma disputa desleal, com baixo financiamento, falta de apoio partidário e dificuldade de colocar a campanha na rua.

A situação pode ser pior ainda entre alguns grupos: reportagem da Mural mostrou que candidatos com deficiência correspondem a apenas 2,5% do total de candidaturas, enquanto as pessoas com deficiência representam 7,2% da população brasileira. Na corrida eleitoral, não contam com cotas nem fundo partidário.

O analista de dados Nelson Ramos, 31, aproveita as eleições para reencontrar velhos amigos em Guainases, na zona leste de São Paulo @Carlos Pires
O analista de dados Nelson Ramos, 31, aproveita as eleições para reencontrar velhos amigos em Guainases, na zona leste de São Paulo @Carlos Pires

O analista de dados Nelson Ramos, 31, aproveita as eleições para reencontrar velhos amigos em Guainases, na zona leste de São Paulo @Carlos Pires

O mesmo ocorre com as candidaturas LGBTQIAPN+ das periferias, que apesar de aumentar em número, ainda enfrentam falta de recursos, pouca visibilidade e preconceito; ou com as mulheres periféricas, em especial as negras e mães, que precisam dividir o tempo entre reuniões políticas, atos de rua, atividades escolares, consultas médicas e organização da casa, sem apoio partidário.

Quando as pessoas diretamente afetadas por barreiras de acessibilidade, racismo, LGBTfobia e desigualdade territorial permanecem distantes dos espaços de decisão, suas experiências continuam sendo tratadas como problemas particulares, e não como questões de interesse público.

A defesa das periferias exige, portanto, mais do que promessas de campanha. É preciso políticas contínuas, orçamento transparente, participação popular e representantes comprometidos com a dignidade das pessoas que vivem nestes territórios.

A polarização torna essa tarefa mais difícil, mas também evidencia o que está em disputa. É preciso observar as consequências de cada projeto para a vida concreta da população e perguntar: que país minha escolha ajudará a construir? E para quem ele será?

As quebradas não são espectadoras dessa disputa. São territórios que produzem informação, organização, lideranças e propostas para enfrentar desigualdades e ampliar direitos.

A democracia só se constrói com as periferias porque é nelas que se mede a capacidade de um projeto político transformar direitos escritos em direitos vividos. Em uma eleição marcada por dois caminhos tão distintos, defender esses direitos é também defender a própria democracia.

Agência Mural

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