Somos bioma-dependentes — Insubornavel

Somos bioma-dependentes

Por Carlos Magno03/09/2026 às 10:0513 visualizações
Vaqueiro nordestino e pastores de ovelhas da mongólia
Vaqueiro nordestino e pastores de ovelhas da mongólia
Brasil de Fato

Ulaanbaatar, capital da Mongólia, fica a 15 mil quilômetros do Sertão de Pernambuco. É outro continente, outro idioma e outro clima. Cheguei à capital mongol dois dias antes da abertura da segunda semana da COP17, a conferência da ONU sobre desertificação, que reuniu quase 200 países até 28 de agosto. Tratei de fazer o que considero necessário antes de qualquer conferência: ir ver o território com meus próprios olhos. Foi aí que a distância começou a encolher.

Vi cavalo em todo canto. Pastor, arqueiro, gado, comida passando de mão em mão. Casa que se desmonta e se reconstrói em outro pedaço de chão. A Mongólia tem quase 77% do território degradado, segundo a Convenção da ONU de combate à desertificação (UNCCD). E é justamente por carregar esse problema no próprio quintal que o país foi escolhido para sediar a conferência.

Mas o que me prendeu ali não foi o dado. Foi um homem a cavalo, atravessando uma paisagem hostil com o corpo protegido do jeito certo para aquele lugar. E ali, 15 mil quilômetros longe de casa, encontrei o vaqueiro.

Dois cavaleiros, uma mesma lição

O vaqueiro sertanejo e o pastor mongol nunca se encontraram e provavelmente nunca vão se encontrar. Um nasceu numa terra de espinhos e sol de rachar, o outro numa terra de vento gelado e distâncias sem fim. As histórias que os formaram não têm nada em comum. Mas os dois aprenderam, cada um à sua maneira, a mesma coisa: que o corpo precisa ser adaptado para caber no território.

O vaqueiro veste gibão, perneiras, luvas, guarda peito, tudo em couro grosso. Longe da estética do cangaço, é uma engenharia de sobrevivência, o único jeito de um corpo montado atravessar uma caatinga que responde à seca com espinhos e galhos quase intransponíveis. O pastor mongol veste lã e feltro em camadas, pensado peça por peça para seguir se movendo sob um frio que o Sertão nunca conheceu.

Um se veste para atravessar o espinho. O outro, para atravessar o gelo. E os dois, montados no mesmo tipo de animal, fazem do cavalo uma extensão do próprio corpo: transporte, ferramenta de trabalho, parceiro nas festas, presença que atravessa gerações. Na estepe, isso vai ainda mais longe: o cavalo está nas corridas, no arco e flecha, no leite que se bebe fermentado. Mas a lógica de fundo é a mesma dos dois lados do planeta: o animal que ajuda o homem a responder ao que a terra exige dele.

É isso que quero dizer quando falo em bioma-dependência. Talvez essa expressão que acabo de criar não seja a mais apropriada. Não que o ambiente decida quem somos — a sociedade se constrói com política, economia, história. Mas carregamos o território no corpo, na roupa, no jeito de montar, mesmo quando já não vivemos mais só dele.

Fomos criados ouvindo que desenvolvimento é ficar parado. Casa fixa, terra cercada, gente presa num ponto do mapa. E aprendemos, com isso, a olhar quem se move, o pastor, o povo nômade, os ciganos como quem ainda não chegou ao progresso.

Na estepe essa conta não fecha. Se a água secou ali, vai-se para onde ela está. Se o pasto cansou, dá-se descanso e busca-se outro. Se o inverno fecha uma região inteira, desloca-se gente e rebanho junto. Não é gente sem raiz, é gente que carrega o território dentro de si e sabe ler quando é hora de sair e quando é hora de ficar. A ONU decretou 2026 como Ano Internacional das Pastagens e dos Povos Pastoris. Mais de um bilhão de pessoas no mundo ainda vivem dessa relação direta com o pasto e o deslocamento.

No Sertão, o vaqueiro escolheu outro caminho diante da mesma pergunta. Durante muito tempo, a seca foi tratada como sentença e ir embora como destino. Foram milhões de nordestinos empurrados para fora da própria terra. A resposta que se construiu depois — e que ainda se constrói — foi aprender a conviver com a seca em vez de fugir dela. Guardar água quando ela cai do céu. Guardar sementes. Cuidar do solo.

Mover-se e ficar parecem respostas opostas. Não são. São duas formas de responder à mesma pergunta que a terra seca faz a quem nela vive: como continuar existindo nela sem tentar transformá-la em algo que ela não é?

O que se perde quando se perde o território

Falamos hoje em adaptação climática como se fosse invenção de conferência internacional. Não é. Está dentro de quem vive nesses lugares há gerações, muito antes de existir sigla de ONU para isso. É saber qual planta aguenta estiagem, saber quando um pasto pede descanso, saber como guardar água e semente e passar essa memória adiante.

Quando um pedaço da Caatinga se desertifica de vez — e no Brasil isso já aconteceu com 9% do Semiárido, segundo o Instituto Nacional do Semiárido —, não se perde só vegetação. Perde-se comida, remédio, técnica, palavra. Quando uma paisagem da estepe mongol fica inacessível, perde-se caminho, memória e tradições.

Volto então à pergunta inicial. O que separa o vaqueiro do pastor, além de 15 mil quilômetros? Quase tudo. E, ao mesmo tempo, quase nada. Os dois carregam o bioma no corpo. Não habitamos apenas os biomas, eles também nos habitam: no couro, na cisterna, na semente guardada, no cavalo, na casa que se move. Destruir um bioma não é só perder natureza. É arrancar de um povo, do outro lado do mundo ou bem aqui do lado, parte do que o fez ser quem é.

Fonte
Brasil de Fato
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