‘Eu não podia chorar’: pianista recupera falas de Dilma sobre tortura no marco de 10 anos do golpe contra ex-presidenta — Insubornavel

‘Eu não podia chorar’: pianista recupera falas de Dilma sobre tortura no marco de 10 anos do golpe contra ex-presidenta

Por Conversa Bem Viver31/08/2026 às 15:1850 visualizações
Dilma Rousseff em discurso no julgamento de impeachment
Dilma Rousseff em discurso no julgamento de impeachment
Brasil de Fato

A pianista e compositora Juliana Rodrigues lança hoje, 31 de agosto, seu mais novo single, Libertad. A obra, que é constituída a partir do chamado “Som da aura” (método que utiliza ruídos ou a voz de uma pessoa para compor melodia e harmonia), traz um discurso da ex-presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, interagindo com uma composição ao piano.

Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Rodrigues explica como foi o processo de composição do single.

“Eu peguei as falas da Dilma e intercalei com o poema da Josefina Plá, que é uma poeta hispano-paraguaia. Além de poeta, ela também foi ceramista, com vários ensaios sobre gênero. Então ela é uma voz muito importante, e eu me sinto hermanada por causa dessa discussão sobre como nós, mulheres, temos espaços negados.”

No discurso presente na composição de Rodrigues, a ex-presidenta fala sobre os processos de tortura que sofreu enquanto foi mantida presa pela ditadura civil-militar no Brasil. Dilma esteve presa por quase três anos, entre 1970 e 1972.

A compositora entende que, ao utilizar o sistema de “Som da Aura”, uma denominação criada pelo compositor e arranjador Hermeto Paschoal, ela consegue explicitar seu posicionamento político.

“Eu costumo dizer que os sons da aura, para mim, são uma maneira de eu acrescentar a informação verbal ao meu show, porque eu sou da música instrumental. E, na música instrumental, as coisas ficam muito mais subjetivas, mais escondidas. Então, eu gosto de usar esse formato de composição para justamente agregar esse tipo de discussão ao meu show e, se as pessoas tiverem alguma dúvida sobre o meu posicionamento, eu entendo que esse tipo de composição faz com que elas deixem de ter”, aponta Rodrigues.

Essa é a terceira incursão da pianista neste método de composição. Outras duas experiências de sons da aura foram a composição “Mataram mais uma de Nós”, apresentada em 2018, em que declarações de Marielle Franco e Táliria Petrone, então vereadoras, são utilizadas para contextualizar o assassinato de Marielle meses antes, e o álbum “Vive’”(2021), o segundo de sua carreira.

O lançamento de Libertad acontece exatamente no marco de dez anos da votação no Senado Federal que levou à perda do mandato de Dilma Rousseff e sacramentou o golpe contra a então presidenta. Rodrigues comenta que essa junção de datas não foi programada, mas veio a calhar pelo seu significado.

Na obra, os poemas de Josefina Plá, intitulados “Glosa III”, são recitados pela percussionista cubana Yordanka Medina. Para a compositora, ela conseguiu reunir grandes potências femininas na produção.

“Eu tenho a arte misturada com a política e são duas mulheres [de potência] mais eu, que seria uma terceira, e a Yordanka que recita o poema. Acho que foi uma boa solução para tratar desses assuntos: mulheres, gênero, política e Américas.”

O vídeo de Libertad será lançado às 21h (horário de Brasília) no canal da compositora no YouTube.

Conversa Bem Viver

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