Encontros e desencontros: as questões de fundo da relação Brasil-Argentina — Insubornavel

Encontros e desencontros: as questões fundamentais na relação Brasil-Argentina

Por FESPSP07/08/2026 às 22:105 visualizações
Apesar de assumirem maior projeção agora, desentendimentos entre os presidentes da Argentina e do Brasil ocorrem há algum tempo. Começaram em 2019, com o desalinhamento ideológico dos governos de Alberto Fernández e Jair Bolsonaro. Agora seguem entre Lula e Milei, em polos invertidos.
          AP Photo/Natacha Pisarenko
Apesar de assumirem maior projeção agora, desentendimentos entre os presidentes da Argentina e do Brasil ocorrem há algum tempo. Começaram em 2019, com o desalinhamento ideológico dos governos de Alberto Fernández e Jair Bolsonaro. Agora seguem entre Lula e Milei, em polos invertidos. AP Photo/Natacha Pisarenko
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

Desde a participação do presidente argentino, Javier Milei, no lançamento da campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro em julho de 2026, sucederam-se uma série de acusações entre os presidentes da Argentina e do Brasil. Como reflexo desse evento, as relações diplomáticas entre os dois países passaram por um período de tensão.Atrito diplomáticoHouve a convocação dos embaixadores para consultas e o rebaixamento das relações ao nível de encarregado de negócios.

Há três pontos importantes a serem considerados diante desses episódios: em primeiro lugar, entender como os acontecimentos de 2026 refletem tensionamentos acumulados durante vários anos; em segundo, considerar as diferenças entre as ações públicas das autoridades de alto nível e as relações estruturais entre os dois países; em terceiro lugar, refletir sobre qual é o impacto para as estratégias político-eleitorais atuais.

Apesar de ganharem maior destaque agora, existem desentendimentos entre os presidentes da Argentina e do Brasil há algum tempo. Em particular, um desalinhamento ideológico entre os governos começou em 2019, quando Alberto Fernández foi eleito para a Casa Rosada, contrastando com a visão política de Jair Bolsonaro.

Desde então, os encontros bilaterais foram muito reduzidos, com exceção do período em que houve convergência entre Fernández e Lula, em 2023. Nesse ano, os dois governos chegaram a aprovar um Plano de Ação para oRelançamento da Aliança Estratégica Brasil-ArgentinaApesar dos líderes se encontrarem em cúpulas multilaterais - por exemplo, quando o G20 foi organizado no Rio de Janeiro -, há um forte contraste com anos anteriores, nos quais visitas bilaterais entre Brasília e Buenos Aires eram regularmente realizadas.

Portanto, o desalinhamento entre Milei e Lula tem maior proporção no momento atual, mas não é um fenômeno novo, refletindo relações difíceis ao longo de vários anos, inclusive em contextos eleitorais. Podemos lembrar das posses de Fernández e de Milei, nas quais os presidentes Bolsonaro e Lula não participaram diretamente. Assim, percebe-se que há dificuldades no relacionamento entre as pessoas que ocuparam as presidências dos maiores países da América do Sul.

Importância mútua.

Apesar disso e das crescentes críticas públicas entre eles, as interações entre as pessoas não afetam necessariamente as dimensões econômicas e sociais entre Argentina e Brasil.A história construída entre os dois vizinhos há mais de 200 anos passou por diferentes fases, incluindo uma forte rivalidade durante as ditaduras militares no século XX.Com o ciclo de redemocratizações na América Latina, o eixo entre Argentina e Brasil se fortalece. Iniciativas a partir da década de 1980, entre as quais se destaca, principalmente, a...

.........Fundação do Mercosul em 1991O acordo visa estruturar de forma mais previsível as relações entre os dois países, incluindo a regulação dos fluxos de pessoas e das trocas comerciais.

Por mais de três décadas, é perceptível a importância do Brasil para a economia argentina, assim como da Argentina para a economia brasileira. Em 2025, por exemplo, a Argentina foi o...terceiro maior parceiro comercial do Brasil.

Além disso, a presença de ambos no sistema internacional também está pautada pelas formas como o Mercosul e outras organizações regionais conduziram as relações internacionais ao longo dos anos. Entre outros casos, pode-se mencionar a assinatura de...Acordos comerciais extrarregionaise o apoio à manutenção da democracia durante crises políticas. OProtocolo de UshuaiaAprovido em 1998, estabeleceu a plena vigência das instituições democráticas como condição essencial para o processo de integração.

Nessa perspectiva, é importante salientar que, apesar do alto escalão das autoridades, o comportamento entre os indivíduos não afeta necessariamente as relações mais amplas estabelecidas entre as sociedades.

O terceiro aspecto a ser ressaltado é sobre o que isso significa para a própria trajetória política de Javier Milei. Ele é um presidente que, no nível doméstico, depende de coalizões para manter sua governabilidade e que, em breve, passará também por um período eleitoral, com a possibilidade de reeleição. É uma liderança que tem atividade partidária fora da Argentina, tendo inclusive já participado de eventos políticos no Brasil anteriormente.

Alternâncias de sinal político

Além disso, Milei demonstra apoio a outros governos latino-americanos que se situam à direita no espectro político. Isso permite projetá-lo como nome influente internacionalmente, de forma a compensar desafios políticos internos na Argentina. Nesse contexto, ele se beneficiaria internamente de ter apoio político direto no Brasil, o que acompanharia eleições que ocorreram recentemente no Chile, na Colômbia e no Peru, por exemplo.

No entanto, é importante lembrar que são governos distintos, com diferenças ideológicas, tornando difícil classificá-los em um único grupo, mesmo que se apresentem sob a bandeira da Onda Azul. O que os aproxima são realidades semelhantes vividas por eleitores de vários países, impulsionando o voto contra os governantes atuais, que pode também ser direcionado contra governos de direita.Ocorreu recentemente no Uruguai.A própria Argentina, inclusive, vive uma permanente alternância de sinal político ao longo dos últimos quatro mandatos presidenciais.

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André Araujo não oferece consultoria, trabalha ou possui ações de alguma empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação desta matéria e não declarou nenhum vínculo relevante além do seu papel acadêmico.

Fonte
The Conversation Brasil
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