Eleições de 2026 – o Brasil à beira do precipício outra vez — Insubornavel

Eleições de 2026 – o Brasil à beira do precipício outra vez

Por Paulo Nogueira Batista Jr.04/09/2026 às 19:199 visualizações
Luiz Inácio Lula da Silva (esquerda) e Flávio Bolsonaro (direita)
Luiz Inácio Lula da Silva (esquerda) e Flávio Bolsonaro (direita)
Brasil de Fato

Este economista que vos escreve não escapa da polarização política generalizada que marca o Brasil dos últimos tempos. Do centro para a direita, é provável que poucas pessoas me leiam com o coração aberto. Assim, devo supor que o leitor ou leitora que me lê agora é de esquerda ou centro-esquerda. Hoje quero conversar com vocês direta e confidencialmente sobre a emergência nacional que enfrentamos nas eleições de outubro. Portanto, se houver algum bolsonarista extraviado por esta página, peço a ele a gentileza de se retirar imediatamente.

E prossigo. Creio que podemos dividir a esquerda brasileira atual em três grandes blocos. Um primeiro é a esquerda lulista, totalmente fiel ao presidente da República. Não faz críticas a ele e rejeita liminarmente quem as faça, pela direita e mesmo pela esquerda. Tem ódio visceral ao “fogo amigo”, que considera inoportuno, quase uma traição.

O segundo bloco é à esquerda radical, geralmente marxista ou quase marxista. Revoltada com o Lula 3, declara enfaticamente que ficará neutra em 2026. Os mais extremados chamam o presidente de “pelego”, “neoliberal” e “traidor”.

O terceiro é a esquerda crítica, que também está desiludida com o Lula 3. Vinha fazendo críticas ao governo e não renega essas críticas, mas vai votar pela reeleição do presidente. 

Faço parte do terceiro. E queria me dirigir hoje, sobretudo, ao segundo bloco. 

Amigos da esquerda radical, faço um apelo: não se deve perder de vista que a eleição de 2026 representa um risco existencial para o Brasil, particularmente por sua dimensão internacional. Não é a primeira vez que estamos à beira de um precipício, verdade. Estávamos assim em 2018 e, de novo, em 2022. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito, o que levou a tremendo retrocesso no país em inúmeras áreas. Em 2022, Lula derrotou Bolsonaro por margem apertada, o que nos permitiu interromper a destruição e reiniciar a reconstrução do Brasil. 

Temos, portanto, experiência com precipícios. Mas desta vez há um agravante: o Imperialismo dos Estados Unidos entrou em nova fase, de muita agressividade, em especial para com a América Latina, que é apresentada oficialmente como área de influência e até mesmo quintal estadunidense. O que aconteceu com a Venezuela em 2026 é um alerta gigantesco para toda a região. O sequestro do presidente venezuelano e a posterior transformação do país vizinho em protetorado dos Estados Unidos é algo inédito na história da América do Sul nos tempos pós-coloniais. E abriu as portas para uma verdadeira pilhagem dos recursos petrolíferos da Venezuela. 

Nesse ambiente, eleger um candidato entreguista é um risco enorme. Permitiria ao Império submeter o Brasil, maior país da América Latina, à sua influência e controle sem disparar um único tiro. Flávio Bolsonaro combina exatamente com os planos dos Estados Unidos. Trata-se de um candidato a vassalo, condição que ele revela sem nenhuma vergonha. 

Relembro um episódio recente e verdadeiramente estarrecedor. Veio a público uma carta de Marco Rubio, o ministro das Relações Exteriores de Trump (aquele que parece ter sido escalado para ser uma espécie de vice-rei da América Latina), em que ele agradece a Flávio Bolsonaro – veja bem, leitor ou leitora – por ter oferecido em carta, caso eleito, a criação de um grupo de transição com o governo dos Estados Unidos! Não é boato. Cito a carta de Rubio diretamente: “We note your optimism regarding the upcoming October elections and your generous offer to place a transition team at our disposal should you be elected.” (Tomamos nota do seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e da sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso seja eleito.)

É uma oferta inacreditável. Grupos de transição podem se constituir como ponte entre dois governos nacionais para facilitar a transição do governo que está saindo para o governo eleito. Não me consta que haja precedente para a oferta de Flávio Bolsonaro. Perto disso, Roberto Campos (o avô), o grande defensor do alinhamento aos Estados Unidos em outros tempos, faz figura de fervoroso patriota. Já podemos reimaginar Roberto Campos (que ficou conhecido em sua época como “Bob Fields”) hierático, perfilado sem pestanejar perante a bandeira e o hino nacionais.

Em contraste, Lula oferece um nacionalismo discreto, equilibrado. Verdade que esse nacionalismo é mais retórico do que prático. Mas o fato é que ele oferece alguma contestação, ainda que cautelosa, ao projeto imperial dos Estados Unidos. Justiça seja feita a Lula. Embora infestado de neoliberais e conservadores, o seu terceiro governo enfrentou bem algumas questões desafiadoras. Dou apenas um exemplo marcante: a postura do presidente brasileiro perante o genocídio praticado por Israel contra os palestinos. Lula poderia ter silenciado, mas botou a boca no trombone, provocando reações duras da parte de Israel e do lobby sionista. As suas repetidas críticas ao governo Netanyahu repercutiram mundialmente. 

Já Flávio Bolsonaro, a exemplo do seu pai, é um sionista desbragado. Fez diversos gestos e pronunciamentos de adesão a Israel. Anunciou, orgulhoso, o primeiro nome do seu ministério: ninguém menos que Cláudio Lottenberg, o presidente da principal organização sionista no Brasil – a Confederação Israelita do Brasil (Conib). Só esse apoio vergonhoso a Israel e ao sionismo já seria suficiente para não votar nunca nessa figura deplorável – e para não facilitar a sua eventual eleição, optando pelo voto nulo.

Preciso dizer algo mais? Em caso afirmativo, um derradeiro argumento, também acachapante. Quem é o principal eleitor de Flávio Bolsonaro? Ninguém menos que o pai, que vem a ser o pior presidente da história do Brasil – e olha que a concorrência é grande! Jair Bolsonaro destronou, sem cerimônia, Fernando Collor, aquele que ocupava até então a posição de pior presidente da história. O estrago realizado no governo Bolsonaro, o pesado legado que deixou para o seu sucessor, não deve ser esquecido. Se Jair Bolsonaro recomenda o voto em alguém, é exatamente neste alguém que não se deve votar em nenhuma hipótese.

I rest my case, como dizem os advogados anglo-americanos quando concluem a sua argumentação. Já não é necessário, acredito, acrescentar mais nada contra essa candidatura. 

Para os correligionários do terceiro bloco, que chamei de esquerda crítica, digo apenas o seguinte: não faremos, eu sei, como fizemos na eleição de 2022, pelo menos não na mesma medida, o trabalho de formiguinha de conquistar alguns votos para Lula. Falta-nos a convicção decorrente da esperança que a volta de Lula então suscitava. Mesmo assim, meu apelo é: tentem ganhar nem que seja um voto, um único e mísero voto para ele. Assim, você trará pelo menos dois votos para nos afastar do precipício à beira do qual estamos. 

Finalmente, um pedido aos lulistas do bloco 1: que a lealdade de vocês a Lula se traduza em luta corpo a corpo, renhida, junto aos indecisos para ganhar votos para a reeleição. Afinal, de que serve uma lealdade que não se traduz em esforços práticos? 

Votar em Lula, conquistar votos para ele, é questão de salvação nacional!

*Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou em 2024, pela Editora Contracorrente, o livro Estilhaços.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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