Marco temporal, despejo e mineração ameaçam território Pataxó no litoral da Bahia

Por Diego Junqueira08/09/2026 às 08:018 visualizações
Lideranças indígenas participam de uma das reuniões da câmara de conciliação do STF sobre o marco temporal, coordenada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi encerrada em julho de 2025 sem acordo (Foto: Gustavo Moreno/STF)
Lideranças indígenas participam de uma das reuniões da câmara de conciliação do STF sobre o marco temporal, coordenada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi encerrada em julho de 2025 sem acordo (Foto: Gustavo Moreno/STF)
Reporter Brasil

ALVOS de uma ordem de despejo que pode tirar mais da metade de suas terras, os Pataxó da Terra Indígena (TI) Aldeia Velha, no sul da Bahia, enfrentam uma nova pressão sobre o território: o avanço de projetos de mineração, inclusive de terras raras.

A área está cercada por ao menos 34 requerimentos minerários em um raio de 8 km — distância em que a legislação considera a possibilidade de haver impactos sobre áreas indígenas. Metade dos pedidos foi protocolada nos últimos dez anos, segundo dados da ANM (Agência Nacional de Mineração) analisados pela Repórter Brasil.

Para lideranças indígenas, a corrida minerária acirra uma disputa de mais de 40 anos entre a comunidade e uma empresa agrícola pela posse da área. “Não era só a especulação imobiliária. É a mineração”, afirma a vice-cacica Ahnã Pataxó.

Com 2 mil hectares e aproximadamente 2 mil moradores, a TI Aldeia Velha foi homologada pelo presidente Lula em 2024, mas é alvo de uma ação de reintegração de posse desde 2006, movida pela Cosvar Agropecuária. A empresa reivindica 1.275 hectares da área — quase dois terços da TI

Conhecida como Fazenda Santo Amaro —em referência a um histórico aldeamento indígena no local —, a área foi adquirida pelos fazendeiros em 1983, e registrada dois anos depois em um cartório de Porto Seguro (BA).

Contudo, em 1998 os Pataxó retomaram a área, alegando que o local seria de uso tradicional do povo indígena. No mesmo ano teve início o processo de demarcação.  Os estudos da Funai, aprovados em 2008, registram a ocupação indígena no local desde o século 16, quando ali  existia o aldeamento de Santo Amaro. 

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O documento afirma que famílias Pataxó de várias regiões do litoral sul da Bahia mantiveram vínculos permanentes com a área, utilizada para moradia, agricultura, pesca, caça e coleta. Algumas viveram ali por décadas, enquanto outras frequentavam o território de maneira temporária. 

A permanência é sustentada, de acordo com a Funai, por documentos, memória oral e vestígios arqueológicos, como antigos locais de moradia, pomares, sambaquis e fornos usados para produzir farinha.

Segundo a Funai, a partir das décadas de 1960 e 1970, com a chegada de fazendeiros, muitos Pataxó foram expulsos. Em 1983, quando a Cosvar assumiu a Santo Amaro, havia cerca de 13 famílias indígenas no local. Segundo a Funai, os Pataxó passaram a sofrer ameaças, restrições ao uso da terra e outras formas de pressão para deixarem o local.

A maioria das famílias se dispersou pela região, com exceção de uma, a de Dona Dió. O núcleo serviu de base para a organização dos chamados “Pataxó sem terra”. Em 1993, eles fizeram uma primeira tentativa frustrada de retomada da terra. Cinco anos depois, cerca de 40 famílias Pataxó ocuparam a área e fixaram residência.

Após a homologação da TI em 2024, a Cosvar recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) com um mandado de segurança. Relator do caso, o ministro André Mendonça acolheu o pedido da empresa, anulou o decreto de Lula e pediu a reabertura do processo demarcatório. 

Lideranças indígenas participam de uma das reuniões da câmara de conciliação do STF sobre o marco temporal, coordenada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi encerrada em julho de 2025 sem acordo (Foto: Gustavo Moreno/STF)
Lideranças indígenas participam de uma das reuniões da câmara de conciliação do STF sobre o marco temporal, coordenada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi encerrada em julho de 2025 sem acordo (Foto: Gustavo Moreno/STF)
Lideranças indígenas participam de uma das reuniões da câmara de conciliação do STF sobre o marco temporal, coordenada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi encerrada em julho de 2025 sem acordo (Foto: Gustavo Moreno/STF)

Mendonça entendeu que, como a Cosvar não havia sido indenizada antes da demarcação, a homologação violaria o direito de propriedade. Na decisão, o ministro ignora a presença histórica dos indígenas na área, apontada pela Funai, e destaca que a “ocupação indígena” ocorreu “apenas após a promulgação da Constituição”.

Os argumentos de Mendonça fazem referência ao “marco temporal”, tese jurídica segundo a qual os indígenas só teriam direito às terras que ocupavam ou disputavam em outubro de 1988, data de promulgação da Constituição. A regra é criticada por lideranças indígenas e organizações da sociedade civil por ignorar expulsões e outras violências sofridas pelas comunidades.

Embora tenha considerado o marco temporal inconstitucional em duas ocasiões, o STF admitiu a possibilidade de indenização pela terra nua a proprietários de boa-fé em algumas situações. O assunto é analisado no julgamento do Tema de repercussão geral 1.031, que ainda não foi finalizado. Foi com base neste processo que Mendonça anulou a homologação da TI Aldeia Velha.

A decisão de Mendonça não é definitiva. Ela foi questionada pela Advocacia Geral da União e pela Procuradoria-Geral da República, e os recursos aguardam julgamento do Supremo.

Mesmo sem o encerramento do caso, a 1ª Vara Federal de Eunápolis autorizou o despejo. Em julho, no entanto, o ministro Mendonça suspendeu temporariamente a reintegração de posse, até que os recursos sejam julgados.

Para a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), o processo no STF cria um precedente perigoso. “Fazendeiros estão usando o mandado de segurança como instrumento político, para barrar a efetivação dos direitos indígenas. Trata-se de uma ameaça gravíssima, porque homologações presidenciais e processos demarcatórios não podem ser suspensos ou relativizados a favor de disputas pela posse individual da terra”, diz a organização.

A Repórter Brasil procurou a Cosvar Agropecuária por e-mail, telefone e mensagem de aplicativo, mas não obteve retorno até a publicação do texto.

Assinaura da TI Aldeia Velha pelo presidente Lula ocorreu em abril de 2024, durante a 1ª reunião do Conselho Nacional de Políticas Indigenistas (CNPI), ao lado da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski (Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert/PR)
Assinaura da TI Aldeia Velha pelo presidente Lula ocorreu em abril de 2024, durante a 1ª reunião do Conselho Nacional de Políticas Indigenistas (CNPI), ao lado da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski (Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert/PR)
Assinaura da TI Aldeia Velha pelo presidente Lula ocorreu em abril de 2024, durante a 1ª reunião do Conselho Nacional de Políticas Indigenistas (CNPI), ao lado da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski (Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert/PR)

Pataxó apontam cerco minerário no entorno da Aldeia Velha

Ao se mobilizarem contra o despejo, os Pataxó da TI Aldeia Velha descobriram estar pressionados também pela mineração. 

A Repórter Brasil teve acesso a uma representação que as lideranças preparam para entregar ao MPF (Ministério Público Federal) e a outros órgãos públicos, na qual identificam dezenas de processos minerários no entorno da terra indígena. 

No documento, os Pataxó dizem que o processo de reintegração de posse “dissimula operação de cercamento territorial”, a fim de “remover a comunidade indígena para beneficiar exploração de recursos minerais”. Se as extrações minerárias se efetivarem, argumentam, ficarão em uma “bolha isolada”, confinados por um anel de mineração. 

“Quando chegou essa sentença [de despejo], começamos a querer entender o porquê de a gente incomodar tanto”, relata Ahnã Pataxó, vice-cacica da TI Aldeia Velha. “A gente começou a pesquisar e viu que a mineração está aqui. E a gente ainda disperso no território. Precisou vir isso aí para que a gente percebesse realmente a intenção de nos tirar daqui”, afirma.

A Repórter Brasil questionou a Cosvar Agropecuária se a ação de reintegração de posse teria alguma relação com as requisições minerárias, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

Mapa da TI Aldeia Velha mostra os processos minerário no entorno da TI Aldeia Velha (Mapa: Pedro Stropasolas e Rodrigo Bento/Repórter Brasil)
Mapa da TI Aldeia Velha mostra os processos minerário no entorno da TI Aldeia Velha (Mapa: Pedro Stropasolas e Rodrigo Bento/Repórter Brasil)
Mapa da TI Aldeia Velha mostra os processos minerário no entorno da TI Aldeia Velha (Mapa: Pedro Stropasolas e Rodrigo Bento/Repórter Brasil)

Análise de processos minerários aponta falta de consulta à comunidade indígena 

A reportagem cruzou dados do Sigmine (Sistema de Informações Geográficas da Mineração) da ANM e identificou 34 requisições minerárias a menos de 8 km da TI Aldeia Velha.

O entorno de uma Terra Indígena não é uma área de preservação integral nem de uso proibido, mas tem restrições de uso, de acordo com os atos normativos vigentes da Funai.

A Portaria Interministerial 60/2015 considera a possibilidade de impactos ambientais quando atividades de mineração ocorrem a menos de 8 km de terras indígenas fora da Amazônia. Os impactos só são descartados a partir de estudos feitos durante o processo de licenciamento ambiental. 

Já a Instrução Normativa 2/2015 prevê que o órgão licenciador estadual comunique a Funai quando empreendimentos possam “ocasionar impacto socioambiental direto”.

Além disso, a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil em 2004, determina a consulta a comunidades tradicionais afetadas por empreendimentos econômicos.

Das 34 requisições minerárias no entorno da TI Aldeia Velha, apenas uma está em fase de operação, para exploração de água mineral. Outras 11 estão em fase de licenciamento ou com direito de requerer a lavra (todas para exploração de areia ou argila). As 22 restantes já têm autorização de pesquisa pela ANM, incluindo três de terras raras.

Somadas, as áreas cobiçadas pela mineração chegam a 8,6 mil hectares, cerca de quatro vezes o tamanho do território indígena. À Repórter Brasil, a comunidade afirma que só soube agora das requisições minerárias na região e que jamais foi consultada sobre quaisquer destes empreendimentos.

“A comunidade indígena de Aldeia Velha nunca teve oportunidade de ser ouvida. A falta de respeito é muito grande e atropela os direitos dos povos originários”, frisa Ahnã Pataxó. 

Os órgãos estatais confirmaram que não houve qualquer consulta aos Pataxó de Aldeia Velha. Questionado, o Inema, órgão ambiental da Bahia, recomendou que a pergunta fosse feita ao Ibama. O Ibama disse que a competência é da ANM

A ANM, por sua vez, informou que “a legislação vigente não veda a outorga de títulos minerários em áreas contíguas a terras indígenas”. Leia as manifestações na íntegra.

Procurada pela reportagem, a Funai recebeu seis e-mails e se comprometeu a responder, mas não o fez até o fechamento deste texto. 

Ricardo Terena, do setor jurídico da Apib, destaca que “o critério da obrigatoriedade de consulta é o de impacto na comunidade, direto ou indireto”, e acrescenta que na Convenção 169 da OIT “nem se fala de perímetro”. 

Ele destaca também que “a consulta tem que ser prévia”, o que não aconteceu nestes casos. “Se há requisições minerárias ao redor da TI, já são procedimentos em andamento. A primeira coisa que deveria ser feita, a partir do surgimento destes requerimentos, é a consulta à comunidade”.

Uma das preocupações dos Pataxó é em relação à possível contaminação de rios pela exploração de terras raras — conjunto de 17 elementos químicos essenciais à transição energética e às indústrias bélica e de tecnologia.

Os três requerimentos na área de influência da TI ocupam 2,1 mil hectares, estando a aproximadamente 500 metros do território e em cima do Rio Buranhém, um dos mais importantes da região. “É nossa fonte de vida”, resume dona Jaçanã Pataxó, pajé da Aldeia Velha. 

“Os brancos querem tomar as terras indígenas. Os brancos são ricos, não precisam. Será que o coração deles não dói? Acho que deve doer. Porque nesta aldeia os indígenas se criaram, é nosso lugarzinho. Como é que vamos viver?”, questiona dona Jaçanã. 

“Realmente o céu vai desabar. As pessoas querem cavar a terra para tirar todas as riquezas do solo, destruir história, memória, sustento de um povo sem sequer perguntar”, critica a vice-cacica Ahnã Pataxó, citando os livros “Como adiar o fim do mundo” (Ailton Krenak) e “A queda do céu” (Davi Kopenawa). “Que a população não deixe a responsabilidade para nós e se levante também”, finaliza. 

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