
“Tudo que temos a decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”. A frase, de autoria de Gandalf, personagem fictício de “O Senhor dos Anéis”, estampou o slide projetado na parede da sala 1305 do anexo C do Centro de Tecnologia (CT). Quem escolheu a sentença foi o psicólogo Raphael Pretzel Vizzotto, aficionado por referências da cultura pop. Na manhã desta terça-feira (5), ele conversou com pouco mais de 20 estudantes sobre gestão do tempo e organização da rotina.
A palestra estava originalmente prevista para 29 de setembro, mas foi cancelada em razão das fortes chuvas. Por sugestão da professora de Engenharia Civil Tatiana Cervo, o encontro foi reagendado para ocorrer junto à aula da disciplina complementar de graduação (DCG) Engenharia da Vida e Desenvolvimento Humano, ofertada pela primeira vez em 2026.
Idealizada por Tatiana, que foi vice-diretora do CT por oito anos, a disciplina surgiu a partir de demandas identificadas pelo Setor de Apoio Pedagógico (SAP) do centro. “Dividimos os conteúdos em autoconhecimento, trabalho em equipe, oratória e a questão de organização do próprio tempo”, explica a docente. Hoje, a turma reúne estudantes das engenharias Civil, Elétrica, Ambiental e Sanitária, Mecânica e de Telecomunicações.
Aos 30 anos, Raphael Vizzotto formou-se em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), no fim de 2025, e trabalha com gestão de tempo. Durante a graduação, fez estágio extracurricular no SAP do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UFSM, onde passou a atuar como voluntário no projeto Vinculla, iniciativa da universidade voltada à promoção da saúde mental e ao apoio psicopedagógico dos estudantes nos centros da instituição.
“Nunca fizemos tanto com tão pouco tempo”

Na abertura da palestra, Vizzotto chamou atenção para a relação entre cobrança e produtividade. Segundo ele, a sociedade passou de um cenário em que a cobrança vinha principalmente de instituições como escola, faculdade e trabalho para outro em que as próprias pessoas passaram a exigir cada vez mais de si mesmas. “Deixamos de viver numa sociedade onde somos cobrados, seja pela escola, faculdade ou chefes, e passamos a cobrar excessivamente a nós mesmos”, aponta. “A gente vive num momento histórico singular em que nunca fizemos tanto com tão pouco tempo.”
Para o psicólogo, lidar com essa realidade exige planejamento. Ao discutir a relação entre tempo e produtividade, ele apresentou a Lei de Parkinson, conceito segundo o qual uma tarefa tende a ocupar todo o tempo disponível para sua realização. Criada pelo historiador britânico Cyril Northcote Parkinson, a ideia foi publicada em 1955 em um artigo na revista The Economist. Vizzotto relaciona o fenômeno a comportamentos que podem passar despercebidos no cotidiano. Entre eles, estão o perfeccionismo, a dificuldade de filtrar distrações e a falta de clareza sobre o que deve ser priorizado.
Planejar, porém, não significa ignorar as diferenças entre as pessoas. Vizzotto ressaltou que a realidade de cada indivíduo interfere diretamente na forma como o tempo pode ser administrado. “O tempo passa e não é igual para todo mundo”, defende. Para ele, não é justo cobrar a mesma performance de pessoas que vivem contextos diferentes. “A internet de um não tem a mesma velocidade que a do outro, nem todos conseguem vir de carro para a universidade”, exemplifica.
A estudante Nice Mendes, de 21 anos, acompanhou a palestra com atenção. Pernambucana, ela cursa o oitavo semestre de Engenharia Civil e está matriculada na DCG de Tatiana Cervo. Nice se define como uma “procrastinadora” e diz ter encontrado caminhos para lidar com a própria rotina. “Eu achei importante a questão de estabelecer os objetivos e como podemos dividir esse objetivo em tópicos para conseguir cumprir cada etapa”, conta.
O urgente e o importante

Estabelecer objetivos é justamente a primeira de quatro ações que, segundo Vizzotto, compõem um planejamento eficiente. As demais são definir o que precisa ser feito, elencar prioridades e manter o foco. Para o psicólogo, definir o que é prioritário está entre as etapas mais importantes.
É nesse momento que entra a Matriz de Eisenhower, ferramenta de produtividade e gestão do tempo que auxilia na definição de prioridades a partir de dois critérios: urgência e importância. A combinação dos dois fatores distribui as tarefas em quatro quadrantes (conforme a imagem ao lado), indicando o que deve ser feito, agendado, delegado ou eliminado.
Apesar de oferecerem um caminho, essas estratégias, segundo Vizzotto, não são garantias de bons resultados, “mas aumentam a chance de entregar algo melhor”. Perto do encerramento da palestra, Tatiana fez uma pergunta que parecia resumir uma das principais dificuldades discutidas durante o encontro: “Tem alguma regra para não procrastinar?” Com honestidade, Vizzotto brincou: “Se eu soubesse…” Em seguida, completou: “A melhor regra para não procrastinar é fazer”.
O conselho, porém, não veio acompanhado de uma promessa de controle absoluto sobre a rotina. Para Vizzotto, organizar o tempo também significa reconhecer que nem tudo pode ser previsto. “A vida acontece, não adianta querer se prender num roteiro, expectativas e ideias rígidas porque isso é a receita da frustração”, pontua.
Texto: Pedro Moro, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotos: Mathias Ilnicki, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Lucas Casali