‘Precisamos de um projeto de país que não seja dinheiro’, defende cientista climática do INPE — Insubornavel

‘Precisamos de um projeto de país que não seja dinheiro’, defende cientista climática do INPE

Por Rodrigo Gomes04/09/2026 às 15:1811 visualizações
João Pedro Stedile, Yamila Goldfarb e Luciana Gatti analisaram a conjuntura atual
João Pedro Stedile, Yamila Goldfarb e Luciana Gatti analisaram a conjuntura atual
Brasil de Fato

Em um cenário de agravamento dos eventos climáticos extremos, conjugado com um avanço do capital sobre os bens comuns, as florestas, as águas e os minérios, a cientista climática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) Luciana Vanni Gatti defende que é urgente desenvolver “um projeto de país que não seja dinheiro”, que tenha a preservação ambiental e a produção de alimentos saudáveis como foco principal.

“O agronegócio vai falir logo ali. Não creio que se segure mais de uma década, porque o clima está mudando muito. A produtividade vai cair mais e aí querem mais terra, desmatam mais, e isso piora a situação. E, conforme piora a situação, vão usar mais veneno. Isso não tem mais como funcionar”, afirma Gatti. “Precisamos de um plano de transição agrícola no Brasil. Hoje temos um plano de substituir natureza por monocultura. Temos que mudar isso”, complementa.

As falas foram feitas na manhã desta sexta-feira (4), segundo dia do Encontro do Campo Unitário – Propostas para alimentar e defender o Brasil e o povo brasileiro no campo, nas florestas e nas águas.

Gatti destaca que o cenário impõe muitas coisas para rever e para mudar, na relação com o planeta, mas que isso também é uma grande oportunidade de transformação. No entanto, as mudanças climáticas estão muito além do que os modelos indicavam anos atrás. E a população está consumindo cada vez mais energia e, com isso, a chamada energia limpa não está sendo suficiente.

“Estamos produzindo mais energia verde, mas também estamos aumentando o consumo de petróleo, gás natural e carvão. E por que se faz isso? O agronegócio consome 70% da água. Começou a baixar os rios, foi buscar águas nos lençóis freáticos. Sem lençol, os rios refluem mais, reduzindo a capacidade das hidrelétricas, o que força a criar ainda mais termoelétricas para garantir a estabilidade da oferta da energia elétrica. É um modelo insustentável”, explica.

Para ela, um exemplo de uma primeira mudança seria direcionar os recursos hoje investidos no plano safra, que em 2026 está orçado em mais de R$ 610 bilhões, sendo destinado na sua maior parte ao financiamento do modelo do agronegócio, com monocultura, uso extensivo de veneno e derrubada de áreas de floresta para expansão da área de produção.

“O plano safra hoje é o motor contrário ao que precisamos. Mas poderia ser direcionado para uma transição do modelo de produção, priorizando um modelo agroecológico, de preservação ambiental e uso racional de recursos”, defende Gatti.

Vida ou morte

“Ou fazemos alguma coisa para transformar a sociedade brasileira, ou não haverá vida”, afirmou João Pedro Stedile, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), corroborando a fala de Gatti e destacando que a principal contradição do agronegócio e do latifúndio é que eles “são insustentáveis”.

Stedile destaca que o tempo atual de crise faz com que o capital tente se apoderar de tudo, avançando com força sobre os bens da natureza, o que coloca os povos do campo, das águas e das florestas na mira desses ataques, tornando a luta ainda mais complexa.

“Os bens da natureza não têm valor capital, não consomem tempo de trabalho. Mas, quando pega a água na natureza, usa tempo de trabalho para colocar na garrafinha e vende, isso permite um ganho extraordinário que não teria em nenhum outro meio. Então os capitalistas vão se apropriar cada vez mais dos bens da natureza, da água, da terra, dos minérios”, explica.

Porém, na avaliação de Stedile, cada vez mais esse modelo vai se tornar insustentável, porque piora a vida do povo, promove mais acumulação de dinheiro em poucas mãos e deixa de responder aos problemas da sociedade. E isso promove uma grande oportunidade de os movimentos populares apresentarem alternativas, pressionarem por políticas firmes que, por exemplo, proíbam o desmatamento, o uso de agrotóxicos nocivos às pessoas e ao meio ambiente.

“Qual deve ser o nosso projeto? Primeiro, proteger a natureza. Se a gente não proteger a natureza, nada vai adiantar. Segundo: produzir alimentos saudáveis. Essa deve ser a prioridade de qualquer agricultor. E temos de trabalhar com a agroecologia. Só os povos do campo é que podem implementar esse modelo: camponeses, povos indígenas, quilombolas, trabalhadores. Não vai ser o capital”, explica.

E, para levar essas propostas adiante, a liderança do MST defende que é preciso voltar ao básico. “Precisamos de movimento de massa, de gente na rua, ocupar, pressionar”, afirmou.

Cenário internacional

Yamila Goldfarb, presidenta da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), ressaltou ainda que o cenário geopolítico está agravando as disputas pelos bens da natureza.

“Temos uma nova ordem convivendo com a anterior. E isso leva a conflitos. É só ver o que ocorreu na Venezuela [o ataque dos EUA em 3 de janeiro]. A demanda por petróleo vai aumentar, a demanda por extrativismo é muito grande”, exemplifica Goldfarb, que aponta o Encontro do Campo Unitário como um espaço para pensar além dos espaços que cada povo vive, pensando o Brasil.

“Esse cenário coloca a centralidade da terra como um ativo financeiro importante na acumulação do capital. E a gente tem um problema muito grande: o projeto brasileiro para se inserir na economia mundial é o projeto neoextrativista. A gente precisa de uma transição ecológica e não somente energética. Precisamos pensar como fazer para ter outro tipo de produção e consumo”, defendeu.

O Encontro do Campo Unitário – Propostas para alimentar e defender o Brasil e o povo brasileiro no campo, nas florestas e nas águas pretende alinhar uma leitura comum da realidade brasileira e internacional, para identificar os principais desafios colocados para os povos e definir uma plataforma de propostas para avançar em projetos e programas que os protejam e beneficiem.

O evento segue até sábado (5) e reúne 60 organizações, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores, a Via Campesina Brasil, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).

Fonte
Brasil de Fato
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