O que importa informar?

Por Janelson Ferreira11/09/2026 às 14:470 visualizações
Bandeira da China no lugar onde estava a aduana de Gyirong (Jilong), na fronteira com o Nepal. O prédio da aduana e a Ponte da Amizade Sino-Nepalesa que conectava os dois países foram completamente destruídas. 30 de abril de 2023
Bandeira da China no lugar onde estava a aduana de Gyirong (Jilong), na fronteira com o Nepal. O prédio da aduana e a Ponte da Amizade Sino-Nepalesa que conectava os dois países foram completamente destruídas. 30 de abril de 2023
Brasil de Fato

No último dia 26, a cidade de Gyirong, na fronteira entre a Região Autônoma de Xizang (Tibete), na China, e o Nepal, foi atingida por severas inundações, consequência do deslizamento de uma geleira do lado nepalês. Rapidamente, devido à gravidade, a notícia repercutiu pelo mundo e, até agora, a China confirmou 43 mortos.

O colapso da geleira ocorreu a 5.200 metros de altitude e, até atingir Gyirong, que fica a 1.800 metros, arrastou rochas, gelo e todo tipo de sedimento. O impacto do deslizamento foi tão grande que o Serviço Geológico dos Estados Unidos chegou a registrar um evento sísmico de magnitude de 5,2 graus na Escala Richter.

A hipótese é que o deslizamento da enorme geleira foi causado pelo degelo da Cordilheira do Himalaia, que se acentua a cada ano, resultado da crise ambiental. Em 2019, um estudo publicado na revista científica Springer afirmou que um terço das geleiras do Himalaia pode derreter até 2100. Até 2 bilhões de pessoas podem ser afetadas por estes derretimentos, sendo que a Cordilheira é a região que mais abriga gelo fora dos polos do Planeta Terra.

Frente à gravidade e excepcionalidade do fato — que, dado à crise ambiental, tende a tornar-se recorrente — o que cabe a um veículo de imprensa informar? Para alguns, especialmente aqueles ligados ao Norte Global, o deslizamento e as vítimas tornaram-se pretexto para atacar o governo chinês e deslegitimar o modelo político que vigora no país desde 1949.

É inegável a sensibilidade do fato, que pode envolver até centenas de mortes. Mesmo assim, parte destes veículos viu na tragédia uma brecha para avançarem na sua longa luta contra o surgimento de uma alternativa ao sistema sustentado pela Europa e pelos Estados Unidos.

O The Guardian, veículo britânico, publicou em 4 de setembro, “No Tibete, famílias atingidas por enchentes buscam por desaparecidos e lidam com o silêncio da China”. Os jornalistas criticaram o governo chinês pela suposta falta de informação e por estar punindo quem espalha informação falsa sobre a tragédia. A expectativa dos autores da matéria era que não fossem responsabilizados quem espalha mentira em um momento destes?

Em outro trecho da matéria, os autores dizem que “a narrativa oficial se concentra fortemente nos esforços de resgate, postagens on-line nas mídias sociais chinesas mostram uma efusão emocional de tristeza e luto”. Mas não é exatamente isso que se espera das autoridades competentes? Que ajam, enquanto a sociedade vive seu luto e tristeza.

A BBC, outro veículo britânico, publicou em 29 de agosto, “Imagens das inundações no Tibete estão sendo fortemente censuradas na China, e sabemos pouco sobre as vítimas naquele país”. Apesar do título, no corpo da matéria, a jornalista diz: “Os noticiários trazem atualizações diárias sobre os desaparecidos e os mortos, e Pequim também tem divulgado informações sobre as operações de resgate, bem como sobre os perigos representados por um lago de contenção que corre o risco de transbordar”.

O texto — que foi simbolicamente republicado pela Folha de S.Paulo — aborda as supostas dificuldades de se encontrar vídeos e informações sobre o fato nas redes sociais chinesas. Talvez a autora da matéria e os jornalistas do The Guardian devessem se reunir para decidir: ou tem uma “efusão emocional de tristeza e luto nas redes sociais” ou não tem censura sistemática.

Por fim, a jornalista também “denuncia” que “quase nenhuma filmagem gerada por usuários mostra os momentos da enchente”. A estimativa é que o intervalo de tempo entre o deslizamento e a chegada repentina da inundação no local mais afetado, Gyirong, foi entre cinco e sete minutos. Para lamento da jornalista, a velocidade da enchente não permitiu a alguém sacar o celular e gravar a inundação destruindo tudo o que havia.

Já o Washington Post, veículo estadunidense, em uma matéria de 4 de setembro, traz em seu título a mensagem “China exerce controle apertado sobre informações após inundações ao longo da fronteira com o Nepal”. O texto foca em comparar a cobertura dada ao caso pela China e pelo Nepal. A jornalista afirma que o lado nepalês tem “atualizações contínuas sobre os esforços de resgate”, além de que o “Exército publicou imagens de resgates via helicóptero”.

Pelo lado chinês, a análise do Washington Post aponta que as mídias chinesas “evitaram transmitir os nomes ou rostos dos desaparecidos e seus parentes em favor de vídeos mostrando a logística de entregar cães de ajuda ou resgate trabalhando duro”. Primeiro, que a própria jornalista se contradiz ao afirmar que ambos os países estão focados em mostrar os esforços de resgate. Segundo, qual o interesse em exibir o rosto de pessoas desaparecidas em mídias nacionais e internacionais, para além da espetacularização da tragédia?

Mais do que casos isolados, estes exemplos demonstram um padrão de cobertura sobre a China, especialmente das mídias hegemônicas ligadas AO Norte Global — e não apenas localizadas NO Norte. Utilizam um fato trágico para atacar uma nação soberana, que desenvolve avançadas políticas e ações de enfrentamento à crise ambiental. Esquecem que os principais responsáveis pelas mudanças climáticas são seus próprios países, aqueles que capitanearam a Revolução Industrial. Tais veículos convertem-se naquilo que, supostamente, eles denunciam: porta-vozes de projetos políticos.

Matérias como estas chegam ao Sul Global para alimentar a crença de que estes países ainda devem permanecer sob a hegemonia do Norte e que a China só tem a oferecer repressão e supressão de direitos. Vestem a armadura de um aparente rigor técnico jornalístico e de uma suposta defesa liberal da liberdade de imprensa. Sob uma fina tinta de imparcialidade, esconde-se um jornalismo que se vale de factóides para ainda tentar manter em pé o Norte Global como a referência do mundo. De fundo, está a crise da hegemonia dos Estados Unidos e da Europa.

Em 2005, quando o furacão Katrina atingiu e destruiu Nova Orleans, nos Estados Unidos, o socorro levou semanas para efetivamente se iniciar. Ficaram famosas as imagens de famílias pedindo socorro no topo de telhados, pois o governo estadunidense era incapaz de resgatá-las. Mas nada disso foi argumento para estes veículos questionarem a legitimidade do regime político e do governo dos Estados Unidos.

Em 2013, se revelou ao mundo o Programa Prism, por meio do qual o governo estadunidense acessava servidores das big techs Google, Apple, Microsoft, Facebook e Yahoo, com sua anuência, para espionar milhões de cidadãos. Porém, reportagens sobre o caso não colocavam em xeque a legitimidade do sistema capitalista. Não houve uma reportagem evidenciando como estas violações eram mais uma prova da inviabilidade dos Estados Unidos como suposta nação guia do mundo. Eram apenas “casos isolados” ou “pontos fora da curva”.

Por outro lado, o Brasil de Fato e a TeleSUR foram os primeiros veículos latino-americanos a irem até Gyirong e gravaram imagens exclusivas no local. O histórico de ambos os veículos, baseado em um jornalismo que nega a carcomida imparcialidade e na clareza da posição e responsabilidade que têm na história, os habilitou à visita. A seriedade do trabalho de ambos fez com que conquistassem o respeito do povo chinês e os deixassem aptos a, exatamente neste sensível momento, saber o que e como noticiar algo.

As matérias produzidas pelos correspondentes Mauro Ramos e Bruno Falci não usam a tragédia como trampolim para ataques. Ao contrário do que pregam aqueles que tentam denunciar a “censura chinesa”, grandes mídias hegemônicas, como CNN e Reuters, também foram até Gyirong e puderam fazer imagens, entrevistas, etc.

Não se trata de negar as contradições internas que a China possui hoje, mas de não cair na falsa equivalência de defender que estas contradições estão no mesmo nível daquelas que estão na raiz de tragédias como a que ocorreu no Himalaia. Mais do que isso, trata-se de não equiparar fatos não comparáveis. Afinal, temos de um lado um país que, desde sua independência, participou de mais de cem intervenções, invasões ou conflitos militares, em 80 países distintos. Do lado oposto, há uma nação que, após sua Revolução, logrou tirar mais de 800 milhões de pessoas da pobreza e hoje se coloca a construir com outros países, especialmente aqueles do Sul Global, uma “comunidade com futuro compartilhado”, baseada na cooperação e no benefício mútuo. Não é “América para os americanos”, mas compartilhar um futuro.

*Janelson Ferreira é integrante da coordenação nacional do MST.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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