Como os ecossistemas se recuperam depois do fogo? — Insubornavel

Como os ecossistemas se recuperam depois do fogo?

به قلم Ima Vieira, Pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi e assessora da presidência, Finep - Financiadora de Estudos e Projetos04/09/2026 às 14:491 بازدید
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

A cada temporada de queimadas, a mesma pergunta retorna: a floresta volta? A resposta curta é sim, alguma vegetação sempre volta. A resposta longa é menos tranquilizadora, porque o que volta pode ser muito diferente do que existia antes, e a direção desse retorno depende de quantas vezes o fogo passou e do que sobrou vivo no lugar.

Savanas, campos e florestas de coníferas coevoluíram com o fogo e dependem dele para manter sua diversidade. A floresta amazônica de terra firme, não. Ali o fogo foi historicamente raro, restrito a secas excepcionais e ao manejo indígena em pequenos mosaicos.

Mudança de cenário

Estudos conduzidos em Paragominas, no leste do Pará, na década de 1990, mediram combustível, microclima e umidade em quatro coberturas vegetais. Os pesquisadores verificaram que, na floresta madura, a combustão sustentada — que é aquela em que o fogo consegue se manter por conta própria, sem precisar de uma fonte externa de calor — não se estabelecia nem depois de longos períodos sem chuva.

A Amazônia, no entanto, não é mais impenetrável ao fogo. As mudanças climáticas geram parte dessas alterações da floresta, mas não são as únicas responsáveis. O fogo na Amazônia é sintoma de uma degradação anterior, e não há uma causa isolada. Há décadas, por exemplo, a transformação da floresta em pastagem e a exploração madeireira vêm contribuindo para deixar a Amazônia mais vulnerável às queimadas.

Outro estudo, também em Paragominas, mostrou que a temperatura nas pastagens, ao meio-dia, era quase 10 °C mais alta que na floresta e a umidade relativa era 30% menor. Já a exploração seletiva de madeira elevava a carga de combustível de 30 a 60 Mg/ha para 180 Mg/ha. A carga de combustível em Mg/ha (Megagramas por hectare) é uma medida utilizada no manejo de incêndios para quantificar a carga de material combustível vegetal (vivo ou morto) disponível em uma determinada área.

O estudo da regeneração dessas áreas também nos ensinou uma lição. A sucessão ecológica (processo de reorganização e recuperação da vegetação após uma perturbação, como é o caso das queimadas) em pastagens abandonadas depende da intensidade do uso anterior e da distância das fontes de sementes que permitem que a vegetação volte a brotar. Essas “fontes de propágulos” podem ser a vegetação que sobreviveu à queimada, áreas de vegetação próximas ou animais que transportam sementes.

Locais em que o uso da área foi intenso, a vegetação estacionou em gramíneas. Por outro lado, manchas de vegetação — como o estudo com o arbusto Cordia multispicata bem mostrou — facilitam essa sucessão, atraindo aves e formando núcleos de regeneração.

A recuperação depende menos do que morreu e mais do que sobrou vivo e de quem transporta as sementes.

Mudança de escala

Hoje, passadas cerca de quatro décadas desses estudos, o problema mudou de escala. O El Niño de 2015 e 2016 matou cerca de 2,5 bilhões de caules em uma região equivalente a apenas 1,2% da Amazônia brasileira, com emissão de 495 teragramas de CO2 (1 teragrama, ou Tg, equivale a 1 milhão de toneladas).

No Baixo Tapajós, os incêndios atingiram florestas manejadas por populações tradicionais em territórios coletivos. Os estudos que fizemos na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns mostraram perdas expressivas. A biomassa acima do solo caiu 44% após um incêndio e 71% após dois. A área basal (que é a área ocupada pelos troncos das árvores no chão, o que nos ajuda a estimar a quantidade de madeira presente em uma floresta) diminuiu 27,5% e 53,8%, e o dossel (camada formada pelas copas das árvores) foi mais afetado pelo segundo fogo, diminuindo 44%.

A riqueza da fauna caiu pela metade depois de dois incêndios, atingindo espécies dominantes e raras. A floresta madura converteu-se em um mosaico dominado por pioneiras de vida curta e por poucas espécies menos sensíveis ao fogo.

Outros trabalhos na mesma paisagem completam o quadro. O banco de sementes do solo, que é a reserva de sementes viáveis acumuladas na terra, foi examinado como via de recuperação dessas florestas queimadas. O estudo mostrou que, embora apresente altas densidades de sementes, esses bancos são naturalmente pobres em espécies.

Já levantamento de dez espécies de palmeiras do território mostrou que a riqueza não diferiu entre habitats, mas a abundância foi maior nos ambientes perturbados. Isso porque as palmeiras são verdadeiras “sobreviventes ao fogo”.

Quando uma floresta sofre com queimadas, as árvores grandes morrem, o que abre o dossel da mata e deixa a luz entrar direto até o chão. Como as palmeiras adoram luz, têm sementes resistentes e tecidos que suportam o calor, elas aproveitam esse espaço vazio e iluminado para se multiplicarem rapidamente.

O que essas pesquisas mostram é que a contagem de plantas se recompõe. A identidade da floresta, não.

Comparação com o cerrado

A comparação com o cerrado ajuda a entender o problema. Ali o fogo é constitutivo. Ao longo do gradiente que vai do campo limpo ao cerrado sentido restrito, as cargas de combustível ficam entre 7.128 e 10.031 kg/ha. As gramíneas representam de 91% a 94% da biomassa e os incêndios consomem cerca de 97% do combustível fino. Existe ali uma relação circular entre vegetação, combustível e comportamento do fogo, que favorece as gramíneas ao danificar os tecidos aéreos de árvores e arbustos.

Plantas de cerrado têm casca espessa e suberosa, órgãos subterrâneos de reserva, rebrotam e florescem depois da queima. Plantas amazônicas não. O mesmo evento que abre nichos no cerrado destrói estrutura na floresta.

Na Amazônia, as árvores pagam a conta porque têm casca fina. Em florestas queimadas do leste amazônico, a mortalidade de copa ficou entre 64% e 97% e, oito meses depois, de 36% a 69% das árvores estavam mortas, sem qualquer rebrota. As sobreviventes rebrotaram da base, mecanismo comum em plantas de savana e raro na flora florestal.

O fogo recorrente empurra a floresta na direção de um estado dominado por gramíneas e ainda mais inflamável.

Restauração biocultural

Para quem vive nesses territórios, o que importa não é o número de caules por hectare, mas quais espécies voltam. Uma floresta degradada pelo fogo deixa de fornecer frutos, fibras, remédios, madeira e caça. Daí a proposta de tratar essas florestas pela via da restauração biocultural, uma abordagem de recuperação ambiental que considera ao mesmo tempo a natureza e a cultura das pessoas que vivem ou têm relação com aquele território.

É possível combinar a ecologia da restauração com o conhecimento tradicional. Em três comunidades indígenas da Resex Tapajós-Arapiuns, nossos estudos mostraram que os residentes identificam as causas e as consequências da degradação pelo fogo, reconhecem as perdas e estão dispostos a agir.

O caminho tem duas frentes:

  • Prevenir, com manejo integrado do fogo, brigadas comunitárias e redução das fontes de ignição;

  • Restaurar, conduzindo a regeneração natural, enriquecendo as áreas com espécies bioculturais prioritárias, apoiando redes de sementes e a organização comunitária.

A floresta amazônica se recupera do fogo. Mas, ao contrário do cerrado, ela não se recupera sozinha nem volta a ser a mesma. Recuperação, aqui, é algo que precisa ser construído.

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Ima Vieira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

منبع
The Conversation Brasil
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