‘Identidade própria e soberana’: público leva pautas políticas para arquibancada do 7 de Setembro em Brasília

Por Kennedy Cruz07/09/2026 às 19:014 visualizações
Faixa do eixo “Soberania, a força que une o Brasil”, na Esplanada dos Ministérios, durante o desfile nesta-segunda feira (7)
Faixa do eixo “Soberania, a força que une o Brasil”, na Esplanada dos Ministérios, durante o desfile nesta-segunda feira (7)
Foto: | / Brasil de Fato

O desfile cívico-militar de 7 de Setembro levou mais de 70 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, segundo a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). A escolha da soberania como tema central ocorre em um ano eleitoral e em meio ao debate sobre a autonomia econômica e política do país.

Para Wallace Benites, militante do Movimento dos Atingidos por Mineração (MAM) e morador do Riacho Fundo I, a discussão ganha importância diante das disputas envolvendo recursos naturais, indústria e interesses estrangeiros.

“Criar uma identidade própria e soberana é cada vez mais importante diante dos acontecimentos geopolíticos que estamos tendo. A ameaça estrangeira, a falta de uma consciência nacional de desenvolvimento na mineração, na indústria, a crescente onda de privatizações e entreguismo”, refletiu o militante.

Realizado nesta segunda-feira (7), o desfile reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a primeira-dama Janja da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin, além dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin.

A cerimônia foi organizada em três eixos temáticos: “Soberania, a força que une o Brasil”, “Brasil unido pela proteção de meninas e mulheres” e “Copa do Mundo Feminina 2027 é no Brasil!”. A programação começou por volta das 9h, após a chegada de Lula, e durou cerca de duas horas. O desfile contou com tropas das Forças Armadas, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, além de desfile motorizado e hipomóvel, apresentação da Pirâmide Humana e da Esquadrilha da Fumaça.

Agricultura familiar

A agricultura familiar também esteve entre os grupos representados no primeiro eixo da cerimônia. Pela primeira vez, agricultores participaram do desfile, em uma ala que reuniu integrantes de movimentos do campo. Seis caminhonetes carregadas de alimentos fizeram parte da apresentação e formaram a palavra Brasil.

Denilva Araújo, integrante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), participou da ala e destacou a emoção de representar camponeses durante a cerimônia.

“Participar deste desfile é sentir que a história de milhares de camponeses e camponesas está sendo reconhecida. Estar aqui representa orgulho, responsabilidade e esperança. Orgulho por representar a agricultura familiar e camponesa; responsabilidade por carregar a história de tantas famílias do campo”, afirmou.

Para Denilva, a presença dos agricultores também reforça a relação entre a produção de alimentos e a autonomia do país. “Não existe soberania nacional sem soberania alimentar. Hoje, desfilamos não apenas por nós, mas por todos aqueles que, todos os dias, ajudam a alimentar o país. Em todo momento eu me arrepiava, sobretudo quando éramos aplaudidos”, relatou.

Tatiana Brandão, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também participou da ala e foi ao desfile pela primeira vez. Segundo ela, estar na cerimônia foi uma forma de marcar a presença dos movimentos sociais. “É importante a gente estar aqui e presente nessa ala, com a nossa gente, para fortalecer e marcar presença”, afirmou.

Seis caminhonetes levaram alimentos que formaram a palavra “Brasil” durante a apresentação |
Seis caminhonetes levaram alimentos que formaram a palavra “Brasil” durante a apresentação | — Mayra Souza
Seis caminhonetes levaram alimentos que formaram a palavra “Brasil” durante a apresentação | Crédito: Mayra Souza

Fim da escala 6×1

A defesa da soberania não foi a única pauta política presente entre o público. Antes e durante a cerimônia, manifestantes também defenderam o fim da escala 6×1. A reivindicação trabalhista apareceu entre as palavras de ordem ouvidas na Esplanada e dividiu espaço com manifestações de apoio ao governo Lula.

Moradora da Asa Norte, a engenheira civil Olanise Ferreira, de 63 anos, acompanha o desfile há décadas. Ela afirma que a redução da jornada é importante para garantir mais tempo de descanso aos trabalhadores.

“O fim da escala 6×1 é muito importante para que o brasileiro possa descansar. A gente diz que trabalha 8 horas por dia, mas não são 8 horas, porque você gasta mais 4 horas de deslocamento de casa até o trabalho, do trabalho para a casa”, destacou.

Público acompanha a cerimônia na Ala B da Esplanada dos Ministérios |
Público acompanha a cerimônia na Ala B da Esplanada dos Ministérios | — Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF
Público acompanha a cerimônia na Ala B da Esplanada dos Ministérios | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Verde e amarelo

Em um ano de eleições, os símbolos nacionais também ganharam significado político entre os participantes. Apesar das restrições para a entrada com cartazes e bandeiras nas áreas do desfile, a movimentação do lado de fora foi marcada pela presença desses símbolos e por manifestações políticas.

Para Tatiana Brandão, a presença de movimentos sociais na cerimônia também representa uma disputa pelo significado da ideia de pátria e dos símbolos nacionais, associados à direita nos últimos anos.

“A direita se apropriou dessa coisa do verde e amarelo, da pátria, da nossa bandeira. Precisamos mostrar que não é só deles, é nossa também. É do pessoal progressista que pensa em um Brasil soberano, solidário, mais justo, com mais políticas públicas para todo mundo”, afirmou.

Tatiana Brandão participou da cerimônia ao lado de integrantes do MST |
Tatiana Brandão participou da cerimônia ao lado de integrantes do MST | — Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF
Tatiana Brandão participou da cerimônia ao lado de integrantes do MST | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

O caráter político da cerimônia também apareceu entre os espectadores. Gritos de “Lula, eu te amo” foram ouvidos na Esplanada durante o desfile, em meio às manifestações de apoio ao presidente e à defesa de pautas trabalhistas. A professora aposentada Elizabeth Ramos, moradora da Octogonal, afirmou que acompanha o 7 de Setembro há anos. Para ela, a discussão sobre soberania passa diretamente pela escolha do próximo presidente.

“Todos nós, brasileiros, deveríamos nos conscientizar e votar certo, votar no presidente Lula, porque é o presidente que trabalha em prol do povo trabalhador, pela soberania do país. Se a gente eleger o filho do Bolsonaro [Flávio Bolsonaro], nós estamos dando continuidade ao golpe do 8 de janeiro”, destacou.

Elizabeth Ramos acompanhou a cerimônia na Esplanada dos Ministérios |
Elizabeth Ramos acompanhou a cerimônia na Esplanada dos Ministérios | — Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF
Elizabeth Ramos acompanhou a cerimônia na Esplanada dos Ministérios | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Lula participou da cerimônia ao lado de autoridades dos Três Poderes. Hugo Motta e Davi Alcolumbre estiveram na tribuna presidencial, assim como o ministro do STF Edson Fachin, acompanhado da esposa. Também participaram da cerimônia o vice-presidente Geraldo Alckmin e sua esposa, Lu Alckmin, além de 29 ministros e ministras de Estado e outras autoridades do governo federal.

Do lado de fora

A grande movimentação também expôs dificuldades de acesso às áreas destinadas ao público. Apesar da presença de milhares de pessoas na Esplanada, parte dos espectadores não conseguiu entrar nas arquibancadas. Entre eles estava Sandro Alves de Sousa, morador do Recanto das Emas, que chegou acompanhado da esposa e dos dois filhos.

Segundo ele, a família chegou por volta das 9h, mas foi informada de que as pulseiras de acesso haviam acabado. Era a primeira vez que Sandro levava os filhos para acompanhar o desfile. “Disseram que, por medida de segurança, acabaram as pulseiras. Eu vim com a minha família, minha esposa e meus dois meninos. A gente não conseguiu assistir nada, só vimos os aviões passando aqui em cima”, relatou.

Mulheres e futebol feminino

O segundo eixo da cerimônia foi dedicado à proteção de meninas e mulheres e ao enfrentamento da violência de gênero. A apresentação levou para a Esplanada mensagens de conscientização e referências aos serviços de atendimento às vítimas.

Já o terceiro eixo foi dedicado à Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. A programação reuniu atletas, estudantes e ex-jogadoras que participaram de diferentes momentos da história da seleção brasileira. A cerimônia também contou com a participação de estudantes de escolas públicas e outras representações civis ao longo da programação.

Depois dos blocos temáticos, tropas da Marinha, do Exército e da Força Aérea passaram pela Esplanada. O desfile militar incluiu veículos e equipamentos das Forças Armadas, além da apresentação da Esquadrilha da Fumaça, que encerrou a programação.


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Fonte
Brasil de Fato
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