Garantir alimento fresco, saudável, orgânico ou agroecológico, direto do agricultor, sem intermediário. É o que o Instituto Baru, no bairro do Butantã, em São Paulo, oferece a seus frequentadores. Fundado em 2018, a partir de uma iniciativa dos pais de uma escola pública da região que começaram a se organizar para comprar produtos saudáveis, o Baru cresceu ao longo dos anos, tornando-se uma referência.
“Minha mulher é vegetariana, então a gente faz uma compra mais intensa de produtos vegetais. Aí a gente encontrou o pessoal aqui com preço razoável, bem abaixo dos outros locais aqui, principalmente o hortifruti, e a gente passou a consumir aqui. Então, semanalmente eu faço uma compra aqui, parecida com essa aqui”, afirma o engenheiro aposentado Vanderlei Garcia.
Para garantir diversidade, o Baru procura trazer alimentos de todo o país. “A gente tem produto do Brasil inteiro aqui. A parte de armazém vem coisa da Amazônia. Tem café da Amazônia, tem baru do Cerrado, tem muita coisa do Brasil todo aqui. Parte da feira vem todos os dias e aí pode vir de vários lugares. A nossa feira normalmente vem da cidade de São Paulo mesmo, uma cooperativa aqui de São Paulo, ou então do entorno de São Paulo, Ibiúna, Sorocaba”, conta Edgard Galvão, associado do Instituto Baru.
Além da perspectiva de uma alimentação saudável e sem veneno, a iniciativa garante o resgate de conhecimentos tradicionais, como conta uma das produtoras, Lia Gois de Moura, filha de pai alemão e mãe indígena e que produz em Parelheiros, bairro da zona sul de São Paulo, há décadas.
“Quando eu fui fazer o curso pela IBD [Instituto Biodinâmico], eu, às vezes, ficava explicando como que fazia. Minha mãe usa calda de arruda para espantar o pulgão, calda de alho, calda de pimenta. Minha mãe consorcia o coentro junto com a couve para que não haja insetos e formigas. Sempre na experiência. O pessoal falava: você só não tem a certificação, porque sua produção já é toda orgânica”, conta.
Dessa forma, o Baru consegue conectar pequenos produtores que perceberam e estão procurando mudar seu modo de produção.
“Hoje o agricultor está bem inclinado na questão da produção dos alimentos orgânicos. Eu falo isso porque os agricultores estão cada vez mais entendendo que a produção com veneno não prejudica só quem consome, mas também prejudica quem produz esse alimento”, explica Everton Bezerra de Oliveira, do Instituto Terra Viva, que articula uma rede de fornecedores de produtos orgânicos, que inclui agricultores familiares e assentados da reforma agrária.
“Hoje o orgânico oferece resultados que vão além do alimento. Você tem água não contaminada, você tem solo não contaminado, você tem uma utilização menor de insumos. Então, os agricultores têm hoje um outro olhar para a produção dos orgânicos”, completa Oliveira.
Quem chega para comprar no Baru vê nas gôndolas o preço sugerido por esses produtores. No caixa, o frequentador pode contribuir para a manutenção do lugar voluntariamente. A sugestão é de 35% sobre o valor da compra, mas pode ser mais ou menos.
“Ela fala: ‘Pode pôr a contribuição?’ A gente acha mais do que natural? Claro que pode, senão as pessoas estão trabalhando de graça, né? Mas, enfim, eles deixam como opcional”, conta o videomaker Sérgio Campos, frequentador do local desde o início.
A relação com os consumidores busca ser transparente. “A gente tem uma premissa aqui dentro do instituto, que é a transparência. Da mesma forma que a gente coloca o preço do produtor, que a gente paga ao produtor nas gôndolas, a gente também faz uma prestação de contas para que as pessoas saibam para onde está indo essa contribuição que é dada ao instituto”, explica Galvão. Essa prestação de contas é fixada atrás do caixa do espaço.
Com uma média de duzentas pessoas por dia frequentando o local, o Baru, que existe há oito anos, quer oferecer ainda mais. “A gente quer transformar isso aqui num polo cultural com música, arte, dança e bem-estar, para as pessoas darem aula de ioga, ter um cinema. A gente já teve sessão de cinema aqui noturna. Toda primeira quarta-feira do mês, a gente vai voltar com os saraus também, daqui do Baru, microfone aberto. Então a ideia é ser também um polo cultural”, explica uma das fundadoras do instituto, Juliana Mari Giovanardi.
Ao mesmo tempo que procura trabalhar com a comunidade do bairro, o Baru também aposta numa integração com o produtor. “A gente quer fazer formação, a gente quer ajudar muito esses produtores. A gente quer fortalecer cada vez mais esses laços com os produtores, ajudando na logística”, explica Galvão.
A logística é um dos grandes gargalos para o pequeno agricultor. Por isso, Oliveira defende uma ampla política pública para a produção tanto orgânica quanto agroecológica, voltada para o pequeno agricultor. “O alimento orgânico ainda não é produzido na escala. Ainda se gasta muito para fazer uma produção de qualidade”.
“Quando a gente fala de sobrevivência, de iniciativas como o Baru, a gente precisa falar de política pública. Esses equipamentos servem muito às pessoas que estão no entorno, oferecendo alimento de qualidade a preço justo. Mas, para o alimento estar aqui, ele precisa ser produzido e chegar aqui no Baru. Quando a gente fala de política pública, a gente entende que o Estado precisa participar desse processo”, conclui Oliveira.
