As eleições de 4 de outubro de 2026 ampliaram a presença da extrema-direita no Congresso, com o PL elegendo 121 deputados e 19 senadores. O resultado consolida uma transformação iniciada nas manifestações de 2013. E aprofundada pela crise de representação, pelo impeachment de 2016 e pela eleição de Bolsonaro em 2018.
Em 2022, o bolsonarismo ampliou sua presença parlamentar e, em 2026, alcançou nova dimensão institucional.
Mais que uma mudança partidária, o resultado expressa a articulação de diferentes valores, experiências, afetos e interesses.
O desafio sociológico é compreender como esses elementos entraram em ressonância e contribuíram para esse novo cenário político.
Uma explicação do voto centrada apenas na renda ou na classe social é insuficiente para compreender o percurso para a extrema-direita da sociedade brasileira.
Condições materiais semelhantes podem ser vivenciadas e interpretadas de maneiras distintas. Receber benefícios sociais, ter acesso à universidade ou conquistar maior poder de consumo não determina, por si só, a identificação com a esquerda.
Essas podem coexistir com discursos de empreendedorismo, combate a violência e, também, rejeição a um partido.
Máquina de ressonância
É nesse ponto que a ideia de “máquina de ressonância”, formulada pelo cientista político William E. Connolly (1938–2026), em um artigo publicado no periódico Political Theory, nos ajude a interpretar o sucesso eleitoral do bolsonarismo nos últimos pleitos.
A questão de partida é a seguinte: como grupos diferentes podem estabelecer conexões políticas a partir de disposições, afetos e sensibilidades que se reforçam mutuamente?
Uma máquina de ressonância não funciona porque todos pensam iguais. Mas porque elementos diferentes passam a se reforçar: uma mensagem encontra uma experiência, que encontra um sentimento e uma narrativa.
Nas eleições de 2026, essa perspectiva ajuda a compreender como individualismo, mercado, desconfiança do Estado, autoridade, segurança, religião, ressentimento e antipetismo puderam convergir sem formar um Congresso mais conservador.
Um dos componentes do antipetismo, por exemplo, é a corrupção atribuída ao PT, convertida em forte marcador moral. Sua aplicação, porém, é seletiva, pois não impediu o voto em outras candidaturas quando identidades, antagonismos e valores entram em ressonância.
Um bom exemplo é que, mesmo diante de sucessivas denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), incluindo as investigações sobre o financiamento do filme Dark Horse, sua identificação política permaneceu articulada a valores, antagonismos e pertencimentos já consolidados.
Nas eleições de 2026, a moralidade pública não operou, portanto, como critério universal, mas como repertório seletivamente mobilizado para esta candidatura de extrema-direita.
A ressonância permite compreender justamente como diferentes valores e interesses podem se articular. O julgamento eleitoral resulta menos da avaliação isolada das condutas e mais de processos sociais de identificação e construção de fronteiras políticas.
Máquina de amplificação política
As redes digitais ampliaram essa capacidade de conexão. Discursos, imagens, denúncias, memes e indignações circulam rapidamente entre públicos diferentes.
A repetição produz familiaridade e reconhecimento, facilitando a circulação de novas mensagens. Pesquisas sobre o ambiente digital ajudam a compreender essas dinâmicas na formação de públicos políticos no Brasil.
O bolsonarismo, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como uma ideologia. Pode ser observado como uma máquina de amplificação política.
Diferentes experiências são conectadas por narrativas. Diferentes afetos são reforçados por essas narrativas. As redes aceleram o processo. Lideranças políticas condensam essas conexões.
Isso ajuda a compreender a permanência eleitoral do fenômeno como reprodução social de repertórios que continuam circulando. Além de serem reinterpretados e apropriados por diferentes grupos.
Empiricamente, a ressonância pode ser observada quando discursos políticos encontram valores e experiências previamente compartilhados e passam a orientar percepções, identificações e escolhas eleitorais.
No campo religioso, por exemplo, segmentos de católicos e evangélicos conservadores podem reconhecer em discursos sobre família, vida, costumes, autoridade e ordem social. Elementos que correspondem às suas próprias referências morais.
A ressonância se manifesta, assim, não apenas na presença desses valores no discurso. Vai além na sua capacidade de produzir identificação e se traduzir em apoio eleitoral. E isso se dá na forma de articular grupos socialmente distintos em torno de repertórios políticos comuns.
Bancada de centro-esquerda
Mas o resultado também exige olhar para o desempenho das forças de centro-esquerda. A federação PT-PCdoB-PV elegeu 82 deputados, seis a menos que em 2022. E permanecerá como a segunda maior bancada da Câmara. No Senado, o PT elegeu seis parlamentares e chegará a nove senadores em 2027.
Esses números não autorizam concluir simplesmente que a sociedade brasileira tenha rejeitado esse espectro político.
O problema sociológico é outro: por que uma força política, tal como o PT, que mantém presença institucional, bases sociais e políticas públicas reconhecidas encontrou dificuldades para transformar esses recursos em uma capacidade de mobilização comparável à da extrema-direita nas eleições em 2026?
A resposta não está apenas no conteúdo das propostas.
Existe uma diferença entre produzir políticas públicas e produzir identificação política. Emprego, renda, transferência de renda, acesso à universidade e ampliação de direitos podem modificar concretamente as condições de vida.
Mas o significado dessas mudanças não é dado de antemão. Uma mesma experiência pode ser interpretada como resultado da ação do Estado, do esforço individual, da família ou de uma combinação desses fatores.
É justamente nessa disputa de interpretações que aparece um dos desafios da esquerda. A política social pode produzir efeitos materiais sem necessariamente produzir identificação duradoura com quem a institui.
Um benefício recebido pode ser incorporado à trajetória individual e, ao mesmo tempo, ser interpretado a partir de valores de autonomia, empreendedorismo ou mérito. A melhoria das condições de vida não determina automaticamente uma orientação política.
Isso ajuda a compreender por que o debate eleitoral não pode se limitar à pergunta sobre quem se beneficia economicamente de determinada política.
É preciso perguntar também como esse benefício é percebido, narrado e incorporado à experiência cotidiana. A política transforma condições sociais, mas os sujeitos atribuem sentidos diferentes a essas transformações.
Nesse aspecto, a centro-esquerda pode ter dificuldades quando suas políticas são apresentadas como resultados administrativos ou econômicos.
Rejeição ao establishment político
Desde 2018, a extrema-direita no Brasil conecta questões materiais às narrativas sobre moral pública, pertencimento e rejeição ao establishment político.
Isso não significa que exista uma mensagem única ou que os eleitores compartilhem os mesmos valores e os políticos propõem soluções simples para problemas complexos, como no caso da violência.
O desempenho eleitoral de 2026, portanto, não deve ser lido apenas como crescimento da extrema-direita.
Ele também coloca uma questão sobre a capacidade da centro-esquerda de produzir novas formas de conexão política com a sociedade. Quais experiências sociais ela consegue interpretar? Quais afetos consegue mobilizar? Quais políticas públicas consegue transformar em narrativas de pertencimento? Quais sentidos atribuídos à vida cotidiana consegue disputar nas redes digitais?
Nova etapa em 2027
A partir de 2027, começa outra etapa. O PL terá a maior bancada da Câmara e do Senado, mas não terá sozinho o controle das Casas. Outras forças serão necessárias para formar maiorias e aprovar projetos.
A ressonância eleitoral terá de se transformar em negociação parlamentar. Uma convergência construída nas urnas não elimina divergências entre partidos.
Interesses regionais, posições econômicas e disputas institucionais podem aproximar ou afastar essas forças. A polarização eleitoral pode conviver com pragmatismo institucional.
O resultado de 2026 não deve ser visto como ponto final. Ele é uma condensação provisória de processos que continuam em movimento.
A sociedade produz experiências; a política as transforma em narrativas; os afetos reforçam pertencimentos; as redes digitais aceleram a circulação; os eleitores transformam essas conexões em votos. Depois, esses se transformam em cadeiras e essas produzem decisões.
O desafio analítico está, portanto, em compreender por que determinados elementos entram em ressonância e conseguem ser convertidos em votos, enquanto outros encontram maior dificuldade de produzir a mesma conexão.

Péricles Andrade não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
