África do Sul abre portas para data centers, mas leis ainda tratam unidades como armazéns

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Przez Eunice Stoltz05/09/2026 às 11:0013 wyświetlenia
Em construção: do outro lado da estrada, data center da King Air Industries, na Cidade do Cabo, ficará a serviço da multinacional Equinix
Em construção: do outro lado da estrada, data center da King Air Industries, na Cidade do Cabo, ficará a serviço da multinacional Equinix
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Essa matéria foi realizada com o apoio do Pulitzer Center e é parte do etapa africana da “Mão Invisível das Big Techs”, um projeto transnacional liderado pela Agência Pública e pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP).

Todos os dias, Ncediwe Vanqa, de 66 anos, caminha de sua casa de 18 m² em Barcelona, uma ocupação informal em Gugulethu, na Cidade do Cabo, até uma torneira comunitária. Vanqa chega a fazer esse percurso sete vezes por dia. Ela usa uma fossa comunitária e, em situações de emergência, um balde. Para economizar eletricidade, assa pão usando um aquecedor a parafina e aproveita o calor para aquecer sua casa.

No entanto, do outro lado da estrada, a menos de dois quilômetros de distância, a Cidade do Cabo abriu as portas para uma infraestrutura que pode operar em uma escala completamente diferente. Em julho, o Tribunal de Planejamento da cidade aprovou um pedido apresentado pela King Air Industria, um parque industrial e logístico avaliado em dezenas de milhões de dólares, para dois data centers que, segundo documentos, ficarão a serviço da Equinix, uma multinacional norte-americana.

No entanto, a Equinix, uma das maiores operadoras de data centers do mundo e importante fornecedora de infraestrutura para empresas como Amazon, Microsoft e Google, nega essa versão dos fatos.

A expansão da empresa na Cidade do Cabo é o tema da nova reportagem do projeto transnacional “A Mão Invisível das Big Techs”, que investiga como as maiores empresas de tecnologia do mundo fazem lobby para influenciar leis e políticas públicas a fim de evitar a regulação em vários países.

A Equinix disse ao The Continent que “não apresentou nenhum pedido de planejamento de data center na Cidade do Cabo”. 

Mas os registros oficiais do município mostram que a Equinix se reuniu com autoridades pelo menos três vezes para discutir seus planos. Dezenas de documentos também vinculam o pedido de uso do terreno ao projeto da Equinix para o local.

No centro da disputa está a quantidade de água e eletricidade que os data centers hyperscale da Equinix irão exigir. Data centers hyperscale são conhecidos pelo consumo exorbitante de água e/ou eletricidade para resfriar as máquinas.

Em seu recurso contra a construção de um desses empreendimentos na Cidade do Cabo, o Legal Resources Centre (LRC), uma organização legal da sociedade civil, estimou que, caso fosse utilizado um sistema convencional de resfriamento por evaporação, os dois data centers poderiam consumir cerca de 4,4 bilhões de litros de água por ano. 

Isso equivale a quase 11 milhões de litros por dia, aproximadamente o consumo diário de água de 68.500 moradores da Cidade do Cabo, com base na referência de consumo médio da cidade. 

Para uma cidade que por pouco não chegou ao “Dia Zero” durante a seca de 2018, a demanda potencial é significativa. A data se referia a uma previsão de que registros de água das residências e do comércio da Cidade do Cabo poderiam ser fechados por causa do baixo nível dos reservatórios.  

A Equinix não respondeu às perguntas sobre os recursos necessários para o data center proposto. No entanto, em seus documentos, a King Air informou ao Tribunal de Planejamento da Cidade do Cabo que os números sobre os recursos seriam apresentados na etapa de planejamento da instalação. 

Nos Estados Unidos, a expansão dos data centers vem enfrentando uma resistência cada vez maior das comunidades. Segundo a Data & Society, um instituto independente de pesquisa e políticas públicas sem fins lucrativos dos EUA, o consumo global de energia dos data centers cresceu 12% em cinco anos e pode dobrar até 2030. 

O uso de água também está aumentando. A organização afirma que o consumo da Meta, Apple, Microsoft e Google cresceu 60% desde 2020. À medida que os data centers se expandem nas comunidades, a Data & Society argumenta que a escolha dos locais onde são construídos se tornou uma decisão cada vez mais política, com consequências para as economias locais, a saúde e o abastecimento de água e energia.

Segundo os documentos apresentados ao Tribunal Municipal de Planejamento, o sistema proposto poderia demandar cerca de 174 MVA. “Se operados continuamente perto desse nível” ao longo do ano, os data centers poderiam consumir aproximadamente 1,4 a 1,5 bilhão de kWh de eletricidade por ano, explicou a Dra. Chantelle van Staden, professora sênior do Departamento de Engenharia Elétrica e Eletrônica da Universidade de Stellenbosch. “Isso poderia equivaler ao consumo anual de eletricidade de 250 mil moradias da Cidade do Cabo”, afirmou Van Staden.

Essa falta de informações preocupou pelo menos um dos integrantes do tribunal quando o órgão analisou a aprovação do uso do terreno, em julho. “A maioria de nós não sabe o que é necessário em termos de demanda de água e eletricidade para uma instalação que nos pediram para aprovar, já que nenhum detalhe a esse respeito foi disponibilizado”, afirmou Wally Johnstone, integrante do painel do Tribunal Municipal de Planejamento, em reunião no dia 14 de julho de 2026. Johnstone foi o único dos cinco integrantes do painel a se opor à aprovação do uso do terreno para os data centers.

A prefeitura nega que o empreendimento tenha sido aprovado sem uma avaliação adequada e afirma que seu Departamento de Energia havia concluído que haveria fornecimento suficiente. Os documentos apresentados ao tribunal também revelaram que a Equinix já havia pago “encargos de rede compartilhada para 160 MVA” de capacidade, no valor de cerca de 2 milhões de dólares. A prefeitura afirmou que alguns detalhes técnicos seriam avaliados posteriormente.

Do outro lado da rede elétrica

Semanas antes do tribunal aprovar o pedido da King Air, a Protetora Pública [cargo similar ao promotor público no Brasil] Kholeka Gcaleka  divulgou conclusões sobre a prestação de serviços municipais nas comunidades de Langa e Khayelitsha, próximas aos data centers propostos pela Equinix.

Khayelitsha e Langa são duas comunidades muito povoadas e predominantemente pobres, localizadas a menos de 10 quilômetros do local proposto para a instalação dos data centers. Em junho, após quatro anos de investigação, o Protetor Público, órgão similar ao Ministério Público, concluiu que a Cidade do Cabo não havia fornecido serviços básicos adequados aos moradores, incluindo água, saneamento e eletricidade. As falhas foram consideradas suficientemente graves para configurar “má administração” e “prejuízo”.

A prefeitura informou à reportagem que restrições orçamentárias, acúmulo de déficits de infraestrutura e demandas concorrentes por prestação de serviços haviam impedido a solução de alguns desses problemas. A Protetora Pública reconheceu as pressões financeiras, mas concluiu que elas não eximiam a cidade de suas obrigações constitucionais, e que as falhas sistêmicas na prestação de serviços continuavam apesar de algumas melhorias.

Para moradores e membros do movimento social por moradia Housing Assembly, como Vanqa, citada no início da reportagem, a questão é saber quem terá acesso aos recursos escassos. O LRC afirmou ao tribunal que sua objeção tem origem “em um contexto de restrições agudas e sobrepostas de recursos na Cidade do Cabo, onde os sistemas de terra, água e energia já estão sob pressão significativa”.

Data center hyperscale não é armazém

A África do Sul não é nova na área de data centers. O diretório Data Centre Map lista 64 unidades em operação no país e outras dez planejadas. Mas as instalações hyperscale trazem demandas de infraestrutura de outra ordem, com necessidades de eletricidade que podem chegar a centenas de megawatts. A regulamentação n ão acompanhou esse ritmo. 

A África do Sul não tem uma política nacional específica para data centers, enquanto a Cidade do Cabo não possui uma categoria determinada de uso do solo para instalações hyperscale. “Os data centers geralmente são enquadrados no uso comercial/industrial”, disse a prefeitura ao The Continent. Por isso, estas unidades podem ser avaliadas segundo as regras existentes para instalações industriais ou armazéns.

Johnstone classificou a categoria como “totalmente inadequada” e acrescentou que é “simplista considerar um data center como um armazém que apenas guarda sistemas computacionais”. O LRC foi além, descrevendo a classificação como “claramente incorreta e potencialmente enganosa”.

Ao comentar a legislação que classifica data centers como armazéns, Grant Oosterwyk, professor sênior de sistemas de informação da Universidade da Cidade do Cabo, que já trabalhou em um data center de pequena escala, afirmou que a abordagem atual cria um ponto cego artificial.

“Isso permite que essas instalações evitem as avaliações básicas de impacto industrial que uma instalação dessa escala normalmente teria de enfrentar em um marco moderno de planejamento”, disse Oosterwyk.

“Tratar uma instalação de 100 MW, com sistemas de resfriamento em escala industrial, geradores pesados a diesel e circulação contínua de veículos pesados como um simples armazém é um grande descompasso regulatório. A categoria não acompanhou o ritmo da infraestrutura que está sendo construída dentro dela.”

O que a Cidade do Cabo não diz sobre seus projetos de data centers

O empreendimento proposto pela Equinix também não é o único projeto hyperscale em estudo na Cidade do Cabo. Brett Herron, membro da Assembleia Legislativa da Província do Cabo Ocidental (onde está localizada a cidade), disse ao The Continent que a Cidade do Cabo está avaliando mais projetos do tipo.

Ele citou as instalações propostas pela Equinix na King Air, a expansão planejada de 60 MW da Teraco e o projeto anunciado Cosmas Data Cities, do Cavaleros Group, com capacidade de 360 MW. Herron calcula que a demanda potencial combinada desses projetos seja de aproximadamente 580 MW

Com base em informações disponíveis publicamente, ele estima que, se todos os projetos fossem construídos com as capacidades anunciadas, eles seriam equivalentes a cerca de 35% da atual demanda máxima de eletricidade da Cidade do Cabo.

O vice-prefeito Eddie Andrews afirmou que a Cidade do Cabo aprovou cinco data centers e tem outros dois em análise. Mas a prefeitura não informou quais empresas estão por trás desses projetos, usando a Lei de Proteção de Informações Pessoais (POPIA) como justificativa. A prefeitura não explicou quais dispositivos da lei a impediam de divulgar informações sobre a carga de energia ou por que a demanda de cada projeto não poderia ser divulgada.

Além dessas informações, Lance Greyling, diretor de Desenvolvimento Econômico e Investimentos da cidade, confirmou que se reuniu com a Equinix três vezes entre julho de 2025 e junho de 2026, todas a pedido da empresa.

No primeiro encontro, em julho de 2025, Greyling disse que a Equinix lhe comunicou “sua intenção de investir em data centers na Cidade do Cabo”. Quatro meses depois, Greyling e outras autoridades municipais e representantes da província do Cabo Ocidental se reuniram com a empresa depois que ela havia comprado o terreno para a King Air Industria. Segundo Greyling, a Equinix discutiu “suas intenções para o empreendimento proposto”. Em uma terceira reunião, em junho, a empresa apresentou uma atualização do seu planejamento.

“Já me reuni com a Equinix a pedido da empresa, mas em nenhum momento tive discussões sobre aprovações previstas em lei”, disse Greyling. No entanto, nenhuma ata foi registrada. Ele disse que seu papel é dialogar com potenciais investidores e promover a Cidade do Cabo como um local de crescimento econômico, desde que eles cumpram os requisitos legais necessários.

Na África do Sul, reuniões entre autoridades públicas e investidores privados não são divulgadas ou regulamentadas de forma sistemática. Não há evidências de que a Equinix tenha influenciado o processo de aprovação previsto em lei, mas a empresa se reuniu repetidas vezes com o Escritório de Promoção de Investimentos da Cidade do Cabo à medida que seus planos para os data centers avançavam. Como não foram registradas atas, não há registro público do que foi discutido.

O The Continent entrevistou dois vereadores que disseram que as implicações da expansão dos data centers não haviam sido amplamente debatidas no conselho municipal. Khalid Sayed, líder do partido ANC na província do Cabo Ocidental, disse ao The Continent que os data centers, incluindo suas demandas por água e eletricidade, quase não foram discutidos nos fóruns políticos. Segundo ele, isso pode refletir tanto uma falta de compreensão sobre o tema quanto uma falha de fiscalização.

Não é só a Cidade do Cabo

A Cidade do Cabo não é a única no país a lidar com a questão. A Prefeitura da metrópole eThekwini, que abriga a cidade de Durban, reconheceu que seu plano urbanístico não possui uma definição específica para data centers hyperscale ou de inteligência artificial e afirmou que ainda está avaliando como regulamentar as demandas de infraestrutura dessas instalações.

Ainda assim, em abril, a prefeitura afirmou que seu conselho municipal havia autorizado um acordo com o Korean South Power Consortium para estudar a implantação de um data center de IA em um terreno municipal na região sul de Durban, a terceira cidade mais populosa do país. 

Documentos do conselho estimam que o empreendimento poderia custar entre US$ 3 bilhões e US$ 10 bilhões e afirmam que a prefeitura forneceria o terreno e a infraestrutura para o projeto. A prefeitura disse que as necessidades de água e eletricidade do empreendimento ainda não foram determinadas.

O diretor de Marketing e Comunicação de eThekwini, Mandla Nsele, afirmou que as questões sobre as demandas dos data centers “são objeto de discussões internas”, o que significa que a prefeitura não pode fornecer dados detalhados.

Um dos vereadores contrários ao empreendimento, Andre Beetge, disse que um relatório do conselho minicipal sobre o projeto não “aborda adequadamente a trajetória da demanda de energia associada aos data centers de IA, que deverá aumentar bastante nos próximos anos”.

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A Mão Invisível das Big Techs é uma investigação transnacional e colaborativa liderada pela Agência Pública e o Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em conjunto com Crikey (Austrália), Cuestión Pública (Colômbia), Daily Maverick (África do Sul), El Diario AR (Argentina), El Surti (Paraguai), Factum (El Salvador), ICL (Brasil), Investigative Journalism Foundation – IJF (Canadá), LaBot (Chile), LightHouse Reports (Internacional), N+Focus (México), Núcleo (Brasil), Primicias (Equador), Tech Policy Press (EUA) e Tempo (Indonésia). O projeto tem o apoio da Repórteres Sem Fronteiras e da equipe jurídica El Veinte, e identidade visual da La Fábrica Memética.

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